sexta-feira, 23 de agosto de 2024

SAUDAÇÃO A MARIO RIGATTO


Dr. Mario Rigatto

SAUDAÇÃO A MARIO RIGATTO

Por: ana margarida furtado arruda rosemberg 

Em maio último, por ocasião de um seminário sobre tabagismo em Porto Alegre, tive a felicidade de dedicar algumas palavras ao nosso querido Dr. Mario Rigatto.

Hoje, a felicidade é maior, pois vou fazê-lo em nossa terra, em nosso Ceará sofrido, que teve o privilégio de ter sua colaboração durante três décadas.

Não vou falar do Mario Rigatto discípulo brilhante do curso de medicina de Porto Alegre e de pós-graduação que concluiu no Canadá e na Inglaterra;

do renomado médico pneumologista e livre docente de Medicina Interna da UFRS; 

do chefe do Serviço de Pneumologia do Hospital das Clínicas de Porto Alegre; 

do pesquisador original e criativo do Conselho Nacional de Pesquisa; 

do Presidente da Sociedade de Cardiologia do Rio Grande do Sul; 

do fundador e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia; 

do Presidente do Departamento de Fisiologia Cardiovascular e Respiratória da Sociedade Brasileira de Cardiologia; 

do organizador do primeiro curso de pós-graduação em área médica do Brasil, 

do membro atuante, por muitos anos, da Associação Brasileira de Escolas Médicas;

do vice-reitor da UFRS;

do membro das academias Sul-Rio-Grandense e Nacional de Medicina e de inúmeras sociedades médicas no exterior; 

do cientista com suas pesquisas, trabalhos e livros publicados;

do remador premiado.

Não, eu não vou falar desse Mario Rigatto, pois muitos já o fizeram.

O que hoje me proponho a homenagear é o conferencista sedutor, mestre da palavra que convencia, deleitava e persuadia qualquer auditório e que atravessou a vida vestido de gala, pronto para a festa, encantando a todos com sua alegria contagiante.

O Mario Rigatto que ouso homenagear é o artífice, pioneiro, ao lado do Prof. Rosembeg da luta antitabágica no Brasil e que teve o mérito de ser membro, como o Prof. Rosemberg do primeiro Grupo Assessor para o Controle do Tabagismo, do Ministério da Saúde.

É aquele que em reunião histórica internacional, realizada em São Paulo, propôs a criação do Comité Latino-Americano Coordenador do Controle do Tabagismo, tornando-se seu primeiro presidente.

Conheci o Dr. Mario Rigatto nos idos de 1973, quando eu era estudante de medicina, pois a convite da UFC ele esteve em várias ocasiões ministrando cursos e palestras aos estudantes e professores daquela época.

A minha turma teve o prazer e o deleite de ouvi-lo durante três anos e tão impressionada ficou que o convidou para ministrar a Aula da Saudade, criada por nós, em 1974, e que até hoje faz parte das comemorações de todos os formandos em nosso Estado.

O Dr. Mario Rigatto, já naquela época, fazia campanha contra o tabagismo e isso foi decisivo para que eu enveredasse na luta que abracei com garra e amor.

Das aulas ministradas no início da década de 70, guardo com muito carinho e de cor, alguns trechos. Em certa ocasião, por encerramento de uma delas, ele falou:

“De volta agora ao meu Rincão longínquo, vou por à prova o velho adágio popular que diz: Como o vento é para o fogo é a distância para o amor, se é pequeno apaga-o logo e se é grande torna-o maior”.

E o amor de Mario Rigato tornou-se cada vez maior. Não só pelo Ceará que adotou como seu segundo estado, mas, também, e principalmente, pela Dra. Helena Pitombeira, essa mulher encantadora que teve a ventura de tornar-se sua esposa.

Em outra ocasião falou: “Dizem que a sede do amor está no coração. Mas, o que pode o amor fazer com o coração? A sede do Amor está nos pulmões, pois é com os pulmões que a gente respira, é com os pulmões que a gente suspira e com os pulmões a gente emite todos os sussurros, todos os gemidos e todos os Ais de Amor”.

Falando da intimidade entre o alvéolo e o capilar, comparou como um namoro à antiga, bastante íntimo pra prosseguir e bastante recatado para que se antecipassem as consequências.

Como disse Affonso Berardinelli Tarantino, em pronunciamento feito por ocasião da entrega do prêmio Excelência em Pneumologia, ao Dr. Mario Rigatto, em agosto de 1999, no Rio de Janeiro: 

“certamente o genoma de Rigatto estava impregnado de um saber e de uma sabedoria provindos de seus ancestrais da bela Toscana. Quem sabe se essa capacidade ímpar de encantar do mais simples ao mais seleto auditório, mantendo-os hipnotizados como num transe de prazer intelectual, não resulte da clonagem de algum nobre daquela região, considerado como o cérebro da península?”.

Empregando agora as palavras pronunciadas pelo Prof. Rosemberg, 

“Rigatto amava a vida no que ela proporciona na ciência, na literatura, na arte, no amor ao próximo, na ternura do afeto de quem se ama, nas múltiplas manifestações humanas, na exuberância da natureza. Orador nato, postura elegante, terno de alvura gritante e sua indefectível gravata borboleta, simbolizando a agilidade do voo de seus pensamentos e conceitos, difundia seu saber na atmosfera dos anfiteatros, eletrizando a assistência.

Das aulas da saudade e de suas inúmeras conferências, estão impregnadas na comunidade médica cearense as lembranças profundas do professor, do poeta, do humanista.

Devemos agora cultivar sua memória, mantê-lo em nossos corações e imitar seu invulgar comportamento, sua rica vida profícua e produtiva servindo de paradigma não só para nós, seus amigos, como para as gerações futuras de médicos. Assim, Mario Rigatto não morrerá nunca. Estará sempre presente. Sempre!”.

Ana Margarida

Fortaleza, 30 de junho de 2001

Reunião da Sociedade Cearense de Pneumologia  e Tisiologia (SCPT)

Hotel Olimpo - Fortaleza-CE






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