sábado, 13 de dezembro de 2025

ARTE & MEDICINA - Mulher Sentada de Çatalhöyük

 

GIF gratuito da Deusa do longa-metragem Seder-Masochism. Publicado com a permissão prévia do autor original.

MULHER SENTADA DE CATALHÖYÜK  

MULHER SENTADA DE CATALHÖYÜK - Visão lateral 

Ficha Técnica

Título: Mulher Sentada de Çatalhöyük
Tipo: Estatueta
Dimensões: 20 cm
Material: Argila
Período: Neolítico
Data de criação: c. 6000 a.C.
Criador: Desconhecido
Descobridor: James Mellaart
Data da descoberta: 1961
Local da descoberta: Çatalhöyük, Anatólia (atual Turquia)
Local de exposição atual: Museu das Civilizações da Anatólia, Ancara (Turquia)
Imagem: Wikimedia Commons (Domínio Público)


« Le passé est un puits profond ; qui tenterait de l’explorer avec des sondes imparfaites ? »

"O passado é um poço profundo; quem se atreveria a explorá-lo com sondas imperfeitas?"

Marguerite Yourcenar - Mémoires d’Hadrien, 1951

 

Em 1961, o arqueólogo James Mellaart (1925–2012) encontrou, em Çatalhöyük, na Anatólia (atual Turquia) — um dos maiores e mais bem preservados assentamentos pré-históricos do mundo — uma estatueta representando uma mulher corpulenta, de seios e ventre proeminentes, sentada em uma posição que sugere o momento do parto.

A peça, modelada em argila e com cerca de 20 cm de altura, chegou até nós de forma incompleta: faltam-lhe a cabeça, o apoio da mão direita e uma das cabeças de leopardo que adornavam o trono — elementos que hoje são apresentados por meio de substituições modernas.

Batizada de Mulher Sentada de Çatalhöyük, a estatueta é um dos mais expressivos testemunhos da relação profunda entre arte, corpo e práticas proto-médicas no Neolítico.

A “Mulher Sentada” de Çatalhöyük foi encontrada por James enterrada em um depósito de grãos, indicando um possível uso simbólico ligado à fertilidade, proteção e abundância.

Para a história da arte, trata-se de um ícone da estética e da espiritualidade neolíticas; para a medicina e a antropologia, evoca práticas relacionadas ao nascimento, ao cuidado e à compreensão antiga do ciclo vital. A figura é frequentemente interpretada como a representação da Deusa-Mãe, divindade da fertilidade associada ao processo de dar à luz, embora sua interpretação como deusa-mãe seja hoje debatida. 

Essa associação a símbolos de abundância, força e proteção aproxima a estatueta de outras figuras pré-históricas corpulentas, entre as quais se destaca a célebre Vênus de Willendorf.

A ênfase nas formas volumosas do corpo não é apenas estética. Nas sociedades agrícolas do Neolítico, a robustez estava associada à saúde, à capacidade nutricional, à sobrevivência do grupo e, sobretudo, à fertilidade. Assim, a estatueta funciona como um registro simbólico do valor atribuído à maternidade e ao corpo feminino como “portador da vida”, um saber que precede e fundamenta muitas práticas médicas posteriores relacionadas à obstetrícia.

A posição sentada da figura — frequentemente interpretada como o instante do parto — sugere que a obra pode ter sido utilizada em rituais de proteção à gestante ou à comunidade. Em muitos grupos pré-históricos, o ato de representar o nascimento era compreendido como uma forma de garantir que o processo real ocorresse de maneira segura. Nesse sentido, a estatueta pode ser vista como um objeto de função simbólica e possivelmente terapêutica, mediando crenças sobre o corpo feminino, o cuidado e a saúde.

