quinta-feira, 9 de novembro de 2023

RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL II

Nakba (êxodo palestino) 1948 

RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL II


 Por: ana margarida furtado arruda rosemberg 



Tenho sido um crítico ferrenho do governo de Netanyahu; de suas políticas em relação à ocupação, aos assentamentos e à forma como não tentou sequer buscar a paz com os palestinos, adotando, francamente, ideias racistas de supremacia judaica. Não haverá paz para ninguém, incluindo os israelenses, a menos que milhões de palestinos que vivem sob ocupação israelense ou em condições terríveis na Faixa de Gaza tenham um futuro para esperar com todos os direitos que os israelenses desfrutam.

  Yuval Noah Harari   

  historiador judeu    

 autor do best-seller - Sapiens




 

Em março de 2003, escrevi um texto intitulado “Resistência Imponderável”, no qual fazia uma análise da “Guerra do Iraque”. Não sou pitonisa, mas previ, em parte, as causas e consequências da referida guerra.

Hoje, 20 anos depois, sou impelida a escrever um segundo texto, com o mesmo título, sobre a guerra (Israel x Hamas), que ora se desenrola no Oriente Médio.

Para entender todo o contexto dessa guerra é preciso puxar o fio da História. Refiro-me às origens dos povos: judeu e palestino, mas isso ficará para outra ocasião. Nesse texto vou me ater ao movimento “Sionismo”, causa mais direta do conflito.

O “Sionismo”, cujo termo se origina de “Sião” (uma das colinas que cercam a Terra Santa), surgiu na Europa Central e Oriental na segunda metade do século XIX, diante da perseguição milenar sofrida pelos judeus e visava a formação de uma pátria para o povo judeu na Terra de Israel – Palestina – correspondendo aproximadamente a Canaã (Terra Santa).

Moses Hess (1812-1875), alemão, filósofo e socialista, próximo de Karl Marx e Friedrich Engels, é considerado um dos fundadores do “Sionismo”, trinta e três anos antes de Theodor Herzl (1860-1904), judeu austríaco, ter publicado o livro “Der Judenstaat” (O Estado Judeu, 1895). Herzl articulou o sionismo político e, por isso, é considerado o “Pai do Sionismo”.

Em agosto de 1897, na Basileia, foi realizado o primeiro dos vinte e dois congressos sionistas (1897-1945) e criada a “Organização Sionista Mundial”, sob a presidência de Herzl. O movimento popularizou-se graças a consciência dos judeus que viviam sob as perseguições e massacres provocados pelo antissemitismo crônico que grassava na Europa, desde a “Segunda Diáspora”, 70 d.C., quando os judeus foram expulsos da Palestina, pelo Império Romano.

A crença de que os judeus foram os algozes de Jesus Cristo, foi uma das causas do antissemitismo que se disseminou na Europa cristã, durante a Idade Média. A hostilidade contra os judeus como um grupo étnico, religioso ou racial - manifestado como expressões individuais de ódios e/ou ataques organizados, tem, historicamente, um leque de exemplos, como: o massacre de Judeus em Granada, em 1066; o massacre, em 1096, de Worms-Alemanha, um dos vários ataques contra as comunidades judaicas perpetrados durante Primeira Cruzada (1096–1099); o Édito de expulsão  de todos os judeus da Inglaterra, em 1290;  os massacres dos judeus espanhóis, em 1391; as perseguições aos judeus durante as Inquisições Portuguesa e Espanhola; expulsão dos judeus da Espanha, em 1492; a expulsão dos judeus de Portugal, em 1497; o massacre de judeus de Lisboa, em 1506; os massacres de judeus pelos Cossacos, na Ucrânia, de 1648 a 1657; os diversos “pogroms” no Império Russo, entre 1821 e 1906; o  “Caso Dreyfus na França, de 1894 a 1906;  políticas soviéticas antijudaicas sob Stalin e o “Holocausto perpetrado pela Alemanha Nazista, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando seis milhões de judeus foram dizimados cruelmente, nos campos de concentração.

