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domingo, 29 de maio de 2016

POR: JOSE ROSEMBERG - CARTA DE PARIS

José Rosemberg (1909 - 2005)

São Paulo, 18 de Junho de 1988.



Caríssimo Tarantino.



Estou deveras satisfeito que vocês tenham bem aproveitado a recente viagem. Mais satisfeito fiquei por terem apreciado Óbidos que é uma raridade. Só pessoas sensíveis, como vocês, podem apreender em profundidade manifestações artístico-históricas e com elas sentir grandes emoções estéticas. 

Como eu gostaria de andar com o simpático casal Neuza-Affonso por esse mundo afora! Com o seu telefonema veio-me a imaginação voarmos até Paris ou Roma. Depois me firmei na primeira. Tarantino e eu pertencemos a uma das últimas, senão a última geração de médicos moldados na cultura francesa. Fomos formados no universalismo do espírito francês e sua cultura cevada de humanismo. Aprendemos a raciocinar com os famosos “Precis” tão científicos quanto românticos, que por serem românticos não eram menos exatos, menos científicos que os áridos textos anglo-germânicos. Que delicia ler, ainda hoje, a fisiologia de Hedon ou a histofisiologia de Policard, as aulas de Dieulafoy e de Ramond. Fomos “contaminados” com as letras francesas, desde Racine, Corneille, passando por Molière, Maupassant, Stendhal, Flaubert, Zola, Balzac, Anatole France, até Camus, Sartre e a “nouvelle vague”. Na filosofia, sem desprezar Kant e outros tais, muito mais abertura nos deram: Descartes, Pascal, Meyerson e Bérgson.

Andam dizendo que o pensamento francês está inferiorizado em vários campos do conhecimento. A colocação não pode ser passivamente aceita. Ela é feita pelos que se submeteram ao colonialismo cultural dos Estados Unidos. Nossa juventude está a este atrelada. Desde a última guerra houve um desvio de 180 graus. Ela não mais recebe o influxo da França cujo pensamento continua vivo. Sua ciência, literatura, filosofia, no contexto humanístico e universalidade, estão 100 furos acima dos outros.

Paris ainda é a capital do mundo! 

Sabendo que vocês tem as mesmas raízes culturais, integrados na história da França, figurei-me que juntos poderíamos passar uns belos dias em Paris; deixemos Roma para outra ocasião. Concebi, então, um programa, sem prejuízo do que vocês também sugerissem, deixando os locais mais conhecidos e badalados, hoje regurgitados de turistas barulhentos e beócios. Portanto, mesmo a contra gosto, mas decididos rifaremos, pelo menos dessa vez, o Louvre, o museu d’Orsay (que recebeu todo o acervo do Jeu de Pomme), o museu do Homem, Versailles, Fontainebleau, Malmaison, Os Invalides e tantos outros museus e monumentos e tantas outras coisas lindas que nos são familiares. Risquemos a Opera, os 240 teatros, os concertos e até Notre Dame que contemplaremos de longe. Deixemos tudo isso para depois; convido-os para outras pedidas. Vamos para inicio de conversa comer bem e barato. “Primo mangiare, dopo filosofare” já dizia nutrido cardeal do inicio do século quando era tesoureiro do Vaticano. Nada de gastar os tubos em antros como o Tour d’Argent com seu pato numerado para basbaques como os das delegações oficiais brasileiras ou o Andruet com os seus 350 queijos diferentes. Comamos na Rive Gauche, como um francês médio. Se a grana estiver curta, vamos ao Serail onde por 20 francos nos fartaremos com um opulento omelete de cebolas, um “canard aux ollives” e um bom rouge. Assim reconstituídos iniciaremos o nosso passeio. Já deixamos de lado os impressionistas, mas um deles precisa ser revisto em toda a sua extensão; Monet, no museu Marmottan. É a orgia das cores brotando das nimphéas e glicínias, mais fascinantes que as da Orangerie e as que foram exportadas para o museu de arte moderna de N. York. São quase duas centenas de pinturas, mas detenhamo-nos ante um amanhecer brumoso que só de longe deixa visualizar o porto de Havre. Como vocês sabem, essa tela com o título de “Impression Soleil Levant” tem o valor histórico de ter dado origem ao nome de nova escola pictórica: Impressionismo.

Monet, Renoir, Manet, Matisse, Degas e outros não tendo sido admitidos no Salão Oficial, fizeram em 1874 o Salão dos Recusados. Leroy, em sua coluna crítica do jornal Charivary, espinafrou esses pintores em célebre artigo “A exposição dos Impressionistas”. Disse que ali não havia pintura, mas só impressão delas e que o próprio Monet o confessava com o titulo do seu quadro. “Afinal, os coitados não passavam de uns impressionistas”. Mal sabia Leroy que com o seu termo sarcástico criava um nome artístico que reinaria perenemente. As telas dos impressionistas não têm preço, só ao alcance dos magnatas do petróleo. Sabendo disso, saímos melancólicos. Acabamos de ler em uma vitrine as dezenas de cartas desse gênio paupérrimo mendigando, aos marchands abastados, a esmola de lhe comprarem uma tela por 50 francos (!) para adquirir remédios e pagar parte do aluguel atrasado[1]. É isso aí, vender ralos de privadas e cartões pornográficos sempre deram mais dinheiro que arte e medicina...

O sol está forte e por isso é o momento propício para revermos a Sainte Chapelle, maravilha gótica, com 75 metros de altura, sem contrafortes, vãos imensos, portanto quase só de vidro construída no século 13, ainda não ruiu por milagre. É que foi mandada edificar por Luis IX, que canonizado virou santo. Seu arquiteto era tão desconhecido que seu nome ficou impreciso, Montreuil ou Monteau. Ah, hoje não se fazem mais arquitetos como antigamente! São cerca de 1200 vitrais com luminosidade celestial a contar histórias do velho e novo testamento. Durante a última guerra foram desmontados e guardados em lugar seguro. É uma festa para os olhos; sinfonia de luz, avassalante. Não há no mundo coisa parecida. Coitado de Luis IX erigiu esse templo único para albergar a coroa de espinhos de Cristo, fraldas do menino Jesus e um relicário contendo leite do seio da Virgem Maria. Um salafrário de Boudouin, nomeado imperador de Constantinopla, em troca de somas enormes que rasparam as arcas do erário, prometeu enviar-lhe essas relíquias que nunca chegaram. Foi essa santa ingenuidade que santificou esse rei crente e logrou-nos o espetáculo dos vitrais mais antigos de Paris. 

Ainda temos tempo de ver St. Julian le Pauvre, Igreja gótica de interesse histórico. Edificada em 1160, destaca-se pelos seus magníficos capitéis, verdadeiros rendilhados de pedra. O interesse histórico é que aí se realizavam as assembléias da Universidade de Paris; admiremos a bela e imensa poltrona, creio de bronze, onde se sentava o Reitor. Esse ritual acabou no inicio de 1500, quando os estudantes enfurecidos com a eleição fraudulenta de um novo Reitor, quebraram a cara do Magnífico, destruíram os móveis e o coro da Igreja. As bandalheiras e safadezas universitárias têm tradição e os estudantes de hoje, quando malham o reitor, não estão inovando nada.

À noite, atrás da Igreja de St. Julien, entremos num café cantante sui-gêneris, que fica num subterrâneo uns 20 metros de profundidade. É o Caveau des Oubliettes que foi prisão tétrica dos séculos 12 a 18. Luis XI, Carlos, o Belo, e até as rainhas Ana d’Austria e Catarina de Medicis, tão sensível  protetora das artes, trancafiavam seus inimigos políticos e simples desafetos, nas masmorras profundas desse Caveau, onde eram esquecidos e apodreciam. (daí o nome des Oubliettes). Desçamos os desgastados degraus de pedra, tendo em cada lance porta de ferro fechando lúgubres celas, até chegarmos num salão regurgitante de espectadores. Mal sentamos e nos oferecem um cognac de 50 anos!   O maître jura pela sua autenticidade e fingimos que cremos. Enquanto degustamos essa “raridade”, artistas de primeira plana executam danças populares medievais, cantam, ao som de instrumentos, autênticos antigos madrigais renascentistas nostálgicos. Por fim vem as “chansons pigalles” apimentadas, maliciosas, eróticas e muito engraçadas. È impressionante pensar que o povo parisiense já cantava essas canções licenciosas quando Estácio de Sá fundava a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro. Enfim, uma noitada mil furos superior a que passaríamos no Moulin Rouge.

