sexta-feira, 26 de junho de 2026

JM - Junho de 2026 - Os bangalôs do Sanatório de Messejana no Ceará

 





OS BANGALÔS DO SANATÓRIO DE MESSEJANA NO CEARÁ

No ano de 1933, foi inaugurado o “Sanatório de Messejana”, que mais tarde passou a ser chamado Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes.

Naquela época, ainda não existiam antibióticos eficazes contra a tuberculose, e os pacientes eram tratados com repouso, ar puro e exposição ao sol. Por isso, o hospital foi construído em uma área afastada de Fortaleza, cercada por jardins e bosques, seguindo modelos europeus de sanatórios, com bangalôs isolados para abrigar os pacientes tuberculosos.

Distribuídos em meio a áreas arborizadas e bem ventiladas, esses pequenos pavilhões permitiam que os doentes permanecessem em contato constante com o ar livre e a luz solar, considerados essenciais para o tratamento. Além de proporcionar um ambiente mais tranquilo e saudável, a separação entre os bangalôs ajudava a reduzir o risco de transmissão da tuberculose entre os pacientes.

A concepção desses espaços foi inspirada nos modelos de sanatórios europeus, especialmente os da Suíça, Alemanha e França, que, desde o final do século XIX, defendiam a chamada “cura sanatorial”. Esses estabelecimentos eram geralmente construídos em locais elevados, cercados pela natureza e dotados de amplas varandas para a exposição dos pacientes ao sol e ao ar puro.

O “Sanatório de Messejana” incorporou esses princípios arquitetônicos e terapêuticos, adaptando-os às condições climáticas do Ceará. Assim, seus bangalôs tornaram-se um símbolo da luta contra a tuberculose e um marco importante na história da pneumologia cearense, refletindo a influência da medicina europeia na organização dos serviços de saúde brasileiros da época.

Uma figura importante nessa história foi o médico Lineu de Queiroz Jucá, um dos fundadores da instituição e pioneiro no combate às doenças respiratórias no Ceará. A pneumologia cearense surgiu da batalha contra a tuberculose e ajudou a transformar o Ceará em um dos polos mais importantes do Brasil no tratamento de doenças pulmonares.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Paris, 30 de maio de 2026

 


sábado, 6 de junho de 2026

58. Arte & Medicina - Marat assassiné (A Morte de Marat) — 1794

 58. Marat assassiné (A Morte de Marat) — 1794


Ficha Técnica

Artista: Jacques-Louis David (1748–1825)

Título original: Marat assassiné

Título em português: A morte de Marat

Data: 1794

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 162,5 × 130 cm

Movimento/Estilo: Neoclassicismo

Localização atual: Museu do Louvre, Paris, França

Crédito da imagem: Fotografia da autora, acervo pessoal

A ESTÉTICA DO SACRIFÍCIO: Marat entre a história e a pintura


“Para ser útil à pátria, é preciso ousar tudo.”

Jean-Paul Marat

A tela, Marat assassine, mostra o corpo de Marat agonizante em sua banheira, destacando-se contra um fundo marrom-esverdeado. A cabeça, inclinada para o lado, está envolta em um turbante branco. Sua mão direita, pendendo para baixo, segura uma pena. O braço esquerdo repousa sobre uma prancha coberta com um pano verde, e a mão segura uma folha manuscrita com o texto:

«Du 13 juillet 1793. Marie Anne Charlotte Corday au citoyen Marat. Il suffit que je sois bien malheureuse pour avoir droit à votre bienveillance.»

(13 de julho de 1793. Marie Anne Charlotte Corday ao cidadão Marat. Basta que eu seja muito infeliz para ter direito à sua benevolência.)

O corpo está coberto por um lençol branco manchado de sangue. No chão, encontra-se uma faca de cabo branco, também manchada de sangue, de tamanho semelhante ao da pena. À direita, há um bloco de madeira com um tinteiro, uma pena e outra folha manuscrita com o texto:

«Vous donnerez cet assignat à cette mère de cinq enfants, dont le mari est mort pour la défense de la patrie.»

(Você dará este assignat a esta mãe de cinco filhos, cujo marido morreu pela defesa da pátria.)

Na parte inferior do bloco, a obra está assinada:

«À Marat, David. — L’an deux.» (À Marat, David. — Ano II.)

O “Ano II” refere-se ao novo calendário revolucionário instituído durante a Revolução Francesa.

