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| Nakba (êxodo palestino) 1948 |
RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL II
Tenho sido
um crítico ferrenho do governo de Netanyahu; de suas políticas em relação à
ocupação, aos assentamentos e à forma como não tentou sequer buscar a paz com
os palestinos, adotando, francamente, ideias racistas de supremacia judaica. Não
haverá paz para ninguém, incluindo os israelenses, a menos que milhões de
palestinos que vivem sob ocupação israelense ou em condições terríveis na Faixa
de Gaza tenham um futuro para esperar com todos os direitos que os israelenses
desfrutam.
Yuval Noah Harari
historiador judeu
autor do best-seller - Sapiens
Em março de
2003, escrevi um texto intitulado “Resistência Imponderável”, no qual fazia uma
análise da “Guerra do Iraque”. Não sou pitonisa, mas previ, em parte, as causas
e consequências da referida guerra.
Hoje, 20
anos depois, sou impelida a escrever um segundo texto, com o mesmo título,
sobre a guerra (Israel x Hamas), que ora se desenrola no Oriente Médio.
Para
entender todo o contexto dessa guerra é preciso puxar o fio da História.
Refiro-me às origens dos povos: judeu e palestino, mas isso ficará para outra
ocasião. Nesse texto vou me ater ao movimento “Sionismo”, causa mais direta do conflito.
O “Sionismo”, cujo termo se origina de “Sião” (uma das colinas que cercam a Terra Santa), surgiu na
Europa Central e Oriental na segunda metade do século XIX, diante da
perseguição milenar sofrida pelos judeus e visava a formação de uma pátria para
o povo judeu na Terra de Israel – Palestina – correspondendo aproximadamente a
Canaã (Terra Santa).
Moses Hess (1812-1875), alemão, filósofo e socialista,
próximo de Karl Marx e Friedrich Engels, é considerado um dos fundadores do
“Sionismo”, trinta e três anos antes de Theodor Herzl (1860-1904), judeu
austríaco, ter publicado o livro “Der Judenstaat” (O Estado Judeu,
1895). Herzl articulou o sionismo político e, por isso, é considerado o “Pai do
Sionismo”.
Em agosto de 1897, na Basileia, foi realizado o
primeiro dos vinte e dois congressos sionistas (1897-1945) e criada a “Organização
Sionista Mundial”, sob a presidência de Herzl. O movimento popularizou-se
graças a consciência dos judeus que viviam sob as perseguições e
massacres provocados pelo antissemitismo crônico que grassava na Europa,
desde a “Segunda Diáspora”, 70 d.C., quando os judeus foram expulsos da
Palestina, pelo Império Romano.
A crença de que os judeus foram os algozes de
Jesus Cristo, foi uma das causas do antissemitismo que se disseminou na Europa
cristã, durante a Idade Média. A hostilidade
contra os judeus como um grupo étnico, religioso ou racial - manifestado como expressões
individuais de ódios e/ou ataques organizados, tem, historicamente, um leque de
exemplos, como: o massacre de Judeus em Granada, em 1066; o massacre, em 1096,
de Worms-Alemanha, um dos
vários ataques contra as comunidades judaicas perpetrados durante a Primeira Cruzada (1096–1099); o Édito de expulsão de
todos os judeus da Inglaterra, em 1290; os massacres dos judeus espanhóis, em 1391; as perseguições aos judeus durante as Inquisições
Portuguesa e Espanhola; a expulsão dos judeus
da Espanha, em 1492; a expulsão dos judeus de
Portugal, em 1497; o massacre de judeus
de Lisboa, em 1506; os massacres de
judeus pelos Cossacos, na Ucrânia, de 1648 a 1657; os diversos “pogroms”
no Império Russo, entre 1821 e 1906; o “Caso Dreyfus” na
França, de 1894 a 1906; políticas
soviéticas antijudaicas sob Stalin e o “Holocausto” perpetrado
pela Alemanha Nazista, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando
seis milhões de judeus foram dizimados cruelmente, nos campos de concentração.
Em 1917, a “Declaração
Balfour”, uma carta do então Secretário Britânico de Assuntos Estrangeiros,
Arthur James Balfour (1848-1930), endereçada ao Lionel Walter Rothschild
(1868-1937), líder da “Comunidade Judaica do Reino Unido”, deu ao movimento sionista
a forma concreta de realizar a criação do Estado Judaico.
A carta demonstrava a
intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do “Lar Nacional
Judeu na Palestina”, caso a Inglaterra conseguisse
derrotar o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região. A França e
a Itália,
aliadas de Londres na Primeira
Guerra Mundial, ratificaram a “Declaração
Balfour”. O apoio de muitos
antissemitas, que queriam se livrar dos judeus em seus países, foi importante
para a concretização do sonho sionista.
Por outro lado, Thomas
Woodrow Wilson (1856-1942),
presidente dos EEUU (1913 a 1921), pregava a autodeterminação de povos subjugados pelo Império
Otomano e Edward House, seu conselheiro de política externa vaticinou
sobre a “Declaração Balfour”:
"Tudo é ruim e eu avisei a Balfour sobre isso.
Estão criando um criadouro para guerras no futuro."
A grande adesão dos judeus ao “Sionismo” foi consequência do forte apelo religioso, baseado na redenção do Povo de Israel (Povo Eleito) na “Terra Prometida”. Por outro lado, os judeus ortodoxos e ultraortodoxos, por não conceberem o retorno dos judeus antes da chegada do Messias, reprovavam o Sionismo, dizendo que a redenção deveria vir de Deus e não de ações políticas. Essas visões, entretanto, foram minoritárias e não prevaleceram.
No começo do século XX, a Palestina era ocupada,
majoritariamente, por árabes mulçumanos. Dos 644 mil habitantes, somente 56 mil
eram judeus. Em1920, após a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918), o Oriente Médio foi fatiado entre britânicos e franceses, como
resultado do “Acordo Sykes-Picot”. O Reino Unido passou a controlar a Palestina
(Protetorado Britânico) e a milionária família Rothschild doou somas imensas de
dinheiro para a compra de terras dos proprietários árabes da região.
Houve, portanto, aumento da imigração
judaica, principalmente de jovens judeus da Europa Oriental que foram colonizar
as terras da Palestina e adotar como língua o velho idioma hebraico.
A partir de então, atos de violência,
cometidos por grupos paramilitares judeus, considerados terroristas, como: Irgun, Lehi, Haganah e Palmach, foram
perpetrados contra autoridades britânicas e árabes palestinos, visando o
aumento da imigração, a expansão dos assentamentos sionistas e o controle da
Palestina.
Entre 1920
e 1948, o Haganah (termo que significa defesa em hebraico), foi a organização
sionista mais importante na Palestina. Serviu de espinha dorsal, com o Palmach,
para a criação do exército israelense, por David Ben-Gurion (Primeiro
Presidente de Israel).
Os
sionistas, como já foi referido, buscavam, desde o século XIX, uma saída étnico
nacional e colonial contra o antissemitismo. Eles se apropriaram do Holocausto
para implantar o plano de limpeza étnica contra os árabes que viviam na região da
Palestina.
Quem
ficasse contra essa solução seria taxado de antissemita. Muitos grupos judaicos
acreditavam que a inserção dos judeus nas comunidades onde viviam seria a
melhor solução. Mas a grande narrativa dos sionistas - O Povo Eleito para a
Terra Prometida – encontrou eco e a divisão da Palestina foi concretizada.
A “Declaração Balfour”, o “Antissemitismo”, e, principalmente,
o “Holocausto” foram decisivos para se criar um consenso mundial favorável
a criação do Estado Judeu. Finalmente,
em 1947, a Organização
das Nações Unidas (ONU) aprovou o “Plano de Partilha da Palestina” - Resolução
181 da ONU - que consistia na divisão da Palestina em dois estados: um judeu e
outro árabe, ficando as áreas de Jerusalém e Belém sob controle internacional.
Porém, essa partilha não foi aceita pelos árabes
palestinos e nem pelos Estados Árabes, pois 53% das terras ficariam com os
700 mil judeus, e 47% com os 1 milhão e 400 mil árabes.
