terça-feira, 16 de dezembro de 2025

ARTE & MEDICINA - O homem do Poço - Gruta de Lascaux

 

O homem do poço, c. 18.000 a. C. - pintura em caverna – Lascaux IV – França  

 Imagem: fotografia de ana margarida furtado arruda rosemberg

Pintura em caverna - Lascaux IV -18.000 anos a.C.

Imagem – fotografia de Daniel Cojocaru 

O HOMEM DO POÇO

Gruta de Lascaux

Descrição

Tipo: pintura rupestre
Período: Paleolítico Superior
Idade estimada: cerca de 20.000 anos
Data de descoberta: 8 de setembro de 1940
Local: Caverna de Lascaux — França

“O homem de Lascaux não é um herói: é um ser exposto, ferido, lançado ao chão. Pela primeira vez, a humanidade se contempla mortal.”

Georges Bataille, Lascaux ou o nascimento da arte

No âmago da gruta, onde o espaço se estreita, o silêncio pesa e a luz se extingue, há um homem. Solitário. Caído. Enigmático. É o Homem do Poço. Pela primeira vez na arte paleolítica, o corpo humano aparece como paciente. Ele cai. Sua imagem inaugura, na história visual da humanidade, uma reflexão profunda sobre o corpo em crise, o transe, a dor e a proximidade da morte.

A Gruta de Lascaux abriga centenas de animais pintados com uma precisão quase sagrada: corpos em movimento, músculos tensos, chifres, cascos, respirações fossilizadas no tempo. Entre mais de 1.500 gravuras e 600 pinturas de animais, a figura humana surge única e vulnerável.

O Homem do Poço está estendido no fundo de uma galeria estreita e profunda — o Poço — em posição compatível com colapso corporal: membros rígidos, braços abertos, queda súbita. Esse homem não domina a cena — ele sucumbe. Estendido, jaz diante de um bisão mortalmente ferido por uma azagaia. O animal, com as vísceras expostas e o pelo eriçado, ainda resiste, como se a morte não fosse um fim. Ao redor, sinais dispersos: um rinoceronte em retirada, marcas abstratas e um pássaro totêmico, imóvel sobre um bastão, como sentinela entre mundos.

A rigidez do tronco e a extensão dos membros sugerem um estado alterado de consciência — possivelmente um transe xamânico, uma síncope ritual ou mesmo uma crise convulsiva interpretada culturalmente como contato com o sobrenatural. O corpo humano é rígido. Os braços abertos, as mãos de quatro dedos, os pés finos e pontiagudos. A cabeça, grotesca e simplificada, assume a forma de um bico de ave. O sexo ereto, longe de ser um detalhe obsceno, afirma a presença simultânea de vida, morte e potência. No contexto médico-antropológico, pode ser compreendido como sinal de excitação neurovegetativa, observável em estados extremos do sistema nervoso — morte violenta, convulsão, transe profundo.

Aqui não há apenas figura, mas narrativa. Diferente das demais imagens de Lascaux, esta composição conta uma história.

O bastão com o pássaro — frequentemente interpretado como um tótem — pode ser lido como instrumento terapêutico ritual, um eixo simbólico de sustentação do transe. Os sinais geométricos dispersos funcionariam como marcas de linguagem pré-verbal, equivalentes gráficos de estados mentais, experiências visionárias ou protocolos rituais de cura.

O Homem do Poço” desafia interpretações.

Segundo o professor de História da Arte José Leonardo do Nascimento, é possível que a figura represente um xamã demonstrando aos membros de sua tribo seus poderes mágicos.

O escritor e filósofo Georges Bataille, fascinado pelo Homem do Poço, buscou em As Lágrimas de Eros (1961) decifrar a cena. Bataille viu ali a expressão arcaica daquilo que une erotismo e morte, sacrifício e transcendência. Reconheceu uma das mais antigas manifestações do drama humano: o instante em que desejo, violência e sagrado se confundem.