Em 1917, a “Declaração Balfour”, uma carta do então Secretário Britânico de Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour (1848-1930), endereçada ao Lionel Walter Rothschild (1868-1937), líder da “Comunidade Judaica do Reino Unido”, deu ao movimento sionista a forma concreta de realizar a criação do Estado Judaico.  

A carta demonstrava a intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do “Lar Nacional Judeu na Palestina, caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região. A França e a Itália, aliadas de Londres na Primeira Guerra Mundial,  ratificaram a “Declaração Balfour”. O apoio de muitos antissemitas, que queriam se livrar dos judeus em seus países, foi importante para a concretização do sonho sionista.

Por outro lado, Thomas Woodrow Wilson (1856-1942), presidente dos EEUU (1913 a 1921), pregava a autodeterminação de povos subjugados pelo Império Otomano e Edward House, seu conselheiro de política externa vaticinou sobre a “Declaração Balfour”:

"Tudo é ruim e eu avisei a Balfour sobre isso. Estão criando um criadouro para guerras no futuro."

A grande adesão dos judeus ao “Sionismo” foi consequência do forte apelo religioso, baseado na redenção do Povo de Israel (Povo Eleito) na “Terra Prometida”. Por outro lado, os judeus ortodoxos e ultraortodoxos, por não conceberem o retorno dos judeus antes da chegada do Messias, reprovavam o Sionismo, dizendo que a redenção deveria vir de Deus e não de ações políticas. Essas visões, entretanto, foram minoritárias e não prevaleceram.

No começo do século XX, a Palestina era ocupada, majoritariamente, por árabes mulçumanos. Dos 644 mil habitantes, somente 56 mil eram judeus. Em1920, após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Oriente Médio foi fatiado entre britânicos e franceses, como resultado do “Acordo Sykes-Picot”. O Reino Unido passou a controlar a Palestina (Protetorado Britânico) e a milionária família Rothschild doou somas imensas de dinheiro para a compra de terras dos proprietários árabes da região.

Houve, portanto, aumento da imigração judaica, principalmente de jovens judeus da Europa Oriental que foram colonizar as terras da Palestina e adotar como língua o velho idioma hebraico.  

A partir de então, atos de violência, cometidos por grupos paramilitares judeus, considerados terroristas, como:  Irgun, Lehi, Haganah e Palmach, foram perpetrados contra autoridades britânicas e árabes palestinos, visando o aumento da imigração, a expansão dos assentamentos sionistas e o controle da Palestina.

Entre 1920 e 1948, o Haganah (termo que significa defesa em hebraico), foi a organização sionista mais importante na Palestina. Serviu de espinha dorsal, com o Palmach, para a criação do exército israelense, por David Ben-Gurion (Primeiro Presidente de Israel).  

Os sionistas, como já foi referido, buscavam, desde o século XIX, uma saída étnico nacional e colonial contra o antissemitismo. Eles se apropriaram do Holocausto para implantar o plano de limpeza étnica contra os árabes que viviam na região da Palestina.

Quem ficasse contra essa solução seria taxado de antissemita. Muitos grupos judaicos acreditavam que a inserção dos judeus nas comunidades onde viviam seria a melhor solução. Mas a grande narrativa dos sionistas - O Povo Eleito para a Terra Prometida – encontrou eco e a divisão da Palestina foi concretizada.

A “Declaração Balfour”, o “Antissemitismo”, e, principalmente, o “Holocausto” foram decisivos para se criar um consenso mundial favorável a criação do Estado Judeu. Finalmente, em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o “Plano de Partilha da Palestina” - Resolução 181 da ONU - que consistia na divisão da Palestina em dois estados: um judeu e outro árabe, ficando as áreas de Jerusalém e Belém sob controle internacional.

Porém, essa partilha não foi aceita pelos árabes palestinos e nem pelos Estados Árabes, pois 53% das terras ficariam com os 700 mil judeus, e 47% com os 1 milhão e 400 mil árabes.  