Por outro lado, os judeus
aceitaram-na e, em 14 de maio de 1948, foi declarada a criação do Estado de
Israel, desencadeando uma guerra civil entre judeus e palestinos, com o apoio
dos países árabes (Egito, Síria, Libano, Iraque e Jordânia).
A referida guerra, “Primeira Guerra Árabe-Israelense” ocorreu, entre maio de 1948
e janeiro de 1949, e foi vencida por Israel que ampliou seu domínio por uma área de 20 mil km² (75% da
superfície da Palestina). A Jordania anexou a Cisjordânia e o Egito a Faixa de
Gaza.
No final da
guerra, 900 mil palestinos foram expulsos de suas terras e ficaram dispersos
pelo Oriente. O êxodo palestino ficou conhecido como “Nakba” (catástrofe). A ONU
estima, atualmente, que cerca de 5 milhões de pessoas descendentes de “Nakba”
não podem retornar à Palestina.
Em 1964, com o apoio da “Liga
Árabe”, foi criada a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), uma entidade
política e militar laica com a participação de vários grupos políticos,
inclusive o Fatah, representando o povo palestino.
O Fatah – Movimento de
Libertação Nacional Palestino – foi criado em 1959, por ativistas da diáspora,
como Yasser Arafat. Inicialmente, o Fatah optou pela via armada para combater o
governo israelense, mas, aos poucos, começou a buscar vias diplomáticas o que o
levou aos “Acordos de Oslo”, negociados entre 1993 e 2000, que propunha o fim
dos conflitos com o estabelecimento de dois Estados. O Acordo de Oslo não saiu do papel e, por isso, fomentou a violência
O Hamas – organização palestina
nacionalista e islamista – criada em 1987 - tem como objetivo libertar o povo
palestino através da luta armada. Inicialmente, o Hamas era uma instituição de
caridade religiosa associada a Irmandade Muçulmana Egípcia e não se envolvia com
o conflito israelense-palestino.
O Estado
de Israel, para enfraquecer a OLP e fragmentar a resistência palestina,
investiu no Hamas. Entretanto, diferentemente do que Israel esperava, o Hamas passou
a envolver-se com a política e a combater Israel por meio da violência. O Hamas
surgiu no contexto da Primeira Intifada e, diferentemente do Fatah, não
reconhece o Estado de Israel.
Muitas guerras entre judeus e
palestinos foram travadas, como: Crise de Suez; Guerra dos Seis Dias; Guerra de
Yom Kippur; Primeira Intifada; Segunda Intifada.
Os conflitos seguem em
curso, com pequenos intervalos de paz. Israel possui uma das forças militares
mais poderosas do mundo e a Palestina não possui reconhecimento internacional
nem mesmo um território estabelecido.
Ilan Pappé (1954- ), israelense, professor de história na
Universidade de Exeter, no Reino Unido, um dos novos historiadores que
reexaminaram criticamente a História
de Israel e do Sionismo, publicou
o livro The Ethnic Cleansing of Palestine (A Limpeza
Étnica da Palestina), no qual faz uma profunda análise dos acontecimentos que
levaram a criação do Estado de Israel,
em 1948.
Pappé
defende a tese de que houve uma limpeza étnica - expulsão
deliberada da população civil árabe da Palestina - operada pela Haganah,
pelo Irgun e outras milícias sionistas, que
formariam a base do Tzahal -
segundo um plano elaborado bem antes de 1948.
Pappé
afirma que a criação do Estado de Israel é causa de instabilidade e impossibilita
a paz no Oriente Médio. Afirma,
também, que o “Sionismo” tem sido historicamente mais perigoso do que o islamismo extremista.
Ilan Pappé, defensor de um único Estado para
palestinos e israelenses, entrou em conflito com seus colegas da Universidade
de Haifa, principalmente com Yoav Gelber.
