Historicamente a
participação da mulher nas profissões ligadas à saúde, em especial à profissão
de médica, foi limitada, ainda que tenha sido importante o seu papel como
cuidadora. Proibida de estudar medicina, a grega Agnodice (século IV a.C.)
disfarçou-se de homem.
Na Idade Média,
poucos países permitiam a entrada de mulheres nas faculdades de medicina. A
abadessa alemã Hildegard de Bingen (1098-1179) foi exceção e tornou-se uma
médica renomada. Na Itália, séc. XI, a médica Trótula de Salerno (1050 -?) se
projetou. Na França, a primeira médica foi Madeleine Brès (1842-1921), que se
formou, em 1875. Na Suíça e na Rússia, as mulheres só conquistaram o direito de
estudar medicina na segunda metade do século XIX. Na Alemanha, Regina von
Siebold (1771-1849) foi a primeira médica.
No Brasil, no século XIX, as mulheres que
ousaram sonhar em se formar em medicina enfrentaram discriminação e
preconceito. Maria Augusta Generoso Estrela (1860-1946) foi a primeira mulher
brasileira a se formar em medicina, em 1881, com o apoio de D. Pedro II, mas
nos EEUU. Porém, foi a gaúcha Rita Lobato Velho Lopes (1866-1954) a primeira
mulher brasileira a se formar em numa escola brasileira. Ermelinda Lopes
(1866-1952) e Antonieta Dias, 1889, foram também pioneiras. Nise da Silveira,
alagoana, se formou em medicina na Bahia, em 1926, como
única mulher em uma turma de 157 homens.
Essa
proporção foi mudando e, hoje, a projeção revela que, em 2024, as mulheres
serão maioria entre os médicos no Brasil. Entre os anos de 2009 e 2022, o
número de mulheres passou de 133.000 para 260.000, ou seja, quase dobrou na
série histórica.
Entre os homens, o
crescimento foi mais lento no mesmo período, com acréscimo de cerca de 43%.
Entre 2023 e 2035, o crescimento previsto entre as médicas será de cerca de
118%, enquanto, entre os homens, será de 62%. As mulheres conseguiram uma
trajetória exitosa na profissão dedicada a arte de curar.
Psiquiatra
e pensadora alagoana Nise da Silveira | Foto: Itaú Cultural / Divulgação / CP
Nise da
Silveira, filha única de Faustino Magalhães da Silveira (1872-1927), professor
de matemática e jornalista, e de pianista Maria Lydia da Silveira (1885-1970), nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 15 de fevereiro de 1905, e cresceu em um ambiente de amor, arte, cultura e
harmonia.
Em sua
cidade natal, estudou no colégio de freiras para meninas, “Santíssimo
Sacramento”, concluindo o curso secundário com 15 anos de idade. De Maceió foi
para Salvador fazer o curso médico na Faculdade de Medicina da Bahia.
Em 1926, com apenas 21 anos e como a única
mulher em uma turma de 157 homens, colou grau em medicina ao lado de Mário
Magalhães da Silveira (1905-1986), seu primo, que tornou-se, além de um grande
médico sanitarista, companheiro de sua vida inteira.
Em 1927,
após a morte de seu pai, foi morar no Rio de Janeiro, onde especializou-se em
neurologia e psiquiatria. Em 1933, foi trabalhar no Serviço de Assistência a
Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha, depois de ser
aprovada em concurso público.
Foi presa
em 1936 e solta em 1937, após permanecer 18 meses no presídio Frei Caneca, onde
teve convivência com Olga Benário Prestes (1908-1942) e Graciliano Ramos (1892-1953),
que a citou 41 vezes em seu livro “Memórias do Cárcere”.
Sobre a
causa de sua prisão, ela falou: “Em 1936, início da ditadura Vargas, uma
enfermeira do hospital, percebendo na minha mesa, em meio a livros de
psiquiatria, literatura, arte, livros sobre marxismo, que eu também estudava,
denunciou-me à diretoria. Na mesma noite fui presa (...). Perdi o emprego e
fiquei afastada do serviço público, obtido por concurso, durante oito anos, sob
a alegação de pertencer a um círculo de ideias incompatíveis com a democracia.
Eu tinha contato com o Partido Comunista, mas não era uma militante política
ativa”.
Em 1944,
após sair da prisão e morar em vários estados do Nordeste, fugindo de
novas ameaças de encarceramento, Nise retornou ao serviço públicono “Centro Psiquiátrico Pedro II”, no Engenho
de Dentro.
Por discordar
da literatura psiquiátrica em voga que preconizava métodos agressivos de
tratamentos, como: eletroconvulsoterapia (eletrochoque), insulinoterapia,
lobotomia e confinamento, Nise se negou a utilizá-los.
Discordando
também da ideia de que o esquizofrênico é destituído de afetividade, ela
assumiu os trabalhos de terapia ocupacional do hospital Pedro II, criando, em
1946, a “Sessão de Terapêutica Ocupacional e Recreação (STOR)”, do referido
hospital.
