sábado, 6 de junho de 2026

58. Arte & Medicina - Marat assassiné (A Morte de Marat) — 1794

 58. Marat assassiné (A Morte de Marat) — 1794


Ficha Técnica

Artista: Jacques-Louis David (1748–1825)

Título original: Marat assassiné

Título em português: A morte de Marat

Data: 1794

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 162,5 × 130 cm

Movimento/Estilo: Neoclassicismo

Localização atual: Museu do Louvre, Paris, França

Crédito da imagem: Fotografia da autora, acervo pessoal

A ESTÉTICA DO SACRIFÍCIO: Marat entre a história e a pintura


“Para ser útil à pátria, é preciso ousar tudo.”

Jean-Paul Marat

A tela, Marat assassine, mostra o corpo de Marat agonizante em sua banheira, destacando-se contra um fundo marrom-esverdeado. A cabeça, inclinada para o lado, está envolta em um turbante branco. Sua mão direita, pendendo para baixo, segura uma pena. O braço esquerdo repousa sobre uma prancha coberta com um pano verde, e a mão segura uma folha manuscrita com o texto:

«Du 13 juillet 1793. Marie Anne Charlotte Corday au citoyen Marat. Il suffit que je sois bien malheureuse pour avoir droit à votre bienveillance.»

(13 de julho de 1793. Marie Anne Charlotte Corday ao cidadão Marat. Basta que eu seja muito infeliz para ter direito à sua benevolência.)

O corpo está coberto por um lençol branco manchado de sangue. No chão, encontra-se uma faca de cabo branco, também manchada de sangue, de tamanho semelhante ao da pena. À direita, há um bloco de madeira com um tinteiro, uma pena e outra folha manuscrita com o texto:

«Vous donnerez cet assignat à cette mère de cinq enfants, dont le mari est mort pour la défense de la patrie.»

(Você dará este assignat a esta mãe de cinco filhos, cujo marido morreu pela defesa da pátria.)

Na parte inferior do bloco, a obra está assinada:

«À Marat, David. — L’an deux.» (À Marat, David. — Ano II.)

O “Ano II” refere-se ao novo calendário revolucionário instituído durante a Revolução Francesa.

Existem quatro cópias desta obra em museus: o Louvre (Paris), o Museu de Belas Artes de Dijon, o Museu de Belas Artes de Reims e o Palácio de Versalhes. Para David, essa pintura idealizada, que guarda semelhança com a imagem de Cristo morto na Pietà de Michelangelo e no Sepultamento de Cristo de Caravaggio, foi concebida como um monumento ao amigo Marat, apresentado como herói e mártir da Revolução.

Em 13 de julho de 1793, o revolucionário Jean-Paul Marat (1743–1793) foi assassinado. A pedido da Convenção, David pintou uma de suas telas mais famosas e emblemáticas, retratando Marat agonizando na banheira. Ele também cuidou do funeral, precedido de um cortejo fúnebre no dia 16 de julho, na igreja dos Cordeliers.

Marat, apelidado de “amigo do povo” (l’ami du peuple), médico, filósofo, cientista e revolucionário radical, era portador de uma doença de pele, provavelmente dermatite seborreica, que o obrigava a permanecer horas dentro de uma banheira de cobre, tomando banhos curativos de enxofre. Dessa banheira, equipada com uma espécie de escrivaninha, Marat, com a cabeça envolta em um lenço embebido em vinagre para aliviar as enxaquecas, enviava cartas à Convenção. No contexto da Revolução Francesa, ele representava os montanheses (Montagnards), grupo político contrário aos girondinos.

Charlotte Corday (1768–1793), simpatizante dos girondinos, entrou nos aposentos de Marat com o pretexto de entregar-lhe uma lista de supostos traidores da Revolução e cravou-lhe uma faca no peito, assassinando-o enquanto ele estava na banheira. Sem demonstrar arrependimento, Corday foi julgada e guilhotinada quatro dias depois.

Breve biografia de Jacques-Louis David

Jacques-Louis David, pintor francês considerado o líder do movimento neoclássico, nasceu em Paris, em 1748, e morreu em Bruxelas, em 1825, aos 77 anos. Rompeu com o estilo galante e libertino da pintura rococó do século XVIII e reivindicou a herança do classicismo de Nicolas Poussin e dos ideais estéticos gregos e romanos, após uma estada em Roma, de 1774 a 1780.

Em 1784, com sua tela O Juramento dos Horácios, tornou-se famoso. Durante a Revolução Francesa (1789–1799), engajou-se na política, tornou-se membro da Convenção, apoiou Robespierre e organizou vários festivais revolucionários.

Quando Napoleão Bonaparte (1769–1821) chegou ao poder, David tornou-se seu pintor oficial e produziu sua maior composição, Le Sacre de Napoléon Ier (A Coroação de Napoleão). Sob a Restauração, foi exilado por seu passado como revolucionário regicida e artista imperial. Refugiou-se em Bruxelas, onde continuou sua atividade artística até sua morte, em 1825.


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