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Deusa do longa-metragem Seder-Masochism. Publicado com a permissão prévia
do autor original.
MULHER SENTADA
DE CATALHÖYÜK
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MULHER SENTADA
DE CATALHÖYÜK - Visão lateral
Ficha Técnica
Título: Mulher Sentada de Çatalhöyük
Tipo: Estatueta
Dimensões: 20 cm
Material: Argila
Período: Neolítico
Data de criação: c. 6000 a.C.
Criador: Desconhecido
Descobridor: James Mellaart
Data da descoberta: 1961
Local da descoberta: Çatalhöyük, Anatólia (atual Turquia)
Local de exposição atual: Museu das Civilizações da Anatólia, Ancara
(Turquia)
Imagem: Wikimedia Commons (Domínio Público)
« Le passé est un puits profond ;
qui tenterait de l’explorer avec des sondes imparfaites ? »
"O passado é um poço profundo;
quem se atreveria a explorá-lo com sondas imperfeitas?"
Marguerite Yourcenar - Mémoires
d’Hadrien, 1951
Em 1961, o arqueólogo James Mellaart (1925–2012) encontrou, em Çatalhöyük, na Anatólia (atual Turquia) — um dos maiores e mais bem preservados assentamentos pré-históricos do mundo — uma estatueta representando uma mulher corpulenta, de seios e ventre proeminentes, sentada em uma posição que sugere o momento do parto.
A peça,
modelada em argila e com cerca de 20 cm de altura, chegou até nós de forma
incompleta: faltam-lhe a cabeça, o apoio da mão direita e uma das cabeças de
leopardo que adornavam o trono — elementos que hoje são apresentados por meio
de substituições modernas.
Batizada
de Mulher Sentada de Çatalhöyük, a estatueta é um dos mais expressivos
testemunhos da relação profunda entre arte, corpo e práticas proto-médicas no
Neolítico.
A “Mulher Sentada” de Çatalhöyük foi encontrada por James enterrada em um depósito de grãos, indicando um possível uso simbólico ligado à fertilidade, proteção e abundância.
Para a história da arte, trata-se de um ícone da estética e da espiritualidade neolíticas; para a medicina e a antropologia, evoca práticas relacionadas ao nascimento, ao cuidado e à compreensão antiga do ciclo vital. A figura é frequentemente interpretada como a representação da Deusa-Mãe, divindade da fertilidade associada ao processo de dar à luz, embora sua interpretação como deusa-mãe seja hoje debatida.
Essa associação a símbolos de
abundância, força e proteção aproxima a estatueta de outras figuras
pré-históricas corpulentas, entre as quais se destaca a célebre Vênus de
Willendorf.
A ênfase
nas formas volumosas do corpo não é apenas estética. Nas sociedades agrícolas
do Neolítico, a robustez estava associada à saúde, à capacidade nutricional, à
sobrevivência do grupo e, sobretudo, à fertilidade. Assim, a estatueta funciona
como um registro simbólico do valor atribuído à maternidade e ao corpo feminino
como “portador da vida”, um saber que precede e fundamenta muitas práticas
médicas posteriores relacionadas à obstetrícia.
A posição
sentada da figura — frequentemente interpretada como o instante do parto —
sugere que a obra pode ter sido utilizada em rituais de proteção à gestante ou
à comunidade. Em muitos grupos pré-históricos, o ato de representar o
nascimento era compreendido como uma forma de garantir que o processo real
ocorresse de maneira segura. Nesse sentido, a estatueta pode ser vista como um
objeto de função simbólica e possivelmente terapêutica, mediando crenças sobre
o corpo feminino, o cuidado e a saúde.
A Mulher
Sentada de Çatalhöyük é mais do que um marco da arte neolítica. Ela ocupa um
lugar singular na história da medicina por oferecer um olhar simbólico sobre o
corpo feminino, a gestação e o momento do parto — temas que continuam a
dialogar com práticas médicas contemporâneas. Sua força expressiva reside
justamente na fusão entre estética, espiritualidade e conhecimento corporal: um
testemunho ancestral da atenção humana ao nascer, ao curar e ao viver.