Com uma
nova abordagem, baseada no afeto, ela conseguiu penetrar no mundo hermético de
seus “clientes”, como denominava seus pacientes, ajudando-os a se apropriarem
da realidade. Além das oficinas de trabalho artesanal, Nise criou os ateliês de
pintura e modelagem, valorizando a autonomia dos pacientes que eram, até então,
usados para prestar serviços no hospital.
Incompreendida
por seus pares, por buscar um caminho psicológico e não fisiológico, ela foi
perseguida, ridicularizada e hostilizada.Enfrentando muitas barreiras para levar adiante seu trabalho, ao
contrário de desistir, ela ampliou seus conhecimentos sobre a linguagem da arte
e o significado das fórmulas simbólicas.
Em 1952, Nise
fundou o “Museu de Imagens do Inconsciente” para preservar os trabalhos dos
pacientes e, alguns anos depois, fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica de
reabilitação para pacientes, em regime ambulatorial, para quebrar os ciclos de reinternação hospitalar.
Em dezembro
de 1954, escreveu uma carta a Carl Gustav Jung (1875-1971), psiquiatra e
psicoterapeuta suíço, com fotografias de pinturas (mandalas) de seus pacientes,
expondo sua experiência com a arte no tratamento dos esquizofrênicos. Recebeu
em seguida uma carta de Yung reconhecendo que as mandalas eram manifestações de
forças do inconsciente que tinham por finalidade compensar a dissociação
esquizofrênica.
Em 1957,
Nise foi estudar no Instituto C. G. Yung, em Zurique, estreitando suas relações
com Yung. Em seguida participou do “II Congresso Internacional de Psiquiatria”,
quando expôs obras do acervo do “Museu de Imagens do Inconsciente”.
Nise
treinou monitores que atuaram com êxito na terapia ocupacional. Um de seus
clientes, Emygdio de Barros (1895-1986), tornou-se um artista plástico
reconhecido. Ao falecer, ele deixou um legado de 3.300 obras de arte.
Nise soube
valorizar as relações dos pacientes com os animais (cães e gatos), e plantas,
como parte do tratamento da esquizofrenia. Em seu livro “Imagens do
Inconsciente”, ela descreve essa experiência com os animais, chamados de
coterapeutas. A presença de cães no hospital provocou a revolta de médicos e
culminou com o envenenamento de muitos deles.
Pioneira na
zooterapia, para facilitar a reintegração social de pacientes com transtornos
psiquiátricos, expôs suas teorias no livro “Gatos, A Emoção de Lidar”,
publicado em 1998. Publicou outras obras, como: “Jung: vida e obra”, “Imagens do inconsciente”,
“Casa das Palmeiras”, “O Mundo das Imagens”, “Cartas a Spinoza” e “Nise da Silveira”.
A inscrição
de seu nome no livro de “Heróis e Heroínas da Pátria” foi vetada, em 2022, pelo
então Presidente Bolsonaro. Felizmente o parlamento brasileiro derrubou o veto.
Há inúmeros reconhecimentos nacionais e internacionais da obra de Nise da
Silveira. O centro psiquiátrico onde ela trabalhou leva seu nome: “Instituto
Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira”. Em Portugal, França, Itália
e muitas cidades brasileiras há instituições inspiradas em seu trabalho.
Ferreira
Gullar (1930-2016), acompanhou com fascínio a trajetória de Nise e publicou, em
1996, o livro “Nise da Silveira – uma psiquiatra rebelde”. Em 2008, o jornalista
e escritor Bernardo Carneiro Horta publicou uma biografia não convencional de
Nise, intitulada: “NISE – Arqueóloga dos Mares”.
Em 2016, baseado
na biografia de Horta, foi lançado o filme “Nise - O Coração da Loucura”,
dirigido por Roberto Berliner, com Glória Pires no papel principal.
Nise
faleceu em 30 de outubro de 1999, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, deixando como
legado uma revolução no tratamento dos doentes mentais através da arte, do
afeto e da solidariedade.
ana
margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza,
14 de março de 2023
Nise da Silveira | fotos: autores desconhecidos/arquivo Nise da Silveira
Nise da Silveira | fotos: autores desconhecidos/arquivo Nise da Silveira
Foto da turma de formandos de 1926 da Universidade de Medicina da Bahia. Nise era a única mulher em uma sala de 75 alunos | foto: autor desconhecido/arquivo Nise da Silveira
Nise entre professores e alunos durante uma aula de anatomia na Faculdade de Medicina da Bahia. À esquerda de Nise está Arthur Ramos, futuro antropólogo | foto: autor desconhecido/acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasi
Ontem, 11.03.2023, o Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva comemorou com os amigos e familiares seu septuagenário.
A Programação constou de uma missa na capela do Colégio Santo Inácio, em Fortaleza, seguida do lançamento do Livro organizado pelo aniversariante: UM SEPTUAGENÁRIO SOB DISTINTAS ÓPTICAS.