Por outro lado, os judeus aceitaram-na e, em 14 de maio de 1948, foi declarada a criação do Estado de Israel, desencadeando uma guerra civil entre judeus e palestinos, com o apoio dos países árabes (Egito, Síria, Libano, Iraque e Jordânia).

A referida guerra, “Primeira Guerra Árabe-Israelense” ocorreu, entre maio de 1948 e janeiro de 1949, e foi vencida por Israel que ampliou seu domínio por uma área de 20 mil km² (75% da superfície da Palestina). A Jordania anexou a Cisjordânia e o Egito a Faixa de Gaza.

No final da guerra, 900 mil palestinos foram expulsos de suas terras e ficaram dispersos pelo Oriente. O êxodo palestino ficou conhecido como “Nakba” (catástrofe). A ONU estima, atualmente, que cerca de 5 milhões de pessoas descendentes de “Nakba” não podem retornar à Palestina.

Em 1964, com o apoio da “Liga Árabe”, foi criada a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), uma entidade política e militar laica com a participação de vários grupos políticos, inclusive o Fatah, representando o povo palestino.

O Fatah – Movimento de Libertação Nacional Palestino – foi criado em 1959, por ativistas da diáspora, como Yasser Arafat. Inicialmente, o Fatah optou pela via armada para combater o governo israelense, mas, aos poucos, começou a buscar vias diplomáticas o que o levou aos “Acordos de Oslo”, negociados entre 1993 e 2000, que propunha o fim dos conflitos com o estabelecimento de dois Estados. O Acordo  de Oslo  não  saiu do papel e,   por isso, fomentou a violência 

O Hamas – organização palestina nacionalista e islamista – criada em 1987 - tem como objetivo libertar o povo palestino através da luta armada. Inicialmente, o Hamas era uma instituição de caridade religiosa associada a Irmandade Muçulmana Egípcia e não se envolvia com o conflito israelense-palestino.

O Estado de Israel, para enfraquecer a OLP e fragmentar a resistência palestina, investiu no Hamas. Entretanto, diferentemente do que Israel esperava, o Hamas passou a envolver-se com a política e a combater Israel por meio da violência. O Hamas surgiu no contexto da Primeira Intifada e, diferentemente do Fatah, não reconhece o Estado de Israel.

Muitas guerras entre judeus e palestinos foram travadas, como: Crise de Suez; Guerra dos Seis Dias; Guerra de Yom Kippur; Primeira Intifada; Segunda Intifada.

Os conflitos seguem em curso, com pequenos intervalos de paz. Israel possui uma das forças militares mais poderosas do mundo e a Palestina não possui reconhecimento internacional nem mesmo um território estabelecido.

Ilan Pappé (1954- ),  israelense, professor de história na Universidade de Exeter, no Reino Unido,   um dos  novos historiadores que reexaminaram criticamente a História de Israel e do Sionismo, publicou o livro The Ethnic Cleansing of Palestine (A Limpeza Étnica da Palestina), no qual faz uma profunda análise dos acontecimentos que levaram a  criação do Estado de Israel, em 1948. 

Pappé defende a tese de que houve uma limpeza étnica - expulsão deliberada da população civil árabe da Palestina - operada pela Haganah, pelo Irgun e outras milícias sionistas, que formariam a base do Tzahal - segundo um plano elaborado bem antes de 1948. 

Pappé afirma que a criação do Estado de Israel é causa de instabilidade e impossibilita a paz no Oriente Médio. Afirma, também, que o “Sionismo” tem sido historicamente mais perigoso do que o islamismo extremista.

Ilan Pappé, defensor de um único Estado para palestinos e israelenses, entrou em conflito com seus colegas da Universidade de Haifa, principalmente com Yoav Gelber.