Existem quatro cópias desta obra em museus: o Louvre (Paris), o Museu de Belas Artes de Dijon, o Museu de Belas Artes de Reims e o Palácio de Versalhes. Para David, essa pintura idealizada, que guarda semelhança com a imagem de Cristo morto na Pietà de Michelangelo e no Sepultamento de Cristo de Caravaggio, foi concebida como um monumento ao amigo Marat, apresentado como herói e mártir da Revolução.

Em 13 de julho de 1793, o revolucionário Jean-Paul Marat (1743–1793) foi assassinado. A pedido da Convenção, David pintou uma de suas telas mais famosas e emblemáticas, retratando Marat agonizando na banheira. Ele também cuidou do funeral, precedido de um cortejo fúnebre no dia 16 de julho, na igreja dos Cordeliers.

Marat, apelidado de “amigo do povo” (l’ami du peuple), médico, filósofo, cientista e revolucionário radical, era portador de uma doença de pele, provavelmente dermatite seborreica, que o obrigava a permanecer horas dentro de uma banheira de cobre, tomando banhos curativos de enxofre. Dessa banheira, equipada com uma espécie de escrivaninha, Marat, com a cabeça envolta em um lenço embebido em vinagre para aliviar as enxaquecas, enviava cartas à Convenção. No contexto da Revolução Francesa, ele representava os montanheses (Montagnards), grupo político contrário aos girondinos.

Charlotte Corday (1768–1793), simpatizante dos girondinos, entrou nos aposentos de Marat com o pretexto de entregar-lhe uma lista de supostos traidores da Revolução e cravou-lhe uma faca no peito, assassinando-o enquanto ele estava na banheira. Sem demonstrar arrependimento, Corday foi julgada e guilhotinada quatro dias depois.

Breve biografia de Jacques-Louis David

Jacques-Louis David, pintor francês considerado o líder do movimento neoclássico, nasceu em Paris, em 1748, e morreu em Bruxelas, em 1825, aos 77 anos. Rompeu com o estilo galante e libertino da pintura rococó do século XVIII e reivindicou a herança do classicismo de Nicolas Poussin e dos ideais estéticos gregos e romanos, após uma estada em Roma, de 1774 a 1780.

Em 1784, com sua tela O Juramento dos Horácios, tornou-se famoso. Durante a Revolução Francesa (1789–1799), engajou-se na política, tornou-se membro da Convenção, apoiou Robespierre e organizou vários festivais revolucionários.

Quando Napoleão Bonaparte (1769–1821) chegou ao poder, David tornou-se seu pintor oficial e produziu sua maior composição, Le Sacre de Napoléon Ier (A Coroação de Napoleão). Sob a Restauração, foi exilado por seu passado como revolucionário regicida e artista imperial. Refugiou-se em Bruxelas, onde continuou sua atividade artística até sua morte, em 1825.


61. ARTE & MEDICINA - Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa (Bonaparte visitando os pestíferos de Jaffa) — 1804

 Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa (Bonaparte visitando os pestíferos de Jaffa) — 1804

Ficha Técnica

Artista: Antoine-Jean Gros (1771–1835)

Título original: Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa

Título em português: Bonaparte visitando os pestíferos de Jaffa

Data: 1804

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 523 × 715 cm

Movimento/Estilo: Neoclassicismo

Localização atual: Museu do Louvre, Paris, França

Crédito da imagem: Fotografia da autora, acervo pessoal

ENTRE A CURA E O PODER: medicina, propaganda e heroísmo em Bonaparte

“As doenças são o resultado não apenas de causas naturais, mas também das condições sociais.”

 Rudolf Virchow

A cena representa um episódio ocorrido durante a campanha do Egito e da Síria (1798–1801), quando as tropas francesas foram atingidas por um surto de peste bubônica na cidade de Jaffa, atual território de Israel. A pintura retrata Napoleão Bonaparte visitando soldados doentes em um hospital improvisado, instalado em um antigo convento. Ao centro da composição, o general toca com a mão o corpo de um enfermo, gesto carregado de simbolismo, que remete tanto à tradição dos reis taumaturgos, supostamente capazes de curar doenças pelo toque, quanto à construção de sua imagem como líder corajoso e compassivo.

Entretanto, a pintura também pode ser interpretada como instrumento de propaganda. Há registros históricos de que, diante da impossibilidade de tratar adequadamente os infectados e do risco de disseminação da doença, teria sido cogitada a administração de substâncias letais aos soldados mais gravemente enfermos, fato que contrasta com a imagem humanitária construída por Gros. Assim, a obra não apenas documenta um episódio, mas também o ressignifica, transformando-o em um discurso visual de poder e legitimidade.

Do ponto de vista artístico, a composição apresenta forte contraste de luz e sombra, cores intensas e expressividade nas figuras, elementos que distanciam Gros do rigor clássico de seu mestre David. Os corpos dos doentes, expostos em diferentes estágios da enfermidade, evocam uma estética do sofrimento que aproxima a pintura de temas religiosos, como as representações de Cristo entre os enfermos, estabelecendo um paralelo simbólico entre Napoleão e figuras sagradas.

Do ponto de vista médico, a obra revela aspectos importantes sobre a percepção e o manejo das doenças epidêmicas no final do século XVIII. A peste bubônica, causada pela bactéria Yersinia pestis, era associada ao contágio e à morte quase inevitável, gerando medo generalizado. A presença de médicos e auxiliares na cena, alguns cobrindo o rosto ou evitando contato direto com os doentes, contrasta com a atitude de Bonaparte, que se expõe ao risco ao tocar o paciente, reforçando a narrativa heroica.

Inserida no diálogo entre arte e medicina, a obra evidencia como a representação da doença pode servir a múltiplos propósitos: registro histórico, reflexão sobre a condição humana e instrumento de construção política. Em Bonaparte visitando os pestíferos de Jaffa, a enfermidade não é apenas um evento biológico, mas também um elemento narrativo que reforça ideologias e consolida mitos.

Breve biografia de Antoine-Jean Gros (1771–1835)

Antoine-Jean Gros foi um pintor francês nascido em Paris, em 16 de março de 1771, e falecido em 25 de junho de 1835, em Meudon. Discípulo de Jacques-Louis David, Gros iniciou sua formação dentro dos princípios do neoclassicismo, mas sua obra evoluiu para uma linguagem mais dramática e emocional, aproximando-se do romantismo. Durante as guerras napoleônicas, tornou-se o principal pintor das campanhas de Napoleão Bonaparte, acompanhando-o em algumas expedições e registrando visualmente episódios marcantes de sua trajetória. Foi nesse contexto que produziu algumas de suas obras mais conhecidas, nas quais combina a grandiosidade histórica com uma atenção inédita ao sofrimento humano.

Gros foi um dos primeiros artistas a introduzir maior realismo e dramaticidade nas cenas históricas, afastando-se da idealização rígida do neoclassicismo. Sua obra influenciou profundamente pintores românticos como Eugène Delacroix, especialmente na valorização da cor, da emoção e do movimento.

Apesar do reconhecimento em vida, enfrentou dificuldades no final de sua carreira, marcado por conflitos artísticos e pessoais. Sua trajetória encerra-se de forma trágica, mas sua obra permanece como elo fundamental entre o neoclassicismo e o romantismo, além de constituir um marco na representação artística da doença, do sofrimento e do corpo em situações extremas.


62. ARTE & MEDICINA- Le Radeau de la Méduse (A Balsa da Medusa) — 1819

 A BALSA DA MEDUSA 


Ficha Técnica

Artista: Théodore Géricault (1791–1824)

Título original: Le Radeau de la Méduse

Título em português: A balsa da Medusa

Data: 1819

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 491 × 716 cm

Movimento/Estilo: Romantismo

Localização atual: Museu do Louvre, Paris, França

Crédito da imagem: Fotografia da autora, acervo pessoal

ENTRE O DESESPERO E A SOBREVIVENCIA: corpo, doença e desigualdade em A BALSA DA MEDUSA

“O homem é, ao mesmo tempo, o mais resistente e o mais vulnerável dos seres.”

Michel Foucault

O quadro Le Radeau de la Méduse (A Balsa da Medusa) retrata o trágico naufrágio da fragata francesa Méduse, ocorrido em 2 de julho de 1816, quando a embarcação encalhou em um banco de areia a cerca de 60 km da costa da atual Mauritânia. A bordo estavam aproximadamente 400 pessoas, e, diante da escassez de botes salva-vidas, foi improvisada uma jangada destinada a 147 indivíduos, em sua maioria pertencentes às camadas hierárquicas inferiores.

