segunda-feira, 11 de maio de 2026

ARTE & MEDICINA - 96. As Duas Fridas — 1939

 

96. Las dos Fridas (As Duas Fridas) — 1939


Descrição Técnica

Autora: Frida Kahlo (1907-1954)

Título: Las dos Fridas (As Duas Fridas)

Ano: 1939

Técnica: óleo sobre tela

Dimensões: 173 x 173,5 cm

Localização atual : Museu de Arte Moderna do México, Cidade do México

Crédito da Imagem: Domínio público

 

AS DUAS FRIDAS: dor, identidade e anatomia emocional

“Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”
Frida Kahlo
   

Na tela “As duas Fridas”, em primeiro plano, vemos duas mulheres sentadas, sobre um banco verde, de mãos dadas. São duas representações da própria Frida Kahlo.  A da direita está vestida com saia longa e blusa de mangas curtas, de cores fortes, como as roupas das índias mexicanas Tehuanas, segurando um talismã com um retrato de Diego criança; a figura da esquerda está vestida como uma europeia: saia longa branca, bordada com flores vermelhas, e uma blusa branca de renda, com gola alta e mangas bufantes.

Os corações das duas estão expostos e ligados por veias braquiocefálicas. O da Frida mexicana está intacto e o da europeia está aberto, dilacerado, com as estruturas internas (válvulas, músculos papilares e cordas tendíneas) visíveis.  A veia subclávia direita da Frida europeia está partida, gotejando e presa por uma pinça cirúrgica que ela controla para estancar, ou não, a hemorragia. Os detalhes das mãos e dos corações, mostram que a Frida mexicana apoia e mantém viva a Frida europeia. Ao fundo, um céu tempestuoso e carregado de nuvens reforça a atmosfera de sofrimento emocional e instabilidade psicológica que permeia a obra. A pintura foi realizada em 1939, período em que Frida enfrentava a dolorosa separação de Diego Rivera, fato que influenciou profundamente o conteúdo simbólico da tela.

Em 1950, onze anos após pintar a obra, Frida registrou em seu diário uma lembrança da infância relacionada à dualidade presente na pintura:

“ORIGEM DAS DUAS FRIDAS = Lembranças. Eu devia ter 6 anos quando vivi intensamente a amizade imaginária com uma menina mais ou menos da mesma idade. Não me lembro de sua imagem e nem de sua cor. Mas sei que era alegre. Ela ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse peso algum. Eu a seguia em todos os seus movimentos e enquanto ela dançava eu lhe contava meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Mas ela sabia pela minha voz todas as minhas coisas (…)”

A dualidade do quadro “As duas Fridas” nos remete, também, à Frida e a sua amiga imaginária de infância, que dançava alegremente, enquanto ela sofria com as sequelas da poliomielite, que havia sido acometida.

Em 1947, Instituto Nacional de Belas Artes da Cidade do México adquiriu “As duas Fridas” por 4.000 pesos. Uma reprodução  deste quadro está no Museu Frida-Kahlo (Casa Azul), em Coyoacán, no México, maravilhando os visitantes.

 

Breve Biografia de Frida Kahlo (1907–1954)

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu em Coyoacán, no México, em 6 de julho de 1907. Filha do fotógrafo alemão naturalizado mexicano Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón y González, de ascendência indígena e espanhola, Frida tornou-se uma das artistas mais importantes da história da arte latino-americana.

Aos seis anos de idade, contraiu Poliomielite, enfermidade que deixou sequelas permanentes em sua perna direita, levando-a a usar saias longas durante toda a vida. Posteriormente, enfrentou inúmeros problemas de saúde e foi submetida a mais de trinta cirurgias. Em 1925, aos dezoito anos, sofreu um grave acidente quando o ônibus em que viajava colidiu com um bonde. O impacto provocou múltiplas fraturas na coluna vertebral, na pelve e na perna direita, além de ferimentos internos severos causados por uma barra de ferro que atravessou seu corpo. Durante o longo período de recuperação, começou a pintar autorretratos, transformando a dor física e emocional em expressão artística. Em 1928, ingressou no Partido Comunista Mexicano, ocasião em que conheceu Diego Rivera, com quem se casou no ano seguinte. O relacionamento foi intenso e conturbado, marcado por separações, reconciliações e infidelidades. O divórcio ocorreu em 1939, seguido de um novo casamento em 1940.

A produção artística de Frida Kahlo é profundamente autobiográfica e marcada pela representação do corpo ferido, da dor, da maternidade frustrada e da identidade feminina. Em suas pinturas, anatomia, sofrimento e emoção fundem-se em imagens simbólicas que aproximam arte e medicina. Frida Kahlo faleceu em 13 de julho de 1954, em Coyoacán, aos 47 anos, vítima de embolia pulmonar. Sua obra permanece como um dos maiores testemunhos visuais da relação entre sofrimento físico, identidade e criação artística.

Referências

Frida Kahlo. Diário de Frida Kahlo: Um íntimo autorretrato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

Herrera, Hayden. Frida: A Biografia de Frida Kahlo. São Paulo: Globo Livros, 2011.

Tibol, Raquel. Frida Kahlo: Uma Vida Aberta. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

As duas Fridas. 1939. Óleo sobre tela. Acervo do Museo de Arte Moderno.

Jamis, Rauda. Frida Kahlo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

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