Publicado no Jornal do Médico - novembro de 2021
https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Novembro-2021-app.pdf
POMPEIA RESSUSCITA SEUS ESCRAVIZADOS
Quarto para escravos descoberto no dia 6 de
novembro de 2021 em Pompeia. PARQUE ARQUEOLÓGICO DE POMPEYA / EFE
Em seu livro Invisible Romans (2011), Robert
C. Knapp, professor emérito de clássicos da Universidade da Califórnia, Berkeley,
nos mostra que nós só conhecemos do Império Romano a vida dos imperadores,
filósofos, senadores, enfim, dos poderosos.
Knapp, em Invisible
Romans, finalmente, ilumina os habitantes invisíveis de Roma, como:
trabalhadores, donas de casa, prostitutas, libertos, escravizados, soldados,
gladiadores, bandidos, ao mostrar que os privilégios da elite romana se devem a
labuta desses cidadãos.
Moses Finley (1912-1986), historiador americano
radicado na Inglaterra, especialista na economia do mundo greco-romano, definiu
a Antiguidade como uma sociedade de escravizados, em que milhões de pessoas
eram obrigadas a trabalhar exaustivamente, sem nenhum poder sobre seus
destinos, correndo riscos de serem vendidas, maltratadas e assassinadas.
O estudo da vida dos escravizados na Roma Antiga é limitado,
pois quase não há restos materiais dessas pessoas. Porém, a descoberta de um
quarto que, certamente, era ocupado por escravos, na Vila de Civita Giuliana,
em Pompeia, feita por uma equipe de arqueólogos e anunciada no dia 6 de
novembro de 2021, iluminou essa questão.
O jornal “El País”, de 10 de novembro de 2021, divulgou
a descoberta com uma matéria cujo título é: “O massacre de 400 escravizados que define o mundo romano - A descoberta de um quarto em uma vila de Pompeia revela as condições de vida
de seres humanos que eram tratados como gado”.
Ainda em escavação, o quarto descoberto é um espaço
de 16 metros quadrados com três camas e alguns objetos, com apenas uma
pequena janela na parte superior. O estudo dos objetos permitirá desvendar
melhor a vida cotidiana desses escravizados que tanto contribuíram para a
economia daquela sociedade.
Segundo Finley,
houve apenas cinco genuínas sociedades escravistas, duas delas na Antiguidade:
Grécia e Roma. As outras três nos: Estados Unidos, Caribe e Brasil. Finley,
com suas pesquisas nos idos de 1950, lançou luz sobre a profunda injustiça do
mundo romano.
Jerry
Toner, bolsista de Clássicos no Churchill
College, Cambridge, especialista em história social e cultural romana
escreveu em “Popular Culture in Ancient Rome” que
a vida de um escravo não era muito diferente da de um animal doméstico. Era uma
vida de trabalho duro, surras e comida escassa, além de abusos sexuais.
Pompeia, ao ser sepultada
pela erupção do Vesúvio, no dia 24 de gosto do ano 79 da era
cristã, caiu no esquecimento, mas não morreu. O Vesúvio, morada preferida de
Baco, sepultando-a, preservou-a para a posteridade. Pompeia ficou adormecida
quase dois mil anos, quando, em 1748, começou a ser ressuscitada com as
escavações arqueológicas e reconstituições que ainda prosseguem até os dias
atuais.
No início do século XX, houve escavações
parciais na Vila Civita Giuliana, que fica a cerca de 700 m a noroeste das
paredes da Antiga Pompeia. Atualmente, as escavações foram retomadas e trazem à
luz o setor produtivo-servil de uma grande Villa. Certamente, as escavações irão
ressuscitar os escravizados de Pompeia.
ana margarida furtado arruda
rosemberg
Fortaleza, 15 de novembro
de 2021.
REFERÊNCIAS
http://anamargarida-memorias.blogspot.com/2012/01/pompeia.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pompeia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Moses_Finley
https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Knapp_(classicist)
http://pompeiisites.org/en/press-kit-en/the-excavations-of-civita-giuliana/
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