Hoje é domingo. Se vocês forem à missa eu os acompanharei, se não forem iremos do mesmo modo, porque Henrique IV tinha razão: “Paris vale uma missa”. Não iremos, porém, a St. Germain, St. Sulpice, nem a Notre Dame e outros similares. Nestas as missas, embora com mais pompa e brilho, São semelhantes às da Candelária no Rio e da Sé aqui em S. Paulo. Vamos assistir uma missa empolgante, que nos aproxime mais do Eterno, se é que ele existe. Vamos a St. Severin, outra maravilha gótica esquecida, edificada no século XIII. A histérica sobrinha de Luis XIV (não sei porque a chamavam de Grande Mademoiselle) brigou com sua paróquia e por pirraça resolveu dotar St. Severin com tudo que fosse novidade para maior eficiência do culto; inclusive trouxe da Alemanha notável órgão que aqui está intacto até hoje. Ao som celestial desse instrumento ouviremos ferventes oratórios. Depois, silêncio... Aí começa um sussurro, que vai se avolumando, de vozes sem modulações que no crescendo avassalam toda a nave e se eleva pela abside. É o mais autêntico canto gregoriano do século XI dos frades beneditinos da Abadia de São Pedro de Solesmes, os quais se notoriarizaram pelo cantochão que desenvolveram. Imensa paz nos invade e aí percebemos como o gregoriano e o gótico se fundem para criar fundo clima de religiosidade. É como se fossemos transportados para 800 anos atrás. A St. Severin é de gótico flamejante e sua maravilha está no duplo deambulatório do coro; miríades de nervuras do nartex retombam nas colunas semelhantes a palmeiras. Não há dúvida, a maior manifestação artístico-estética da idade média, é o gótico.

Para não quebrar o encanto vamos direto a Igreja de St. Denis (séc. X). Aqui neste matagal de túmulos góticos estão os reis da França, as Rainhas e os Infantes. Com a renascença esses monumentos se tornaram mais suntuosos. Catarina de Médicis, que morreu 30 anos após Henrique II, teve muito tempo para erigir suntuoso mausoléu para seu marido. Quando se viu esculpida como morta (como mandava a tradição) ela que deixava apodrecer seus desafetos no Caveau des Oubliettes, era muito sensível, e horrorizada, desmaiou. Os nobres que ali estavam, todos raquíticos, não tiveram forças para levantá-la. Chamaram os escudeiros para essa tarefa. Aventou-se, porém, que isso configuraria crime de lesa-majestade, pois o augusto corpo real não podia ser tocado por mãos plebéias. Então não houve outro remédio senão deixá-la caída sobre a laje fria à espera que ela abrisse os olhos.

Terminada esta visita, é claro que vem o desejo de admirar um monumento gótico intacto até hoje, pois todas as igrejas da França de Alemanha (inclusive a catedral de Colônia) e de outros países, sofreram, no tempo, reformas, restaurações, etc. A própria Notre Dame, tão estética, que tinha na frontada 28 estátuas renascentistas dos reis de Judá e de Israel foi danificada. Elas foram arrancadas pela plebe durante a revolução (Ah! a cultura das massas!) que as confundiu com os reis da França; as que hoje estão lá são reconstituídas ou cópias. Vamos, pois, dar uma esticada a Chartres, saborear a única catedral gótica pura desde o século XII. Por raro acaso escapou do vandalismo, das revoluções dos bombardeios de duas guerras mundiais. Que dignidades ostentam suas duas torres! A da direita é ainda românica e a da esquerda é gótica pura, porque houve um intervalo de cem anos nas duas ereções. Entremos. No semi-escuro permanente, vislumbramos no pavimento esculpido o labirinto que os fiéis percorriam de joelhos para penitenciarem-se das fornicações com as servas e com as donzelas devotas. Como são magníficos esses vitrais fabricados há 900 anos com o célebre “azul de Chartres” cuja fórmula permanece desconhecida. Na portada há esta maravilha de estatuárias contando a vida de Cristo. Depois desse banho de arte gótica, partamos para outras pedidas. Hoje pela manhã, Neuza nos acompanhará se quiser, senão pode ir ao cabeleireiro e as compras. Por dever de oficio, Tarantino e eu, iremos a rue Doutor Roux número 25, visitar o Instituto Pasteur. Claro nem pensamos em ver toda aquela imensidão. Vamos apenas saber em que pé estão, neste momento, as revolucionárias pesquisas da biologia molecular na tuberculose: sondas de ADN para rápida detecção de antígenos e anticorpos de todas as espécies de micobactérias, possibilitando sua rápida identificação e diagnóstico sorológico específico. Antígenos clonados para estimulação especifica de resposta dos linfócitos T com próximas perspectivas de imunização especifica contra o M. tuberculosis e M. atípicas, com emprego de antígeno produzido em quantidade por meio da recombinação do ADN. Antígenos monocloniais selecionadores do mecanismo da resistência às drogas eliminando esta completamente. Etc, etc, etc, Certamente valerá a pena gastarmos uma manhã nisso que parece “science-fiction”.