Ao associar a imagem ao erotismo e à morte, Bataille sugere que o corpo em êxtase é também o corpo em perigo. O sagrado, nesse contexto, não é transcendência abstrata, mas experiência fisiológica extrema, inscrita nos nervos, no sangue e na respiração.

Afinal, o que nos dizem essas imagens? Talvez não falem de caça, nem de sobrevivência, mas de algo mais profundo: o instante em que o ser humano, pela primeira vez, confrontou a própria finitude e ousou gravá-la na pedra. O Homem do Poço não nos observa. Ele cai. E, ao cair, nos arrasta para dentro do abismo onde nasceram a arte, o mito e a consciência da morte.

Na queda do corpo, revela-se o drama da vulnerabilidade humana, onde a arte imortaliza a dor e a medicina tenta compreender a fragilidade da existência.


Breve história da descoberta da Caverna de Lascaux

A Caverna de Lascaux, apelidada de “Capela Sistina da Arte Parietal”, está localizada na comuna francesa de Montignac-Lascaux, na região da Dordonha, sudoeste da França. É uma das cavernas mais importantes do Paleolítico Superior pelo número e pela qualidade estética de suas pinturas.

A datação dos materiais da caverna é tema de debate, e ainda não é possível atribuir a criação das obras a uma única cultura. A maioria dos pré-historiadores, no entanto, associa-as ao Magdaleniano Inferior, por volta de 21.000 anos atrás.

A descoberta ocorreu em 8 de setembro de 1940, pelo jovem Marcel Ravidat, durante uma caminhada em Montignac, acompanhado de seu cão, Robô. Ao perseguir um coelho que se refugiou em um buraco, o cão levou Marcel até a entrada da gruta. Ao lançar uma pedra, ele percebeu a profundidade do local. Quatro dias depois, retornou com três amigos, ampliaram a entrada e desceram na gruta.

Um acaso providencial foi a presença do abade Henri Breuil (1877–1961), grande especialista em arte pré-histórica, que se encontrava refugiado na região, fugindo da ocupação nazista. Ao entrar na gruta, constatou tratar-se de pinturas rupestres de extraordinária importância.

A partir da descoberta, a gruta passou a atrair grande número de visitantes. Em 1963, devido ao dano causado pelo CO₂ da respiração dos turistas, o governo francês decidiu fechá-la ao público. As pinturas foram restauradas com êxito, e uma réplica parcial — Lascaux II — foi construída para visitação. Iniciada em 1972, foi inaugurada em 1983.

Em 2012, foi criada a Lascaux III, uma reprodução parcial e itinerante da caverna original, projetada para circular internacionalmente.

Em 2016, inaugurou-se a Lascaux IV — Centro Internacional de Arte Parietal, um fac-símile completo de todas as áreas decoradas da caverna (Salão dos Touros, Divertículo Axial, Passagem, Poço, Abside e Nave), utilizando alta tecnologia.

As pinturas datam do início do período Magdaleniano, entre 17.000 e 18.000 anos atrás, conforme diferentes datações por carbono-14, obtidas a partir do carvão encontrado na camada arqueológica e de um fragmento de azagaia proveniente dos despojos do Poço.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 16 de dezembro de 2025


REFERÊNCIAS

BATAILLE, Georges. As lágrimas de Eros. Tradução de Fernando Scheibe. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

BREUIL, Henri. Quatre cents siècles d’art pariétal. Montignac: Centre d’Études et de Documentation Préhistoriques, 1952.

CLOTTES, Jean. Lascaux: le geste, l’espace et le temps. Paris: Seuil, 2012.

GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2019.

LEROI-GOURHAN, André. Préhistoire de l’art occidental. Paris: Mazenod, 1965.

LEWIS-WILLIAMS, David. The mind in the cave: consciousness and the origins of art. London: Thames & Hudson, 2002.

NASCIMENTO, José Leonardo do. Arte, rito e imagem na pré-história. São Paulo: Humanitas, 2008.

VIALOU, Denis. L’art des cavernes. Paris: Gallimard, 1998.

Nenhum comentário:

Postar um comentário