terça-feira, 9 de dezembro de 2025

ARTE & MEDICINA - A Vênus de Willendorf



GIF gratuito da Deusa do filme Seder-Masochism - autora Nina Paley



Ficha Técnica

Tipo: Estatueta de Vênus
Dimensões: 11,1 cm
Material: Calcário oolítico
Período: Paleolítico Superior
Data de criação: entre 24.000 e 22.000 a.C.
Criador: Desconhecido
Descobridor: Josef Szombathy
Data da descoberta: 7 de agosto de 1908
Local da descoberta: Aggsbach – Willendorf – Áustria
Local de exposição atual: Museu de História Natural de Viena (Naturhistorisches Museum)
Imagem: Wikimedia Commons (Domínio Público)


« Le passé est un puits profond ; qui tenterait de l’explorer avec des sondes imparfaites ? » 

"O passado é um poço profundo; quem se atreveria a explorá-lo com sondas imperfeitas?"

Marguerite Yourcenar - Mémoires d’Hadrien, 1951

No dia 8 de agosto de 1908, o arqueólogo austro-húngaro Josef Szombathy (1853–1943) entrou para a história da arte quando um trabalhador de sua equipe, Johann Veram, desenterrou uma estatueta de aproximadamente 24 mil anos a.C., esculpida em calcário oolítico.

Foi no silêncio profundo do Vale do Danúbio, em Willendorf, na Áustria — onde o vento ainda parece carregar memórias de eras remotas — que emergiu a pequena figura que atravessou milênios para reencontrar o olhar humano: a Vênus de Willendorf, uma mulher de pedra, uma mãe antiga, guardiã silenciosa de desejos e temores primordiais. Szombathy e sua equipe talvez não imaginassem que, ao remover a terra que a abraçava, despertavam uma presença adormecida desde o Paleolítico Superior.

Modelada em calcário oolítico, cabe na palma de uma mão, mas traz em seu corpo abundante a amplitude simbólica de um continente perdido. Suas curvas — mamas plenas, ventre exuberante, quadris generosos — parecem pulsar com a força ancestral da vida. Os braços mínimos repousam sobre o peito, como quem protege um segredo insondável. A cabeça, envolta em espirais que lembram tranças ou um toucado ritual, oculta o rosto e, ao mesmo tempo, amplia o mistério. Pigmentos vermelhos, ainda visíveis em pequenas frestas, sugerem que um dia foi marcada pela cor do sangue, da fertilidade, do fogo — talvez um amuleto, talvez uma prece esculpida.

Para o olhar médico, sua forma revela mais do que simbolismo: obesidade pronunciada, gigantomastia e possíveis sinais de deformidades ou insuficiências estruturais — marcas que transformam a estatueta em um diálogo entre corpo, história e sobrevivência.
Para o olhar artístico, porém, ela é celebração da abundância, exaltação do feminino como fonte de toda criação.

A Vênus de Willendorf conquistou fama mundial, gerou debates e foi interpretada como deusa da fertilidade, representação da Mãe-Terra, símbolo de status numa sociedade caçadora-coletora, ou ainda como simples amuleto.

Após sua descoberta, cerca de 200 estatuetas semelhantes foram encontradas, dos Pireneus às planícies da Sibéria.

Entre elas:

• Vênus de Hohle Fels

Descoberta em 2008, no sudeste da Alemanha, esculpida em marfim de mamute, datada entre 40.000 e 35.000 a.C. É a representação humana mais antiga conhecida e um dos primeiros exemplos de arte figurativa no mundo.

• Vênus Impudica

Encontrada em 1864 por Paul Hurault (8º Marquês de Vibraye) no sítio de Laugerie-Basse, França. Sem cabeça, pés ou braços, apresenta fenda genital pronunciada. Foi esculpida entre 20.000 e 18.000 a.C.

• Vênus de Brassempouy

Descoberta em 1894, na Grotte du Pape, França. O pequeno busto feminino, com cabeça finamente trabalhada, data de cerca de 22.000 a.C. e é uma das primeiras tentativas de retrato da face humana.

• Vênus de Lespugue

Figura icônica encontrada em 1922, na Caverna das Cortinas (Haute-Garonne, França). Datada de cerca de 28.000 anos, é célebre pela elegância alongada de suas formas.

O imaginário que nos chega do Paleolítico Superior (c. 45.000–11.700 anos atrás), seja pela arte rupestre ou pela arte móvel, revela um predomínio de figuras femininas. Cerca de 80% das representações humanas conhecidas desse período são de mulheres. 

Seriam deusas? Portadoras de saber? Amuletos contra o medo? Memórias da maternidade, do alimento, do abrigo?

Juntas, formam uma constelação de mulheres da Era Glacial, testemunhas de uma sensibilidade humana que antecede a escrita, os templos, as cidades.

Hoje, a Vênus de Willendorf repousa protegida no Museu de História Natural de Viena. Pequena, silenciosa, milenar, continua a provocar perguntas que ecoam desde as primeiras fogueiras acesas pelo homem.

Teriam nossos ancestrais vivido sob o signo da Mãe-Terra? Ou apenas reconheceram, no corpo feminino, o mistério mais profundo da existência?

A Vênus permanece imóvel.
Mas, diante dela, somos nós que nos movemos — em busca de sentido, origem e memória.  

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 9 de dezembro de 2025


Vênus de Willandorf – 24000 a 22000 anos a.C.

Museu de História Natural de Viena (Naturhistorisches Museum)

Imagem: Wikimedia Commons  (Dominio Público)         

Vênus Impudica – 18000 a 20000 anos a.C. 

Museu do Homem (Musée de l’Homme) – Paris

Imagem: fotografia de ana margarida furtado arruda rosemberg

Vênus de Brassempouy - c. de 22.000 a.C. Localização atual - Musée des Antiquités NationalesImagem : Wikipedia Commons (Domínio Público)

Vênus de Hohle Fels – 40000 a 35000 anos a.C.

Museu da Pré-história de Blaubeuren - Alemanha

Imagem: Wikimedia Commons  (Dominio Público)              

Vênus de Lespugue – 26000 a 24000 anos a.C. 

Museu do Homem (Musée de l’homme) – Paris

Imagem: foto de ana margarida furtado arruda rosember


REFERÊNCIAS

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