Terminemos a visita pelo lado emotivo. Vejamos a cepa original da BCG mantida viva até hoje. Entremos na cripta onde dorme Pasteur cercado das virtudes cardeais, Fé, Esperança, Caridade, às quais adicionaram uma quarta, a Sciencia. Visitemos o pequeno apartamento, onde por caridade, viveu a viúva de Calmette. Este não deixou nada; até seu livro “L’Infection Bacillaire de la Tuberculose” que foi bíblia durante meio século, nada rendeu. Repito, vender postais eróticos dá mais dinheiro.

À tarde preparemos as forças para caminhar pelos quarteirões de Paris mais históricos, todos datando de 1300 a 1700, havendo vestígios dos séculos anteriores. Chegamos, pois, no Marais. Homenageando meus antepassados, comecemos pelos quarteirões judeus. Aquela sinagoga é mais velha que o Brasil. O frontispício está escorado por enormes estacas que ali estão a decênios para mais comover os visitantes que logo são solicitados a contribuir para a restauração do Templo... Entremos no “Memorial do Judeu Mártir Desconhecido”, onde se encontram os maiores repositórios de documentos do martírio judaico nos campos de concentração nazistas.

            Por que nesta praça cercada de prédios centenários, encravaram esta construção do futuro séc. 21, de acrílico, cimento e vidro?   É o Centro Cultural Pompidou. Para cá trouxeram o Museu de Arte Moderna. São incríveis as exposições permanentes e especiais. Destas, tive a sorte de ver em 1979 a exposição Paris-Moscou e em 1980 a Paris-Cairo. Combinamos não entrar nos locais regurgitantes de turistas. Porém não obstante as cinco milhões de pessoas que aqui vieram em 1987 (não dá pra acreditar) vamos entrar, pois duas coisas precisam ser revistas: O instituto do som no sub-solo, onde esse fabuloso Pierre Boulez descobre novos instrumentos e sons, e a biblioteca de concepção ultra- revolucionária. Peçamos, por farra, algo esdrúxulo como o comportamento da mulher e a moda na década de 1820. Dentro de uns 20 minutos receberemos microfilmes, extratos de obras, artigos, ilustrações e “tapes” de televisão com todos os esclarecimentos e bibliografia Entremos na cabine apropriada e vejamos todo esse material. Como funciona o arquivo da biblioteca não dá pra entender. Agora caminhemos pelas ruelas do Marais. Olhe ali a casa onde morou Augusto Comte e, ao lado, entremos na primeira Igreja positivista. Eis a casa em que viveu Lenine. No museu Carnavalet veremos quase tudo sobre a Revolução Francesa e coisas desde Henrique IV até a Belle Époque. 

O Marais concentrou quase toda a nobreza e sua podridão. As famosas construções foram chamadas “Hotel”. Este termo surge na língua francesa por volta de 1200. Ora designava hospital (Hotel de Dieu), ora repartição oficial (Hotel de Ville) e quase sempre enormes e suntuosas moradias e palácios. É o que vamos visitar. A Place de Voges com seus arcos ainda tem cheiro do tempo de Henrique IV. Fazendo sua volta passemos ou entremos nas casas onde nasceram, ou apenas moraram, Mme de Sévigné, Bossuet, Richelieu e Victor Hugo; no 3º andar desta última, habitava a bela Marion Delorme, a quem Hugo dedicou uma peça teatral com o seu nome, certamente em pagados favores que ela lhe prestou; valia a pena subir três altíssimos andares para descansar no regaço dessa deidade. Sabe-se que o escritor pulava a cerca freqüentemente. Entremos nesse pavilhão antigo de Henrique II, com os deslumbrantes apartamentos do rei e da Rainha; sabe-se que nestes últimos nunca adentrou rainha alguma e sim uma dezena de favoritas. Caminhamos até ao Hotel dos Brinvilliers; ficou afamado porque a marquesa desse nome assassinou o marido e vários outros, principalmente, com nicotina. Teríamos que visitar mais uns 40 a 50 hotéis. Impossível. Fiquemos somente com uns poucos. Aquele ali é o H. de Sens, medieval, destacável pelas suas torres e casas-fortes; são numerosos e imensos salões; a Rainha Margot primeira esposa de Henrique IV, aí ficou exilada; cinquentona continuou com suas farras (tinha rim quente, como se dizia lá em nosso S. José) e aplacava o fogo dos seus 50 escudeiros; vai daí, um destes, enciumado, matou o amante permanente. Margot não deixou por menos, mandando decapitá-lo ante a entrada do Castelo, para servir de advertência: cada escudeiro deveria aguardar pacientemente sua vez respeitando rigorosamente o rodízio... Eis o H. Rohan com suas escadarias de mármore e bronze levando aos apartamentos dos cardeais; o salão dourado é sufocante pela majestade, lustros e tapeçaria. Uma vez por mês, nesse luxo, eram recebidos plebeus a quem se ofertava brioche, com predica de que é melhor ser pobre, pois isso alegra a Deus!...  Hotel Lamoignon residência de Diana da França, filha legitima de Henrique II (outro pulador de cerca); posteriormente nesses salões pontificaram Racine, Mme de Sévigné. Esta morava no Hotel Carnavalet. Viúva aos 25 anos; seu marido morreu em duelo com o cara que andava comendo essa intelectual. Mme. Sérvigné era mesmo inteligente (nunca agüentei ler suas famosas cartas), porém parece que ela fazia uso não só da inteligência, como de seus encantos íntimos. H. Polignac, de Clotilde de Vaux, inspiradora de Augusto Comte. Quem diria até Comte pulava a cerca! – H. St. Paul, todo decorado com motivos orientais. Carlos V por volta de 1360, aí instalou seu filho, Carlos VI, a quem os médicos aconselharam a se divertir para combater as crises de loucura. Vai daí promoveram-se, nestes vastos salões grená que davam acesso a mais de 30 quartos discretos, as maiores rambóias, até que durante um certo “baile dos ardentes”, as bicharadas tanto excitaram o jovem rei, que ele acabou lelé da cuca para sempre. Carlos VI foi vitima de uma super dose do tratamento prescrito. Este outro hotel é o Barbette, internamente todo forrado de cetim roxo e foi de Isabeau da Baviera (tem seu túmulo na Igreja de St. Denis, onde já estivemos). Essa ardente rainha lançou a moda dos bailes de máscaras, os quais logo conquistaram os foros da maior suruba da paróquia. Aqui está o H. d’Abert; é o mais discreto dos que vimos, tem porém bela fachada barroca; sua inquilina foi a fogosa viúva do escritor Scarron. Fez amizade com Mme. Montespan da “entourage” de Luis XIV, sendo por este recebida tornando-se governanta de seus filhos bastardos. Rapidamente virou marquesa de Maintenon pela regra geral vigente: abrir as pernas para o Rei e acordar marquesa.