Durante treze dias, esses sobreviventes permaneceram à deriva em condições extremas, enfrentando fome, desidratação, delírio e episódios de canibalismo. Ao final, apenas quinze foram resgatados, em 17 de julho de 1816, pelo navio L’Argus, sendo que alguns ainda morreram pouco depois de chegarem a Saint-Louis, no Senegal. O episódio causou grande escândalo na França, sobretudo pela responsabilidade atribuída ao capitão, cuja nomeação estava ligada à monarquia recentemente restaurada. A tragédia expôs não apenas falhas técnicas, mas também profundas desigualdades sociais e políticas.

Sensibilizado pelo acontecimento, Théodore Géricault realizou uma investigação minuciosa: entrevistou sobreviventes, estudou cadáveres e produziu inúmeros esboços preparatórios. O resultado foi uma composição monumental que captura o instante em que os náufragos avistam, ao longe, o navio L’Argus, fazendo emergir uma tênue esperança em meio ao desespero. Sob a perspectiva da medicina, a obra é particularmente significativa. Ela evidencia os limites do corpo humano diante de condições extremas, revelando estados de exaustão, desnutrição, sofrimento psíquico e colapso fisiológico. Ao mesmo tempo, antecipa reflexões modernas sobre trauma, sobrevivência e vulnerabilidade humana.

A força expressiva da pintura transcende o episódio histórico e convida à reflexão sobre a condição humana. Pode-se estabelecer uma analogia com a própria trajetória da humanidade: enquanto alguns atravessam a existência em condições privilegiadas, outros enfrentam privações que comprometem sua saúde, dignidade e sobrevivência. Nesse sentido, A Balsa da Medusa permanece como uma poderosa metáfora das desigualdades e da fragilidade da vida.

Breve biografia de Théodore Géricault (1791–1824)

Théodore Géricault nasceu em Rouen, França, em 26 de setembro de 1791, e morreu precocemente em Paris, em 26 de janeiro de 1824, aos 32 anos. Foi um dos principais precursores do romantismo francês, rompendo com o rigor idealizado do neoclassicismo e introduzindo na pintura uma intensidade emocional inédita.

Formado no ateliê de Pierre-Narcisse Guérin, Géricault também foi influenciado pela obra de Jacques-Louis David, embora tenha rapidamente desenvolvido uma linguagem própria, marcada pelo dinamismo, pelo realismo cru e pelo interesse pelos extremos da condição humana. Para realizar sua obra mais célebre, Le Radeau de la Méduse (1819), o artista conduziu uma pesquisa quase científica: entrevistou sobreviventes, construiu maquetes da embarcação e estudou cadáveres em hospitais e necrotérios, buscando representar com precisão o sofrimento, a decomposição e a luta pela sobrevivência.

Géricault também se dedicou a estudos sobre a doença mental, produzindo uma série de retratos de pacientes psiquiátricos, conhecidos como “monomaníacos”, nos quais captou, com notável sensibilidade, as expressões da alienação e do sofrimento psíquico. Sua obra, breve, porém intensa, influenciou profundamente artistas como Eugène Delacroix e marcou uma virada decisiva na arte ocidental: a passagem para uma pintura comprometida com a realidade, a emoção e a vulnerabilidade humana. Em Géricault, o corpo deixa de ser ideal e torna-se testemunho da dor, da morte e da resistência.


sexta-feira, 5 de junho de 2026

11. Arte & Medicina - Imhotep

 



Ficha Técnica

Autor: desconhecido

Título original: Imhotep assis tenant un rouleau de papyrus

Título em português: Imhotep sentado segurando um rolo de papiro

Data: Período Tardio do Egito Antigo (664–332 a.C.)

Tipologia: Estatueta votiva

Material: Liga de cobre

Técnica: Escultura em metal fundido, com detalhes gravados/incisos em relevo

Inscrições: Escrita hieroglífica

Dimensões: 12,5 × 3,7 × 5,8 cm (altura × largura × profundidade)

Representação: Imhotep sentado, segurando um rolo de papiro sobre os joelhos

Localização atual: Museu do Louvre, Paris — Departamento de Antiguidades Egípcias, sala 336.

Crédito da imagem: Fotografia da autora,  acervo pessoal. 

-------------------------------------------------------------------


IMHOTEP: O Sábio entre a Arte e a Cura

“O primeiro médico cujo nome a história preservou foi Imhotep.”