A “Questão Palestina” é a luta do povo palestino pelo reconhecimento internacional enquanto nação. Muitos observadores apontam que os palestinos são mantidos em um regime de apartheid por Israel. As condições de vida impostas aos palestinos na Faixa de Gaza são cada vez piores, e bombardeios israelenses na região são comuns. Isto, além da dificuldade de acesso ao básico na região, como alimento, remédios, energia elétrica e água potável. Na Cisjordânia, existe uma progressiva ocupação do território por israelenses.

O Hamas, o grupo radical islâmico, como já exposto, que governa a Faixa de Gaza, considerado terrorista pelos EEUU e União Europeia, perpetrou um ataque cruel e inimaginável contra Israel, no dia 07.10.2023, resultando em milhares de vítimas fatais e no sequestro de mais de 240 pessoas. 

Em resposta, o premiê israelense Binyamin Netanyahu, com o apoio incondicional da maior potência bélica do mundo, os EEUU, e paises da Europa, declarou guerra, iniciando uma grande investida em Gaza para erradicar o Hamas.   

Hoje, 07.11.2023, a guerra contabiliza: 10.569 mortos na Faixa de Gaza e 1.430 no território israelense. O total de crianças mortas é quase 5 mil.

O historiador Pappé, diante da escalada da guerra de Israel em Gaza e sobre um documento do Ministério da Inteligência de Israel que sugere a expulsão permanente de toda a população de Gaza, mais de 2 milhões de pessoas, para o deserto do Sinai, no Egito, disse: “Esta é uma operação massiva de matança, de limpeza étnica, de despovoamento”.

Pappé disse, ainda, que a única forma de garantir a libertação dos mais de 200 reféns detidos pelo Hamas é concordar com uma troca das pessoas sequestradas pelos milhares de presos políticos palestinos detidos por Israel, incluindo muitas mulheres, crianças e idosos.

Há  um impasse de difícil solução. 

Os palestinos irão resistir?

Eis a questão. 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 7 de novembro de 2023


Abaixo, o link para o texto, RESISTÊNCIA IMPONDERÁVEL,  de 2003


https://anamargarida-memorias.blogspot.com/2011/12/resistencia-imponderavel.html



4 comentários:

  1. Li agora o "Resistência Imponderável II". Muito elucidativo. Uma região onde os conflitos são secularmente constantes. Ali prevalece a barbárie nas buscas de soluções. O mais incrível é assistirmos à dispersão e à escolha pelo retorno desses povos. Vamos acompanhar e ver o que vai acontecer.
    O RI primeiro, lerei assim que possível.
    Parabéns!!

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  2. Comentários do ZAP
    Excelente o texto da médica e historiadora Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg, que demonstra com rara objetividade, toda a sequência histórica, sociologia, politica e militar do movimento sionista que desenbocou na criação do Estado de Israel e a posterior política belicista deste para a tomada dos territórios da palestina e a consequente expulsão dos povos árabe e palestino ali habitantes. Parabéns à querida amiga pelo belo e oportuno artigo. 👍👍
    Inocêncio Uchôa

    Ana Margarida, obrigada por me enviar esses dois artigos. Riquíssimos em informações, precisos nas análises e com muita sensibilidade nos comentários. É maravilhoso poder desfrutar do seu conhecimento e da sua lucidez.
    Angelita Castro

    Oi Aninha !
    Seu texto tá MARAVILHOSO!
    Bem fundamentado , Didático , completo . .
    Já li 2 vezes . Vou divulgar .
    Parabéns! Bj
    Ângela Uchôa

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  3. Comentário do ZAP
    Acabei de ler. Dessa vez, aqui no Jordão. Atenção e estado de espirito dispostos. Gostei muitissimo pois situei-me melhor entre os lados belicosos. Minha percepção é de algo que só terá fim com lutas extremas geradas e exterminadoras do tipo mundial. Os grandes detentores dos poderes no mundo, parecem-me por enquanto em fase de ideaçoes e possiveis ataques mundiais.
    Um horror.
    Muito obrigada!!! Parabéns por texto muitissimo intelegivel. É a primeira vez que compreendo mais sobre esse conflito.
    Bssss
    Bonjour.

    Márcia Alcântara

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