Terminemos esta longa caminhada visitando o Hotel Beauvais, riquíssimo e sufocante pelo seu brilho. É tal a decoração que parece ornado de brilhantes. Cada sala é de tom diferente. Foi da Catarina Bellier, primeira camareira de Ana d’Austria; balzaquiana de 50 anos, quase consome Luis XIV que tinha apenas 16 anos; o adolescente tanto bebeu da fonte generosa que virou um palito. Receitaram-lhe gemadas de leite de corsa. Assim, entre gemadas e pimbadas foi definhando. Quando a Rainha, que também tinha disso muita experiência conseguiu metodizar os encontros com Catarina, o jovem soberano floresceu e doou uma fortuna ao Senhor de Beauvais complacente marido da balzaquiana. O casal marques de Beauvais (a regra continuou funcionando) adquiriu este enorme hotel que passou a ser um marco de arte; mais tarde quando Mozart, com sete anos de idade, veio à Paris foi aqui neste salão verde-musgo que ele encantou a todos tocando ao piano suas próprias sonatas.

Terminando a visita ao Marais, vem-me a mente que em São Paulo há, no Glicério, um prédio de 15 andares alugado a prostitutas desde o sub-solo até ao topo; por isso é chamado treme-treme. Vimos que o Marais, quando abrigava a dourada nobreza francesa era um vastíssimo treme-treme.

É obrigatório no programa traçado reverenciar a memória de alguns vultos que povoaram nossa formação cultural. Não iremos ao Invalides com seu enorme mausoléu de pórfiro vermelho, que trouxeram, em viagem de meses, da Carélia, dentro do qual encerra-se em 6 esquifes aquele que foi Napoleão. Nem ao Pantheon, onde descansam Voltaire, Rousseau, Zola, Victor Hugo, e Jaurez; ao lado de Berthelot está sua mulher, que não se conhece, mas que recebeu essa honra porque morreu no mesmo dia que seu marido (?!). Então, vamos somente ao Père Lachaise. Visita-se obrigatoriamente o cemitério de Genova pelas obras artísticas dos túmulos. O Père Lachaise se impõe porque aqui ninguém está morto; a imensa maioria está viva em nossa cultura, na História. Entre as calmas aléias detenhamo-nos diante Molière, Augusto Comte, Gay Lussac. Olha ali Musset, o poeta lírico; é ele mesmo que auto observou as pequenas flexões de sua cabeça, porque sofria de insuficiência cardíaca. Meu caro Tarantino sabe melhor do que eu esse negócio desse sinal, porque conhece muito mais semiologia. Mais adiante, encontramos Oscar Wilde que morreu no próbio, mas continua imortal. Por outra aléia chegamos a Rossini; como esse fabuloso compositor de óperas, 100% italiano, foi morrer em Paris?  Em seguida passamos por Balzac, Proust, Paul Elouard, a divina Sara Bernhardt e a incomparável Edith Piaf. Aquele túmulo coberto de flores é de Allan Kardec, mas até hoje ninguém encarnou seu espírito para desespero de seus crédulos seguidores.    oritas.e da Rainha ; sabe-se que nestes te em pagados favores que el

Ali adiante encontramos os maiores marxistas franceses, Barbusse, Thorez e Duclos. Paremos diante desse muro branco, que parece imaculado, mas que outrora foi borrado de sangue. Há 120 anos os remanescentes da Comuna de Paris se entrincheiraram neste cemitério e os 147 sobreviventes foram nele encostados, fuzilados e enterrados na vala comum. O general que comandou o massacre proferiu discurso “profético”. “Graças a Deus, com a morte desses impostores e traidores, as futuras gerações jamais ouvirão a palavra comunismo, porque ela desaparecerá dos dicionários”. Essa clarividência profética sobre os (?) sociológicos, revela bem a miopia de todos os militares.

O que há nesse amplo cercado coberto?  O pó de uma história de amor que empolga as massas há quase um milênio. Vocês já a ouviram inúmeras vezes, mas o amor é eterno e vamos relembrá-la Abelardo, teólogo canonista da Notre Dame, incumbido pelo bispo Faulbert a ensinar filosofia à sua sobrinha Heloísa, passou logo a compensar a aridez metafísica com aulas práticas mais amenas e doces, ensinando-lhe o que hoje poderíamos chamar de “cooper horizontal”. O piedoso bispo que vinha cevando a sobrinha para desfrutá-la nos ócios futuros “condignitate” ficou uma fera e simplesmente mandou castrar o atrevido teólogo. Este, com tão rude golpe, fundou o convento de Paraclet do qual Heloisa se tornou abadessa. As cartas que Abelardo e Heloisa trocaram até a morte atestam o mais puro amor platônico, não obstante os lancinantes lamentos por essa abstinência obrigatória; agora aqui estão, por fim, juntos há mil anos.