A Mulher Sentada de Çatalhöyük é mais do que um marco da arte neolítica. Ela ocupa um lugar singular na história da medicina por oferecer um olhar simbólico sobre o corpo feminino, a gestação e o momento do parto — temas que continuam a dialogar com práticas médicas contemporâneas. Sua força expressiva reside justamente na fusão entre estética, espiritualidade e conhecimento corporal: um testemunho ancestral da atenção humana ao nascer, ao curar e ao viver.

Hoje, conservada no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara, a Mulher Sentada de Çatalhöyük continua a desafiar e instigar o imaginário dos visitantes.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 13 de dezembro de 2025

Referências com Notas Explicativas (ABNT)

1. Çatalhöyük e arqueologia neolítica

HODDER, Ian (org.). Çatalhöyük Research Project: The 2000–2008 Seasons. Cambridge: McDonald Institute for Archaeological Research, 2014.
Nota: Obra mais completa e atualizada sobre escavações, contexto ritual, práticas domésticas e interpretações de gênero em Çatalhöyük. Fundamental para compreender o ambiente social e simbólico em que a estatueta foi produzida.

MELLAART, James. Çatal Hüyük: A Neolithic Town in Anatolia. London: Thames & Hudson, 1967.
Nota: Relato original das descobertas e interpretações iniciais da estatueta. Continua sendo referência para compreender como o objeto foi contextualizado no momento da escavação.


2. Arte pré-histórica, simbolismo e figura feminina

GIMBUTAS, Marija. The Language of the Goddess. New York: HarperCollins, 1989.
Nota: Estudo seminal sobre simbologias femininas, fertilidade, nascimento e divindades maternas. Essencial para interpretar a estatueta dentro do universo simbólico da “Grande Mãe”.

ZILHÃO, João. A Arte do Paleolítico. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.
Nota: Referência em português sobre arte pré-histórica, com discussões sobre anatomia feminina, modelagem corporal e significado ritual das figuras do Paleolítico e do Neolítico.

WHITE, Randall. Prehistoric Art: The Symbolic Journey of Humankind. New York: Harry N. Abrams, 2003.
Nota: Obra de síntese sobre arte pré-histórica, relacionando corpo, simbolismo e cultura visual, útil para contextualizar a estatueta na história da arte universal.


3. Vênus pré-históricas e iconografia feminina

DEBÉNATH, André. La Vénus de Willendorf et les figurines féminines préhistoriques. Paris: Éditions Errance, 2010.
Nota: Análise aprofundada das figuras femininas corpulentas da pré-história, com comparações diretas à Mulher Sentada de Çatalhöyük.

PINHO, Susana Oliveira Jorge; SANTOS, Ana. Imagens da Deusa-Mãe: Arqueologia do Feminino na Pré-História. Porto: Afrontamento, 2000.
Nota: Estudo de referência sobre feminilidade, maternidade e rituais pré-históricos em perspectiva arqueológica.


4. Fertilidade, parto e medicina antiga

TREVATHAN, Wenda. Ancient Bodies, Modern Lives: How Evolution Has Shaped Women's Health. Oxford: Oxford University Press, 2010.
Nota: Obra fundamental para relacionar representações pré-históricas à fisiologia do parto e à evolução do corpo feminino.

JORDAN, Brigitte. Birth in Four Cultures: A Cross-Cultural Investigation. Long Grove: Waveland Press, 1993.
Nota: Clássico da antropologia médica sobre práticas de parto em diferentes culturas, útil para interpretar a pose ritualizada da estatueta.


5. Catálogos institucionais

MUSEU DAS CIVILIZAÇÕES DA ANATÓLIA. Catalogue of the Neolithic and Chalcolithic Collections. Ancara: Ministry of Culture and Tourism, várias edições.
Nota: Fonte primária sobre a peça, com descrição técnica, contexto arqueológico, iconografia e documentação museológica.

MUSÉE DE L’HOMME. Femmes de la Préhistoire. Paris: Réunion des Musées Nationaux, 2015.
Nota: Catálogo francês dedicado às representações femininas pré-históricas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário