sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

ARTE & MEDICINA - Cuevas de las Manos

 




Cuevas de las Manos

(Caverna das Mãos)
(c. 9.000 a.C.)

Descrição

Localização: Sítio Pré-Histórico do Rio Pinturas
Província: Santa Cruz, Patagônia
País: Argentina
Tipo: Cultural
Identificação: 936
Área geográfica: América Latina e Caribe
Ano de registro: 1999 (23ª sessão)
Imagens: Wikimedia Commons (Domínio Público)

No desfiladeiro profundo do rio Pinturas, localizado na província de Santa Cruz, Patagônia, Argentina, onde a pedra se abre como uma ferida antiga, a Cueva de las Manos conserva um dos gestos mais elementares da humanidade: a mão que se imprime para não desaparecer. Ali, antes da escrita e da anatomia, o corpo fala por contato — toca a rocha e nela permanece. O que se vê são vestígios: mãos em negativo, sopros minerais, contornos de vida. São corpos que não narram feitos, mas afirmam presença. “Estive aqui”, parecem dizer. “Este foi o meu corpo.”

Reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1999, a Cueva de las Manos é um sítio pré-histórico de excepcional riqueza em pinturas rupestres. A caverna, de grandes dimensões e difícil acesso, possui aproximadamente 20 metros de profundidade, 10 metros de altura e 15 metros de largura. Uma das mais antigas expressões artísticas dos povos sul-americanos, integra um conjunto de importantes sítios arqueológicos da América Latina, entre os quais se destacam Monte Verde, no Chile; Pedra Furada, no Brasil; e Piedra Museo, na Argentina.

As pinturas, identificadas pelo especialista Francisco Moreno em 1876, retratam o cotidiano dos Tehuelches — grupo de etnias ameríndias da Patagônia — e de seus ancestrais, antigos povos caçadores-coletores.

As paredes calcárias acolhem centenas de marcas: mãos sobre mãos, tempos sobre tempos. A técnica é simples e precisa: o sopro. Esse método consistia em introduzir pigmentos minerais no interior de um canudo — geralmente confeccionado a partir de ossos de pequenos animais —, posicionar a mão sobre a parede calcária e soprar. Os pigmentos, ao serem borrifados sobre a rocha, produziam a impressão negativa dos dedos e das palmas das mãos, pois, ao atravessar o canudo de osso, encontravam a mão aberta e fixavam sua ausência. O resultado é paradoxal: o corpo se ausenta para permanecer.

Outras técnicas também foram utilizadas, como a impressão positiva da mão, obtida ao pintar diretamente a palma antes de pressioná-la contra a parede, e a técnica conhecida como cracher (do francês cuspir), que consistia em misturar o pigmento com água, colocá-lo na boca e cuspir ao redor da mão, delineando seu contorno.

Ao longo das paredes rochosas da caverna distribuem-se, além das centenas de marcas de mãos, cenas de caça, figuras humanas e representações de guanacos, emas, felinos e outros animais.

As cores — vermelho da hematita, branco do calcário, negro do manganês ou do carvão, amarelo do ocre — não são apenas escolhas estéticas. São matérias do mundo, colhidas do solo, das plantas, dos animais. Em alguns casos, do próprio sangue. A imagem nasce, assim, de uma economia vital: o corpo pinta com aquilo que o cerca e com aquilo que o constitui.

A datação por carbono-14 indica que as pinturas pertencem a diferentes períodos. As cenas de caça remontam a cerca de 13 mil anos, enquanto as representações de mãos em negativo foram produzidas entre aproximadamente 9 mil e 13 mil anos atrás.

Na Caverna das Mãos, observa-se a predominância de mãos esquerdas sobrepostas em quase toda a extensão das paredes. Das 829 mãos catalogadas, apenas 31 correspondem a mãos direitas, o que sugere que a maioria dos indivíduos era destra.

O sentido dessas mãos nos escapa. Essas pinturas permanecem envoltas em mistério. O que expressam? Alegria? Angústia? Um ritual religioso? Uma forma primitiva de arte? Um símbolo de pertencimento? Não sabemos. Talvez representem cerimônias de iniciação de jovens ou atos de submissão às regras sociais do grupo. São apenas conjecturas. Nada sabemos com certeza. 

A Cueva de las Manos não oferece respostas. Oferece contato. Ensina que, desde muito cedo, o humano precisou inscrever o corpo no mundo para suportar o tempo. E que toda imagem — como toda cicatriz — é uma tentativa de não desaparecer por completo.

Nunca saberemos, de fato, o que essas mãos significaram, pois, como escreveu o poeta francês Charles Baudelaire:

“O passado é um fundo abismo onde não chegam nossas sondas.”

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 18.12.2025


Referências

AGUIRRE, Marta; GRADIN, Carlos. Cueva de las Manos: arte rupestre en la Patagonia. Buenos Aires: EUDEBA, 1999.

BRADLEY, Richard. Image and audience: rethinking prehistoric art. Oxford: Oxford University Press, 2009.

CLOTTES, Jean. What is Paleolithic art? Cave paintings and the dawn of human creativity. Chicago: University of Chicago Press, 2016.

LEROI-GOURHAN, André. O gesto e a palavra. Lisboa: Edições 70, 1983.

UNESCO. Cueva de las Manos, Río Pinturas. Paris: UNESCO World Heritage Centre, 1999.

 

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