O homem do poço, c. 18.000 a. C. - pintura em caverna – Lascaux IV – França
Imagem: fotografia de ana margarida furtado arruda rosemberg
Pintura em caverna - Lascaux
IV -18.000 anos a.C.
Imagem – fotografia de
Daniel Cojocaru
O HOMEM DO POÇO
Gruta de
Lascaux
Descrição
Tipo: pintura rupestre
Período: Paleolítico Superior
Idade estimada: cerca de 20.000 anos
Data de descoberta: 8 de setembro de 1940
Local: Caverna de Lascaux — França
“O homem de Lascaux não é um herói: é um ser
exposto, ferido, lançado ao chão. Pela primeira vez, a humanidade se contempla
mortal.”
Georges Bataille, Lascaux ou o nascimento da arte
No âmago
da gruta, onde o espaço se estreita, o silêncio pesa e a luz se extingue, há um
homem. Solitário. Caído. Enigmático. É o Homem do Poço. Pela primeira vez na
arte paleolítica, o corpo humano aparece como paciente. Ele cai. Sua imagem
inaugura, na história visual da humanidade, uma reflexão profunda sobre o corpo
em crise, o transe, a dor e a proximidade da morte.
A Gruta
de Lascaux abriga centenas de animais pintados com uma precisão quase sagrada:
corpos em movimento, músculos tensos, chifres, cascos, respirações fossilizadas
no tempo. Entre mais de 1.500 gravuras e 600 pinturas de animais, a figura
humana surge única e vulnerável.
O Homem
do Poço está estendido no fundo de uma galeria estreita e profunda — o Poço —
em posição compatível com colapso corporal: membros rígidos, braços abertos,
queda súbita. Esse homem não domina a cena — ele sucumbe. Estendido, jaz diante
de um bisão mortalmente ferido por uma azagaia. O animal, com as vísceras
expostas e o pelo eriçado, ainda resiste, como se a morte não fosse um fim. Ao
redor, sinais dispersos: um rinoceronte em retirada, marcas abstratas e um
pássaro totêmico, imóvel sobre um bastão, como sentinela entre mundos.
A rigidez
do tronco e a extensão dos membros sugerem um estado alterado de consciência —
possivelmente um transe xamânico, uma síncope ritual ou mesmo uma crise
convulsiva interpretada culturalmente como contato com o sobrenatural. O corpo
humano é rígido. Os braços abertos, as mãos de quatro dedos, os pés finos e
pontiagudos. A cabeça, grotesca e simplificada, assume a forma de um bico de
ave. O sexo ereto, longe de ser um detalhe obsceno, afirma a presença
simultânea de vida, morte e potência. No contexto médico-antropológico, pode
ser compreendido como sinal de excitação neurovegetativa, observável em estados
extremos do sistema nervoso — morte violenta, convulsão, transe profundo.
Aqui não
há apenas figura, mas narrativa. Diferente das demais imagens de Lascaux, esta
composição conta uma história.
O bastão
com o pássaro — frequentemente interpretado como um tótem — pode ser lido como
instrumento terapêutico ritual, um eixo simbólico de sustentação do transe. Os
sinais geométricos dispersos funcionariam como marcas de linguagem pré-verbal,
equivalentes gráficos de estados mentais, experiências visionárias ou
protocolos rituais de cura.
O Homem
do Poço” desafia interpretações.
Segundo o
professor de História da Arte José Leonardo do Nascimento, é possível
que a figura represente um xamã demonstrando aos membros de sua tribo seus
poderes mágicos.
O
escritor e filósofo Georges Bataille, fascinado pelo Homem do Poço,
buscou em As Lágrimas de Eros (1961) decifrar a cena. Bataille viu ali a
expressão arcaica daquilo que une erotismo e morte, sacrifício e
transcendência. Reconheceu uma das mais antigas manifestações do drama humano:
o instante em que desejo, violência e sagrado se confundem.
Ao
associar a imagem ao erotismo e à morte, Bataille sugere que o corpo em êxtase
é também o corpo em perigo. O sagrado, nesse contexto, não é transcendência
abstrata, mas experiência fisiológica extrema, inscrita nos nervos, no sangue e
na respiração.
