Ficha Técnica
Tipo: Estatueta de Vênus
Dimensões: 11,1 cm
Material: Calcário oolítico
Período: Paleolítico Superior
Data de criação: entre 24.000 e 22.000 a.C.
Criador: Desconhecido
Descobridor: Josef Szombathy
Data da descoberta: 7 de agosto de 1908
Local da descoberta: Aggsbach – Willendorf – Áustria
Local de exposição atual: Museu de História Natural de Viena
(Naturhistorisches Museum)
Imagem: Wikimedia Commons (Domínio Público)
« Le passé est un puits profond ; qui tenterait de l’explorer avec des sondes imparfaites ? »
"O passado é um poço profundo; quem se atreveria a explorá-lo com sondas imperfeitas?"
Marguerite Yourcenar - Mémoires d’Hadrien, 1951
No dia 8
de agosto de 1908, o arqueólogo austro-húngaro Josef Szombathy
(1853–1943) entrou para a história da arte quando um trabalhador de sua
equipe, Johann Veram, desenterrou uma estatueta de aproximadamente 24
mil anos a.C., esculpida em calcário oolítico.
Foi no
silêncio profundo do Vale do Danúbio, em Willendorf, na Áustria — onde o vento
ainda parece carregar memórias de eras remotas — que emergiu a pequena figura
que atravessou milênios para reencontrar o olhar humano: a Vênus de
Willendorf, uma mulher de pedra, uma mãe antiga, guardiã silenciosa de
desejos e temores primordiais. Szombathy e sua equipe talvez não imaginassem
que, ao remover a terra que a abraçava, despertavam uma presença adormecida
desde o Paleolítico Superior.
Modelada
em calcário oolítico, cabe na palma de uma mão, mas traz em seu corpo abundante
a amplitude simbólica de um continente perdido. Suas curvas — mamas
plenas, ventre exuberante, quadris generosos — parecem pulsar com a força
ancestral da vida. Os braços mínimos repousam sobre o peito, como quem protege
um segredo insondável. A cabeça, envolta em espirais que lembram tranças ou um toucado
ritual, oculta o rosto e, ao mesmo tempo, amplia o mistério. Pigmentos
vermelhos, ainda visíveis em pequenas frestas, sugerem que um dia foi marcada
pela cor do sangue, da fertilidade, do fogo — talvez um amuleto, talvez uma
prece esculpida.
Para o olhar
médico, sua forma revela mais do que simbolismo: obesidade pronunciada,
gigantomastia e possíveis sinais de deformidades ou insuficiências estruturais
— marcas que transformam a estatueta em um diálogo entre corpo, história e
sobrevivência.
Para o olhar artístico, porém, ela é celebração da abundância, exaltação
do feminino como fonte de toda criação.
A Vênus
de Willendorf conquistou fama mundial, gerou debates e foi interpretada como deusa
da fertilidade, representação da Mãe-Terra, símbolo de status
numa sociedade caçadora-coletora, ou ainda como simples amuleto.
Após sua
descoberta, cerca de 200 estatuetas semelhantes foram encontradas, dos
Pireneus às planícies da Sibéria.
Entre
elas:
• Vênus de Hohle Fels
Descoberta
em 2008, no sudeste da Alemanha, esculpida em marfim de mamute, datada
entre 40.000 e 35.000 a.C. É a representação humana mais antiga conhecida e um
dos primeiros exemplos de arte figurativa no mundo.
• Vênus Impudica
Encontrada
em 1864 por Paul Hurault (8º Marquês de Vibraye) no sítio de
Laugerie-Basse, França. Sem cabeça, pés ou braços, apresenta fenda genital
pronunciada. Foi esculpida entre 20.000 e 18.000 a.C.
• Vênus de Brassempouy
Descoberta
em 1894, na Grotte du Pape, França. O pequeno busto feminino, com cabeça
finamente trabalhada, data de cerca de 22.000 a.C. e é uma das primeiras
tentativas de retrato da face humana.
• Vênus de Lespugue
Figura
icônica encontrada em 1922, na Caverna das Cortinas (Haute-Garonne, França).
Datada de cerca de 28.000 anos, é célebre pela elegância alongada de suas
formas.
O imaginário que nos chega do Paleolítico Superior (c. 45.000–11.700 anos atrás), seja pela arte rupestre ou pela arte móvel, revela um predomínio de figuras femininas. Cerca de 80% das representações humanas conhecidas desse período são de mulheres.
Seriam
deusas? Portadoras de saber? Amuletos contra o medo? Memórias da maternidade,
do alimento, do abrigo?
Juntas,
formam uma constelação de mulheres da Era Glacial, testemunhas de uma
sensibilidade humana que antecede a escrita, os templos, as cidades.
Hoje, a Vênus
de Willendorf repousa protegida no Museu de História Natural de Viena.
Pequena, silenciosa, milenar, continua a provocar perguntas que ecoam desde as
primeiras fogueiras acesas pelo homem.
Teriam
nossos ancestrais vivido sob o signo da Mãe-Terra? Ou apenas reconheceram, no
corpo feminino, o mistério mais profundo da existência?
A Vênus
permanece imóvel.
Mas, diante dela, somos nós que nos movemos — em busca de sentido, origem e
memória.
ana
margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 9
de dezembro de 2025
Vênus de Willandorf – 24000 a 22000 anos a.C.
Museu de História Natural de Viena (Naturhistorisches Museum)
Imagem: Wikimedia Commons (Dominio Público)
Vênus Impudica – 18000 a 20000 anos a.C.
Museu do Homem (Musée de l’Homme) – Paris
Imagem: fotografia de ana margarida furtado arruda rosemberg
Vênus de Brassempouy - c. de 22.000 a.C. Localização atual - Musée des Antiquités NationalesImagem : Wikipedia Commons (Domínio Público)
Vênus de Hohle Fels – 40000 a 35000 anos a.C.
Museu da Pré-história de Blaubeuren - Alemanha
Imagem: Wikimedia Commons (Dominio Público)
Vênus de Lespugue – 26000 a 24000 anos a.C.
Museu do Homem (Musée de l’homme) – Paris
Imagem: foto de ana margarida furtado arruda rosember
REFERÊNCIAS
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