 William Osler

Imhotep apresenta a cabeça raspada e veste um saiote egípcio (pagne). Está sentado em um bloco cúbico, segurando sobre o colo um rolo de papiro aberto, atributo associado aos escribas e ao saber. No papiro tem uma dedicatória votiva:

“Que a água do cálice de cada escriba seja oferecida em libação ao teu ka, Imhotep.”

No encontro entre arte, ciência e espiritualidade emerge a figura enigmática de Imhotep, um dos nomes mais notáveis do Egito Antigo. Viveu por volta de 2650 a.C., e tornou-se uma lenda que atravessou milênios. Imhotep foi arquiteto, sacerdote, escriba, astrônomo e, sobretudo, é considerado o primeiro médico conhecido da história. Além disso, Imhotep foi um alto funcionário do reinado do faraó Djoser (III Dinastia, c. 2650 a.C.). Tradicionalmente identificado como arquiteto da Pirâmide Escalonada de Saqqara. Séculos após sua morte, foi divinizado como patrono da medicina e da sabedoria no Egito. Muitos historiadores da medicina o consideram o primeiro médico cujo nome foi preservado pela história, sendo citado nesse sentido por William Osler em seus estudos sobre a evolução da medicina.

Entre as representações que sobreviveram ao tempo, destaca-se a pequena estatueta de Imhotep hoje preservada no Museu do Louvre. Sentado em postura serena, ele sustenta um papiro aberto sobre o colo, símbolo do saber, do estudo e da transmissão do conhecimento. A simplicidade da escultura contrasta com a profundidade de seu significado: o homem que transformou o conhecimento em cura e o raciocínio em arte. Seu semblante calmo e introspectivo sugere a união entre a sabedoria sacerdotal e a racionalidade médica, dimensões inseparáveis na concepção egípcia de saúde.

Imhotep acreditava que corpo, espírito e cosmos estavam interligados — uma visão que ecoa, ainda hoje, em concepções holísticas da medicina. Seu nome, frequentemente interpretado como “Aquele que vem em paz”, tornou-se símbolo de equilíbrio e harmonia. Séculos após sua morte, foi divinizado como deus da medicina e da sabedoria, sendo venerado em templos onde os enfermos buscavam cura por meio de sonhos e rituais, muito antes do nascimento de Hipócrates na Grécia.

A presença de Imhotep no Louvre não representa apenas um testemunho arqueológico: constitui um elo simbólico entre arte e medicina, entre o gesto do escultor e a prática do curador. Sua imagem, silenciosa e contemplativa, continua a inspirar gerações de artistas e médicos, recordando que curar é, em essência, também uma forma de arte.


quinta-feira, 4 de junho de 2026

Arte & Medicina - Sumário

 ARTE & MEDICINA

Anatomia da dor e da beleza ao longo dos séculos

PARTE I — O NASCIMENTO DO CORPO NA ARTE

Pré-história (até 4000 a.C.)

Capítulo 1 — O corpo primordial: entre o sagrado e o instinto

1. Venus von Willendorf (Vênus de Willendorf) — c. 28.000–25.000 a.C.

Autor: desconhecido

2. Scène du Puits, Grotte de Lascaux (Cena do Poço da Gruta de Lascaux) — c. 17.000 a.C.

Autor: desconhecido

3. Le Chamane dansant, Grotte des Trois-Frères (O Xamã Dançante) — c. 13.000 a.C.

Autor: desconhecido

4. O Beijo (Serra da Capivara) (O Beijo) — c. 12.000–6.000 a.C.

Autor: desconhecido

5. Cueva de las Manos (Caverna das Mãos) — c. 9.000 a.C.

Autor: desconhecido

6. Seated Woman of Çatalhöyük (Mulher Sentada de Çatalhöyük) — c. 6.000 a.C.

Autor: desconhecido

PARTE II — ENTRE DEUSES E HOMENS

Antiguidade (4000 a.C. – 476 d.C.)

Capítulo 2 — Medicina, religião e eternidade

7. Code de Hammurabi (Código de Hamurabi) — c. 1750 a.C.

Autor: desconhecido

8. Vase avec le symbole de l’œil d’Horus (Vaso com o símbolo do Olho de Hórus) — c. 1425–1353 a.C.

Autor: desconhecido

9. Papyrus of Hunefer (Papiro de Hunefer) — c. 1275 a.C.

Autor: desconhecido

10. Quatre vases canopes d’Horemsaf (Quatro vasos canopos de Horemsaf) — c. 664–332 a.C.

Autor: desconhecido

11. Imhotep (assis, tenant un rouleau de papyrus) (Imhotep sentado com papiro) — c. 664–332 a.C.

Autor: desconhecido

12. Cratère des Niobides (Cratera dos Nióbidas) — c. 460–450 a.C.

Autor: Pintor dos Nióbidas

13. Asclépios (Esculápio) — c. 350 a.C.

Autor: desconhecido

14. Hermaphrodite endormi (Hermafrodito adormecido) — séc. II d.C.

Autor: desconhecido

15. Moche Valley Ceramics (Cerâmicas do Vale do Moche) — c. 100–800 d.C.

Autor: desconhecido

PARTE III — O CORPO SAGRADO

Idade Média

Capítulo 3 — Entre a salvação e o sofrimento

16. Schöpfung und der Kosmische Mensch (Criação com o Homem Cósmico) — c. 1165–1170

Autora: Hildegard von Bingen (1098–1179)

17. Pietà de Villeneuve-lès-Avignon (Pietá de Villeneuve-lès-Avignon) — c. 1455

Autor: Enguerrand Quarton (c. 1415–1466)

18. Vierge allaitant l’Enfant Jésus entourée d’anges (Virgem amamentando o Menino Jesus cercada por anjos) — c. 1480–1500

Autor: atribuído ao Maître de la Madone au lait

19. La Circoncision de l’Enfant Jésus (A Circuncisão do Menino Jesus) — c. 1480–1520

Autor: Maître de Saint-Séverin

20. La Dame à la Licorne (A Dama e o Unicórnio) — c. 1484

Autor: desconhecido

PARTE IV — O CORPO REVELADO

Idade Moderna

Capítulo 4 — O nascimento do olhar anatômico

21. Ritratto di un vecchio con il nipote (Retrato de um velho com seu neto) — c. 1490

Autor: Domenico Ghirlandaio (1448–1494)

22. Uomo Vitruviano (Homem Vitruviano) — c. 1490

Autor: Leonardo da Vinci (1452–1519)

23. Studi anatomici sul coito (Estudos anatômicos do coito) — c. 1492–1493

Autor: Leonardo da Vinci (1452–1519)

24. Ritratto di Tommaso Inghirami (Retrato de Tommaso Inghirami) — 1509

Autor: Rafael Sanzio (1483–1520)

25. Studi del feto nel grembo (Estudos do feto no útero) — c. 1510–1513

Autor: Leonardo da Vinci (1452–1519)

26. Schiavo morente (Escravo moribundo) — c. 1513–1516

Autor: Michelangelo (1475–1564)

27. La Trasfigurazione (A Transfiguração) — 1516–1520

Autor: Rafael Sanzio (1483–1520)

28. De humani corporis fabrica libri septem (Sobre a estrutura do corpo humano) — 1543

Autor: Andreas Vesalius (1514–1564)

29. De Triomf van de Dood (O Triunfo da Morte) — c. 1562

Autor: Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525–1569)

30. Le Flûtiste borgne (Retrato de um flautista caolho) — 1566

Autor: atribuído a Marc Duval (c. 1530–1581)

PARTE IV — O CORPO REVELADO (continuação)

Capítulo 5 — O corpo investigado: ciência e representação

31. De Kreupelen (Os Mendigos) — 1568

Autor: Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525–1569)

32. Bacchino malato (Baco Doente) — c. 1593–1594

Autor: Caravaggio (1571–1610)

33. Ritratto di Antonietta Gonzales (Retrato de Antonietta Gonzales) — c. 1595

Autora: Lavinia Fontana (1552–1614)

34. Narciso (Narciso) — c. 1597–1599

Autor: Caravaggio (1571–1610)

35. Incredulità di San Tommaso (A Incredulidade de São Tomé) — c. 1601–1602

Autor: Caravaggio (1571–1610)

36. La morte della Vergine (A Morte da Virgem) — 1606

Autor: Caravaggio (1571–1610)

37. Giuditta che decapita Oloferne (Judite decapitando Holofernes) — c. 1612–1613

Autora: Artemisia Gentileschi (1593–1653)

38. De Mirakelen van Sint-Ignatius van Loyola (Os Milagres de Santo Inácio) — c. 1617–1618

Autor: Peter Paul Rubens (1577–1640)

PARTE V — O OLHAR MÉDICO

Capítulo 6 — O corpo ferido: dor, milagre e realidade

39. Sileno ebrio (Sileno Bêbado) — c. 1626

Autor: Jusepe de Ribera (1591–1652)

40. Les Fumeurs (Os Fumantes) — 1626

Autor: Simon de Vos (1603–1676)

41. La peste d’Asdod (A Peste de Asdode) — 1630–1631

Autor: Nicolas Poussin (1594–1665)

42. De Tandentrekker (O Extrator de Dentes) — c. 1630–1635

      Autor: Gerard Dou (1613–1675

43. Saint Jérome penitent (São Jerônimo penitente) – c.1630 Autor: Georges de La Tour (1593- 1652)

44. La mujer barbuda (A Mulher Barbada) — 1631

Autor: Jusepe de Ribera (1591–1652)

45. El príncipe Baltasar Carlos con un enano (Príncipe Baltasar Carlos com um anão) — c. 1631

Autor: Diego Velázquez (1599–1660)

46. De anatomische les van Dr. Nicolaes Tulp (A Lição de Anatomia do Dr. Tulp) — 1632

Autor: Rembrandt (1606–1669)

Capítulo 7 — O corpo em cena: poder, diferença e representação

47. El pie varo (O Pé Torto) — 1642

Autor: Jusepe de Ribera (1591–1652)

48. La Madeleine à la veilleuse (Madalena com a Candeia) – c. 1642-1644 Autor: Georges de La Tour (1593- 1652) tulo: Madeleine à la

49. La tabagie (A Tabacaria) — 1643

Autores: Louis Le Nain (c. 1593–1648) e Antoine Le Nain (c. 1600–1648)

50. Le Christ guérissant l’aveugle (Cristo curando o cego) — c. 1650

Autor: Nicolas Poussin (1594–1665)

51. L’Estasi di Santa Teresa (O Êxtase de Santa Teresa) — 1647–1652

Autor: Gian Lorenzo Bernini (1598–1680)

52. Las Meninas (As Meninas) — 1656

Autor: Diego Velázquez (1599–1660)

53. De anatomische les van Dr. Deijman (A Lição de Anatomia do Dr. Deijman) — 1656

Autor: Rembrandt (1606–1669)

54. De dokter die de urine onderzoekt (O Médico examinando a urina) — 1663

Autor: Gerard Dou (1613–1675)

55. La Visite du Médecin (A Visita do Médico) — 1665

Autor: Quirijn van Brekelenkam (1622–1668)

56. La Monstrua (A Monstrua) — c. 1680

Autor: Juan Carreño de Miranda (1614–1685)

57. El Garrotillo (O Garrotillo) — c. 1780

Autor: Francisco de Goya (1746–1828)

PARTE VI — MEDICINA, EMOÇÃO E REPRESENTAÇÃO

Capítulo 8 — Entre a dor e a grandeza

58. La Mort de Marat (A Morte de Marat) — 1794

Autor: Jacques-Louis David (1748–1825)

59. Chinese doctor taking the pulse (Médico examinando o pulso) — séc. XVIII–XIX

Autor: desconhecido

60. Ayurvedic physician treating a patient (Médico ayurvédico tratando paciente) — séc. XVIII–XIX

Autor: desconhecido

61. Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa (Bonaparte visitando os pestíferos de Jaffa) — 1804

Autor: Antoine-Jean Gros (1771–1835)

62. Le Radeau de la Méduse (A Balsa da Medusa) — 1819

Autor: Théodore Géricault (1791–1824)

63. La folle monomane de jeu (A Louca do Jogo) — 1819–1822

Autor: Théodore Géricault (1791–1824)

64. Étude d’homme nu, dit Le Polonais (Estudo do Homem Nu — O Polonês) — 1821–1822

Autor: Eugène Delacroix (1798–1863)

Capítulo 9 — O teatro da ciência

65. La Mort de Géricault (A Morte de Géricault) — 1824

Autor: Ary Scheffer (1795–1858)

66. Portrait de Frédéric Chopin (Retrato de Chopin) — 1838

Autor: Eugène Delacroix (1798–1863)