A “Questão Palestina” é a
luta do povo palestino pelo reconhecimento internacional enquanto nação. Muitos
observadores apontam que os palestinos são mantidos em um regime de apartheid
por Israel. As condições de vida impostas aos palestinos na Faixa de Gaza são
cada vez piores, e bombardeios israelenses na região são comuns. Isto, além da
dificuldade de acesso ao básico na região, como alimento, remédios, energia
elétrica e água potável. Na Cisjordânia, existe uma progressiva ocupação do
território por israelenses.
O Hamas, o grupo radical
islâmico, como já exposto, que governa a Faixa de Gaza, considerado terrorista
pelos EEUU e União Europeia, perpetrou um ataque cruel e inimaginável contra
Israel, no dia 07.10.2023, resultando em milhares de vítimas fatais e no
sequestro de mais de 240 pessoas.
Em resposta, o premiê
israelense Binyamin Netanyahu, com o apoio incondicional da maior potência bélica do mundo, os EEUU, e paises da Europa, declarou guerra, iniciando uma grande investida
em Gaza para erradicar o Hamas.
Hoje, 07.11.2023, a guerra contabiliza: 10.569
mortos na Faixa de Gaza e 1.430 no território israelense. O total de crianças
mortas é quase 5 mil.
O historiador Pappé, diante da
escalada da guerra de Israel em Gaza e sobre um documento do Ministério da
Inteligência de Israel que sugere a expulsão permanente de toda a população de
Gaza, mais de 2 milhões de pessoas, para o deserto do Sinai, no Egito, disse: “Esta
é uma operação massiva de matança, de limpeza étnica, de despovoamento”.
Pappé disse, ainda, que a única forma de
garantir a libertação dos mais de 200 reféns detidos pelo Hamas é concordar com
uma troca das pessoas sequestradas pelos milhares de presos políticos palestinos
detidos por Israel, incluindo muitas mulheres, crianças e idosos.
Há um impasse de difícil solução.
Os palestinos irão resistir?
Eis a questão.
ana margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 7 de novembro de 2023
Abaixo, o link para o texto, RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL, de 2003
https://anamargarida-memorias.blogspot.com/2011/12/resistencia-imponderavel.html

Li agora o "Resistência Imponderável II". Muito elucidativo. Uma região onde os conflitos são secularmente constantes. Ali prevalece a barbárie nas buscas de soluções. O mais incrível é assistirmos à dispersão e à escolha pelo retorno desses povos. Vamos acompanhar e ver o que vai acontecer.
ResponderExcluirO RI primeiro, lerei assim que possível.
Parabéns!!
Obrigada, Denice. Seu comentário é valioso
ExcluirComentários do ZAP
ResponderExcluirExcelente o texto da médica e historiadora Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, que demonstra com rara objetividade, toda a sequência histórica, sociologia, politica e militar do movimento sionista que desenbocou na criação do Estado de Israel e a posterior política belicista deste para a tomada dos territórios da palestina e a consequente expulsão dos povos árabe e palestino ali habitantes. Parabéns à querida amiga pelo belo e oportuno artigo. 👍👍
Inocêncio Uchôa
Ana Margarida, obrigada por me enviar esses dois artigos. Riquíssimos em informações, precisos nas análises e com muita sensibilidade nos comentários. É maravilhoso poder desfrutar do seu conhecimento e da sua lucidez.
Angelita Castro
Oi Aninha !
Seu texto tá MARAVILHOSO!
Bem fundamentado , Didático , completo . .
Já li 2 vezes . Vou divulgar .
Parabéns! Bj
Ângela Uchôa
Comentário do ZAP
ResponderExcluirAcabei de ler. Dessa vez, aqui no Jordão. Atenção e estado de espirito dispostos. Gostei muitissimo pois situei-me melhor entre os lados belicosos. Minha percepção é de algo que só terá fim com lutas extremas geradas e exterminadoras do tipo mundial. Os grandes detentores dos poderes no mundo, parecem-me por enquanto em fase de ideaçoes e possiveis ataques mundiais.
Um horror.
Muito obrigada!!! Parabéns por texto muitissimo intelegivel. É a primeira vez que compreendo mais sobre esse conflito.
Bssss
Bonjour.
Márcia Alcântara