Afinal, o
que nos dizem essas imagens? Talvez não falem de caça, nem de sobrevivência,
mas de algo mais profundo: o instante em que o ser humano, pela primeira vez,
confrontou a própria finitude e ousou gravá-la na pedra. O Homem do Poço não
nos observa. Ele cai. E, ao cair, nos arrasta para dentro do abismo onde
nasceram a arte, o mito e a consciência da morte.
Na queda
do corpo, revela-se o drama da vulnerabilidade humana, onde a arte imortaliza a
dor e a medicina tenta compreender a fragilidade da existência.
Breve história da descoberta da Caverna de Lascaux
A Caverna
de Lascaux, apelidada de “Capela Sistina da Arte Parietal”, está
localizada na comuna francesa de Montignac-Lascaux, na região da Dordonha,
sudoeste da França. É uma das cavernas mais importantes do Paleolítico Superior
pelo número e pela qualidade estética de suas pinturas.
A datação
dos materiais da caverna é tema de debate, e ainda não é possível atribuir a
criação das obras a uma única cultura. A maioria dos pré-historiadores, no
entanto, associa-as ao Magdaleniano Inferior, por volta de 21.000 anos
atrás.
A
descoberta ocorreu em 8 de setembro de 1940, pelo jovem Marcel Ravidat,
durante uma caminhada em Montignac, acompanhado de seu cão, Robô. Ao perseguir
um coelho que se refugiou em um buraco, o cão levou Marcel até a entrada da
gruta. Ao lançar uma pedra, ele percebeu a profundidade do local. Quatro dias
depois, retornou com três amigos, ampliaram a entrada e desceram na gruta.
Um acaso
providencial foi a presença do abade Henri Breuil (1877–1961), grande
especialista em arte pré-histórica, que se encontrava refugiado na região,
fugindo da ocupação nazista. Ao entrar na gruta, constatou tratar-se de
pinturas rupestres de extraordinária importância.
A partir
da descoberta, a gruta passou a atrair grande número de visitantes. Em 1963,
devido ao dano causado pelo CO₂ da respiração dos turistas, o governo francês
decidiu fechá-la ao público. As pinturas foram restauradas com êxito, e uma
réplica parcial — Lascaux II — foi construída para visitação. Iniciada
em 1972, foi inaugurada em 1983.
Em 2012,
foi criada a Lascaux III, uma reprodução parcial e itinerante da caverna
original, projetada para circular internacionalmente.
Em 2016,
inaugurou-se a Lascaux IV — Centro Internacional de Arte Parietal, um
fac-símile completo de todas as áreas decoradas da caverna (Salão dos Touros,
Divertículo Axial, Passagem, Poço, Abside e Nave), utilizando alta tecnologia.
As
pinturas datam do início do período Magdaleniano, entre 17.000 e 18.000 anos
atrás, conforme diferentes datações por carbono-14, obtidas a partir do
carvão encontrado na camada arqueológica e de um fragmento de azagaia
proveniente dos despojos do Poço.
ana margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 16 de dezembro de 2025
REFERÊNCIAS
BATAILLE, Georges. As lágrimas de Eros. Tradução de Fernando Scheibe. São
Paulo: Cosac Naify, 2013.
BREUIL, Henri. Quatre cents siècles d’art pariétal. Montignac: Centre
d’Études et de Documentation Préhistoriques, 1952.
CLOTTES, Jean. Lascaux: le geste, l’espace et le temps. Paris: Seuil, 2012.
GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2019.
LEROI-GOURHAN, André. Préhistoire de l’art occidental. Paris: Mazenod, 1965.
LEWIS-WILLIAMS, David. The mind in the cave: consciousness and the origins of art.
London: Thames & Hudson, 2002.
NASCIMENTO, José Leonardo do. Arte, rito e imagem na pré-história. São
Paulo: Humanitas, 2008.
VIALOU, Denis. L’art des cavernes. Paris: Gallimard, 1998.


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