96. Las dos Fridas (As Duas Fridas) — 1939
Descrição Técnica
Autora: Frida Kahlo (1907-1954)
Título: Las dos Fridas (As Duas Fridas)
Ano: 1939
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 173 x
173,5 cm
Localização atual : Museu de Arte Moderna do México, Cidade do México
Crédito
da Imagem: Domínio público
AS DUAS
FRIDAS: dor, identidade e anatomia emocional
“Pinto a
mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”
Frida Kahlo
Na tela “As duas Fridas”, em primeiro plano, vemos duas mulheres
sentadas, sobre um banco verde, de mãos dadas. São duas representações da
própria Frida Kahlo. A da direita está vestida com saia longa e
blusa de mangas curtas, de cores fortes, como as roupas das índias mexicanas
Tehuanas, segurando um talismã com um retrato de Diego criança; a figura da
esquerda está vestida como uma europeia: saia longa branca, bordada com flores
vermelhas, e uma blusa branca de renda, com gola alta e mangas bufantes.
Os corações das duas estão expostos e ligados por veias
braquiocefálicas. O da Frida mexicana está intacto e o da europeia está aberto,
dilacerado, com as estruturas internas (válvulas, músculos papilares e cordas
tendíneas) visíveis. A veia subclávia
direita da Frida europeia está partida, gotejando e presa por uma pinça
cirúrgica que ela controla para estancar, ou não, a hemorragia. Os detalhes das
mãos e dos corações, mostram que a Frida mexicana apoia e mantém viva a Frida
europeia. Ao fundo, um céu tempestuoso
e carregado de nuvens reforça a atmosfera de sofrimento emocional e
instabilidade psicológica que permeia a obra. A pintura foi realizada em 1939,
período em que Frida enfrentava a dolorosa separação de Diego Rivera, fato que
influenciou profundamente o conteúdo simbólico da tela.
Em 1950, onze anos após pintar a obra, Frida
registrou em seu diário uma lembrança da infância relacionada à dualidade
presente na pintura:
“ORIGEM
DAS DUAS FRIDAS = Lembranças. Eu devia ter 6 anos quando vivi intensamente a
amizade imaginária com uma menina mais ou menos da mesma idade. Não me lembro de sua imagem e nem de sua cor. Mas sei
que era alegre. Ela ria muito. Sem sons. Era ágil e dançava como se não tivesse
peso algum. Eu a seguia em todos os seus movimentos e enquanto ela dançava eu
lhe contava meus problemas secretos. Quais? Não me lembro. Mas ela sabia pela
minha voz todas as minhas coisas (…)”
A dualidade do quadro “As duas Fridas” nos remete,
também, à Frida e a sua amiga imaginária de infância, que dançava alegremente,
enquanto ela sofria com as sequelas da poliomielite, que havia sido acometida.
Em 1947, Instituto Nacional de Belas Artes da Cidade do
México adquiriu “As duas Fridas” por 4.000 pesos. Uma reprodução deste quadro está no Museu Frida-Kahlo (Casa
Azul), em Coyoacán, no México, maravilhando os visitantes.
Breve
Biografia de Frida Kahlo (1907–1954)
Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón nasceu
em Coyoacán, no México, em 6 de julho de 1907. Filha do fotógrafo alemão
naturalizado mexicano Guillermo Kahlo e de Matilde Calderón y González, de
ascendência indígena e espanhola, Frida tornou-se uma das artistas mais
importantes da história da arte latino-americana.
Aos seis anos de idade, contraiu Poliomielite,
enfermidade que deixou sequelas permanentes em sua perna direita, levando-a a
usar saias longas durante toda a vida. Posteriormente, enfrentou inúmeros
problemas de saúde e foi submetida a mais de trinta cirurgias. Em 1925, aos
dezoito anos, sofreu um grave acidente quando o ônibus em que viajava colidiu
com um bonde. O impacto provocou múltiplas fraturas na coluna vertebral, na
pelve e na perna direita, além de ferimentos internos severos causados por uma
barra de ferro que atravessou seu corpo. Durante o longo período de
recuperação, começou a pintar autorretratos, transformando a dor física e
emocional em expressão artística. Em 1928, ingressou no Partido Comunista
Mexicano, ocasião em que conheceu Diego Rivera, com quem se casou no ano
seguinte. O relacionamento foi intenso e conturbado, marcado por separações,
reconciliações e infidelidades. O divórcio ocorreu em 1939, seguido de um novo
casamento em 1940.
A produção artística de Frida Kahlo é
profundamente autobiográfica e marcada pela representação do corpo ferido, da
dor, da maternidade frustrada e da identidade feminina. Em suas pinturas,
anatomia, sofrimento e emoção fundem-se em imagens simbólicas que aproximam
arte e medicina. Frida Kahlo faleceu em 13 de julho de 1954, em Coyoacán, aos
47 anos, vítima de embolia pulmonar. Sua obra permanece como um dos maiores
testemunhos visuais da relação entre sofrimento físico, identidade e criação
artística.
Referências
Frida Kahlo. Diário de Frida Kahlo: Um
íntimo autorretrato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
Herrera, Hayden. Frida: A Biografia de
Frida Kahlo. São Paulo: Globo Livros, 2011.
Tibol, Raquel. Frida Kahlo: Uma Vida Aberta.
São Paulo: Paz e Terra, 1999.
As duas Fridas. 1939. Óleo sobre tela. Acervo
do Museo de Arte Moderno.
Jamis, Rauda. Frida Kahlo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

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