67. Sōma no furudairi (Takiyasha e o espectro do esqueleto) — 1844–1847

Autor: Utagawa Kuniyoshi (1798–1861)

68. Le Bain turc (O Banho Turco) — 1862

Autor: Jean-Auguste-Dominique Ingres (1780–1867)

69. L’Origine du monde (A Origem do Mundo) — 1866

Autor: Gustave Courbet (1819–1877)

70. The Gross Clinic (A Clínica do Dr. Gross) — 1875

Autor: Thomas Eakins (1844–1916)

71. Philippe Pinel délivrant les aliénés (Pinel libertando os alienados) — 1876

Autor: Tony Robert-Fleury (1837–1911)

72. Edward Jenner performing vaccination (Dr. Jenner e a vacinação) — 1879

Autor: Gaston Mélingue (1839–1914)

Capítulo 10 — A experiência do sofrimento: intimidade e vulnerabilidade

73. Den syke piken (A Menina Doente) — 1881

Autor: Christian Krohg (1852–1925)

74. First operation under ether (Primeira cirurgia sob éter) — 1882

Autor: Robert Hinckley (1853–1941)

75. Kop van een skelet met brandende sigaret (Caveira com cigarro aceso) — 1885–1886

Autor: Vincent van Gogh (1853–1890)

76. Det syke barn (A Criança Doente) — 1885–1886

Autor: Edvard Munch (1863–1944)

77. La miseria (A Miséria) — 1886

Autor: Cristóbal Rojas (1857–1890)

78. Une leçon clinique à la Salpêtrière (Uma lição clínica na Salpêtrière) — 1887

Autor: André Brouillet (1857–1914)

79. La primera y última comunión (A Primeira e Última Comunhão) — 1888

Autor: Cristóbal Rojas (1857–1890)

80. The Agnew Clinic (A Clínica do Dr. Agnew) — 1889

Autor: Thomas Eakins (1844–1916)

PARTE VII — O CORPO COLETIVO: MEDICINA, SOCIEDADE E EXISTÊNCIA

Capítulo 11 — A medicina que organiza a sociedade

81. Autoportrait à l’oreille bandée (Autorretrato com a orelha enfaixada) — 1889

Autor: Vincent van Gogh (1853–1890)

82. Portrait du Dr. Gachet (Retrato do Dr. Gachet) — 1890

Autor: Vincent van Gogh (1853–1890)

83. La goutte de lait (Gota de Leite) — 1890

Autor: Jean Geoffroy (1853–1924)

84. The Doctor (O Doutor) — 1891

Autor: Samuel Luke Fildes (1843–1927)

85. L’Ambulance de la Comédie-Française (A Ambulância da Comédie-Française) — 1891

Autor: André Brouillet (1857–1914)

86. Transfusion de sang de chèvre (Transfusão de sangue de cabra) — 1892

Autor: Jules Adler (1865–1952)

87. Skrik (O Grito) — 1893

Autor: Edvard Munch (1863–1944)

88. The Sick Child (A Criança Doente) - 1893

Autor: John Bond Francisco (1863-1931)

89. Ciencia y Caridad (Ciência e Caridade) — 1897

Autor: Pablo Picasso (1881–1973)

90. La Celestina (A Celestina) — 1904

Autor: Pablo Picasso (1881–1973)

Capítulo 12 — O corpo que sofre: identidade, dor e existência

91. Hygieia (Hígia) — c. 1907

Autor: Gustav Klimt (1862–1918)

92. Der Kuss (O Beijo) — c. 1907

Autor: Gustav Klimt (1862–1918)

93. Os Bêbados ou Festejando o São Martinho (Os Bêbados) -1907 Autor: José Malhoa (1855-1933)

94. A Boba (A Boba) — c. 1915

Autora: Anita Malfatti (1889–1964)

95. Tuberculosis (Tuberculose)–1934 Autor: Fidélio Ponce de León (1895-1949)

96. Las dos Fridas (As Duas Fridas) — 1939

Autora: Frida Kahlo (1907–1954)

97. La columna rota (A Coluna Partida) - 1944

Autora: Frida Kahlo (1907–1954)

98. Retirantes (Os Retirantes) — 1944

Autor: Candido Portinari (1903–1962)

99. Criança morta (Criança Morta) — 1944

Autor: Candido Portinari (1903–1962)

100. La Cortisone (A Cortisona) — 1951

Autor: Raoul Dufy (1877–1953)