No final de nossa visita, uma pausa naquela outra viela; debaixo daquele chorão frondoso, uma lápide simples; ouçamos a pureza dos prelúdios e noturnos que ali ressoam: estamos diante de Chopin.

Hoje é o ultimo dia de Paris. Vamos encher os pulmões desse oxigênio que clarifica as mentes no “quartier latin”. No percurso do “Boulemiche” fartemo-nos com os livros aos montões nas bancas espalhadas pela calçada; nem precisamos entrar nas livrarias. São obras novas e velhas, cientificas de todos os ramos, políticas, sociológicas, filosóficas, literárias, artísticas e tudo mais. São as editoras que se tornaram familiares desde nossa adolescência: Masson, Larousse, Garnier, Gallimard, Plon, Payot... Chegamos em frente a esse templo mágico que é a SORBONNE. Entremos só para aferir os cursos especiais além dos curriculares. Os corredores regurgitam de jovens, pessoas maduras e velhas. Mal podemos atingir os placares; há temas para todos os gostos: a mortalidade maciça em Biafra, cintilograma da paratireóide nos acondoplásticos, consistência da calota polar, genéticas dos platelmintos, o aramaico e o copta na elaboração do velho testamento, Ramsés II e sua dinastia; a desnutrição da infância no terceiro mundo e a responsabilidade do intelectual etc, etc. Há professores e alunos para tudo.

À tarde no Café de Flore ou Deux Magot, sentados nas mesmas mesas onde se reuniam os existencialistas depois da guerra, assistamos o desfilar de toda a fauna de St. Germain. Passantes apressados, colegiais, mágicos e cantores que depois esmolam uma gorjeta, tocadores de acordeon, saxofone, pistão, correndo o prato por um “sou’, mulheres de todos os naipes, prostitutas de mini saia, virtuosas de short, vamps de calças colantes prateadas, as vestidas com fazenda transparente, sem nada mais por baixo, travestis, pretos africanos, sheiks, com suas roupas talares, batas brancas ou coloridas, hindus de turbante; é um espetáculo barato e só custa os dois francos do café”.

À noite poderíamos nos despedir no Lido ou no Moulin Rouge. Mas o trato foi fugirmos dos turistas e desta vez ficar nas coisas típicas. Vamos então a Place de la Contrescarpe, onde o cabaret  Pomme de Pin, celebrado por Rabelais, foi transformado hoje em audição dos “chansonniers”. Não há cadeiras. Sentemos no chão. A bebida nos será passada de mão em mão. Enquanto os artistas se apresentam o ambiente vai ficando cinzento de fumaça de tabaco e de maconha. Desta vez não importa a poluição. São ótimos “chansonniers” anônimos executando as músicas populares que estão na crista da onda e as que são criadas aí no momento. São os futuros Aznavour, Bressant. Piaf, Greco e muitos outros que, como estes, aqui também iniciaram suas carreiras.

Com dor no coração entramos no avião da Varig. No Galeão vocês ficarão e eu seguirei para a Paulicéia. Restará a saudade dos agradáveis dias que juntos passamos. Quando nos reveremos?  Voltamos à rotina estafante até quando e para quê?

Se chegarem ao fim desta, dirão que sonhei acordado ao escrever este papo infindo. Tenho justificativa. O poeta Aron dizia (estou copiando de seu último livro): “Il est permis de rêver. Il est recommandé de rêver. Sur les livres et les souvenirs. Sur la histoire e sur la vie ». E esse formidável Proust que agora, há  pouco, visitamos no Père Lachaise proclamava : «Il vaut miex rêver sa vie que la vivre, encore que la vivre ce soit encore la rêver »..



Recebam meu abraço afetuoso.

                Sempre seu,



                                                                             Rosemberg  



  














[1] Vocês já viram dezenas de vezes, nos livros, essa tela do Monet. Ofereço-lhes, porém, uma reprodução miniaturizada que existe à venda no Museu Marmotan que acabamos de visitar.

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