Hoje,
conservada no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara, a Mulher Sentada
de Çatalhöyük continua a desafiar e instigar o imaginário dos visitantes.
ana margarida
furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 13 de dezembro de 2025
Referências com Notas Explicativas (ABNT)
1.
Çatalhöyük e arqueologia neolítica
HODDER,
Ian (org.). Çatalhöyük Research Project: The 2000–2008 Seasons.
Cambridge: McDonald Institute for Archaeological Research, 2014.
Nota: Obra mais completa e atualizada sobre escavações, contexto ritual,
práticas domésticas e interpretações de gênero em Çatalhöyük. Fundamental para
compreender o ambiente social e simbólico em que a estatueta foi produzida.
MELLAART,
James. Çatal Hüyük: A Neolithic Town in Anatolia. London: Thames &
Hudson, 1967.
Nota: Relato original das descobertas e interpretações iniciais da
estatueta. Continua sendo referência para compreender como o objeto foi
contextualizado no momento da escavação.
2. Arte
pré-histórica, simbolismo e figura feminina
GIMBUTAS,
Marija. The Language of the Goddess. New York: HarperCollins, 1989.
Nota: Estudo seminal sobre simbologias femininas, fertilidade,
nascimento e divindades maternas. Essencial para interpretar a estatueta dentro
do universo simbólico da “Grande Mãe”.
ZILHÃO,
João. A Arte do Paleolítico. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.
Nota: Referência em português sobre arte pré-histórica, com discussões
sobre anatomia feminina, modelagem corporal e significado ritual das figuras do
Paleolítico e do Neolítico.
WHITE,
Randall. Prehistoric Art: The Symbolic Journey of Humankind. New York:
Harry N. Abrams, 2003.
Nota: Obra de síntese sobre arte pré-histórica, relacionando corpo,
simbolismo e cultura visual, útil para contextualizar a estatueta na história
da arte universal.
3. Vênus
pré-históricas e iconografia feminina
DEBÉNATH,
André. La Vénus de Willendorf et les figurines féminines préhistoriques.
Paris: Éditions Errance, 2010.
Nota: Análise aprofundada das figuras femininas corpulentas da
pré-história, com comparações diretas à Mulher Sentada de Çatalhöyük.
PINHO,
Susana Oliveira Jorge; SANTOS, Ana. Imagens da Deusa-Mãe: Arqueologia do
Feminino na Pré-História. Porto: Afrontamento, 2000.
Nota: Estudo de referência sobre feminilidade, maternidade e rituais
pré-históricos em perspectiva arqueológica.
4.
Fertilidade, parto e medicina antiga
TREVATHAN,
Wenda. Ancient Bodies, Modern Lives: How Evolution Has Shaped Women's Health.
Oxford: Oxford University Press, 2010.
Nota: Obra fundamental para relacionar representações pré-históricas à
fisiologia do parto e à evolução do corpo feminino.
JORDAN,
Brigitte. Birth in Four Cultures: A Cross-Cultural Investigation. Long
Grove: Waveland Press, 1993.
Nota: Clássico da antropologia médica sobre práticas de parto em
diferentes culturas, útil para interpretar a pose ritualizada da estatueta.
5.
Catálogos institucionais
MUSEU DAS
CIVILIZAÇÕES DA ANATÓLIA. Catalogue of the Neolithic and Chalcolithic
Collections. Ancara: Ministry of Culture and Tourism, várias edições.
Nota: Fonte primária sobre a peça, com descrição técnica, contexto
arqueológico, iconografia e documentação museológica.
MUSÉE DE
L’HOMME. Femmes de la Préhistoire. Paris: Réunion des Musées Nationaux,
2015.
Nota: Catálogo francês dedicado às representações femininas
pré-históricas.



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