Convite, abaixo.
O Dr. Ronald Teles, inspirados em três videos "Margô e Rose - Sob medida" , escreveu dois poemas que compartilho. Links dos videos, abaixo.
Lhe dedico essa poesia, dra. Ana Margarida Rosemberg, que
fiz agora à tarde por seus olhos de amor
OLHOS
Momentos ditos pelos olhos,
Plasmados em finos movimentos,
Imperceptíveis por algum custo,
Aos desavisados de alma,
Logo ela que está calma,
Na sutileza do espirito,
Contrito dentro do peito,
Mas buscando de qualquer jeito,
Um motivo de jamais estar sem ti,
Voltando a cada hora,minuto e dia,
Em que estivemos juntos,
Essa presença me invade,
Instiga minha verdade,
Que sempre será a tua.
IMPRESSÃO
Resgataste minha felicidade de viver,
E se hoje vivo, vivo em ti,
Pois me puseste ao lado do teu coração,
Que hoje carece do teu,
Pois já não tenho minha visão, ela se turva em nosso adeus,
Ele é breve como uma brisa,
Já que perscruto tua ausência em minha presença,
Tudo me conforta,mas também lamenta,
Teus lábios colados aos lábios meus,
Um dia esse beijo será dado,
Seremos sem nenhum cuidado,
Toda verdade vertida,
De nossas almas apartadas,
Mas entrelaçadas por um amor que nunca morreu.
Assisti todos os vídeos, o seu vestido de casamento se assemelha
muito ao de minha mulher por época do nosso enlace matrimonial. Sua história de
amor é linda, pois é verdadeira, profunda e inesquecível, como são os grandes amores.
Na eternidade encontraremos nossos pares, mas o amor será a concepção dele
próprio, na mais ampla energia. Espíritos nos céus flutuando emanando energia etérea,
que será eterna e perpétua!
afresco de Michelangelo (1475–1564) no teto da Capela Sistina
A PROPÓSITO DO ORÁCULO DA LIANA – A Sibila de Cumas
Diante da profecia da Liana de que eu viveria
mais três décadas se cumprisse as orientações do meu nutricionista,
lembrei-me da triste história da Sibila de Cumas.
Uma das dez grandes profetizas da mitologia
grega, filha do humano Teodoro e de uma ninfa, ela nasceu em Éritas, cidade da
Jônia (atual Turquia), mas mudou-se, ainda bem jovem, para Cumas, cidade
situada na Campânia, perto de Nápoles-Itália, e lá permaneceu.
O dom da profecia que ela ostentava, manifestou-se
logo em sua infância e a acompanhou a vida inteira. A Sibila de Cumas, como
ficou conhecida, além de competente era original, pois registrava suas
profecias em versos. Ficou tão famosa que foi cognominada Deífoba – semelhante à deusa.
Consta em sua biografia que ela conduziu Enéias,
príncipe troiano, na visita que ele fez ao seu pai Anquises, no reino de Hades e que o poeta Virgílio a citou como profetiza da vinda do deus cristão.
Porém, seu grande feito foi a lição dada ao rei
etrusco Tarquínio, o Soberbo, no século VI a.C. Ela ofereceu ao rei, por um
preço alto e justo, nove livros com suas profecias sobre o destino do reino. O
rei Tarquínio barganhou e ela destruiu pelo fogo três livros, oferecendo os
seis restantes pelo mesmo preço. Novamente Tarquínio barganhou e novamente ela queimou
mais três livros. Finalmente, o rei, com medo de perder tudo, comprou os três últimos pelo preço dos nove que ele havia recusado.
Os três livros com os destinos do Estado, tornaram-se
textos sagrados consultados durante grandes perigos. Os originais dos “Livros
Sibilinos” foram destruídos pelo fogo, em 83 a.C. e as últimas cópias desapareceram
no século V d.C.
Entre as cinco Sibilas retratadas no teto da “Capela
Sistina”, por Michelangelo, em meio aos profetas do Velho Testamento, está a
Sibila de Cumas.
Reza um mito grego, que ela pediu ao deus Apolo,
inspirador das profecias, que a deixasse viver tantos anos quantos os grãos de
areia que ela pudesse segurar em suas mãos. No entanto, ela esqueceu de pedir a juventude. Apolo concedeu nove
vidas de 110 anos, portanto 990 anos.
Com o tempo, ela tornou-se tão consumida pela
idade que encolheu, a pele pregueou e esturricou, mas a voz e os olhos
permaneceram intocados para ver bem o mundo e anunciar suas profecias.
Para não
ser carregada pelo vento e nem ser devorada por outros animais, ela foi
colocada em uma gaiolae encerrada no templo de Apolo em Cumas. As crianças ao ouvirem
seu lamento perguntavam: O que queres Sibila? Ela respondia: EU QUERO MORRER.