Valton de Miranda Leitão
valtonmiranda@gmail.com
Psicanalista
Publicado no Jornal "O POVO" em 06/03/2016
O
clássico de Raymundo Faoro, “Os Donos do Poder”, é talvez a maior
legitimação do liberalismo brasileiro. Tal visão mostra o Estado como
sendo corrupto e vicioso, desde sua origem na Coroa Portuguesa. As
maiores virtudes estão colocadas na iniciativa privada, ao lado da
elite estamental que o bandeirantismo paulista teria consolidado.
A
compreensão liberal burguesa não é nova, e Adam Smith já a havia
colocado em 1776, tendo Max Weber ampliado sociologicamente com sua
ética da prosperidade científica e da busca do prazer individual, sem
muitas considerações afetivas.
O protestantismo ascético
foi nos EUA o ingrediente cultural que mais catalisou o pensamento
weberiano da busca de poder patrimonial e prestígio, baseados na
disciplina e na ordem que a religião emprestava ao grande empresário.
O
casamento entre religião e sociologia política, acontecido já na
fundação do Estado norte-americano, sempre esteve presente no mundo,
mesmo depois que a maioria dos países adotou constituições laicas. A
cultura brasileira sempre idealizou a pujança econômica e a ordem
política estadunidense como modelo a ser seguido sem nenhuma
consideração pela sua histórica belicosidade, domínio militar de outros
povos, terrorismo diplomático, espionagem e auxílio a todas as
ditaduras alinhadas a Washington.
O liberalismo
conservador brasileiro, fortemente vestido de roupagem religiosa, agora
avança com força e se manifesta politicamente, afirmando-se como
portador de uma ética radical que pretende extirpar a corrupção da vida
nacional!
São Paulo é o centro de irradiação desta
visão, mas também do que Jessé Souza chama de racismo culturalista, no
qual negros e nordestinos são vistos como inferiores, do mesmo modo que
os anglo-saxões consideram moral e cognitivamente incompetentes os
latino-americanos.
O uso pelos donos do poder conservador
direitista de setores da polícia, da política e do judiciário,
turbinados pela grande imprensa não é novidade no Brasil, quando o
objetivo é destruir avanços sociais das classes desprivilegiadas para
manter privilégios injustos. Nessas circunstâncias, incrementa-se o
ódio da classe média e busca-se um bode expiatório, fazendo da
corrupção o bordão, tornando bancos e mercados, paradigmas de
honestidade e quase santidade.
As campanhas virulentas
contra Vargas e JK, no passado recente, foram exatamente do mesmo tipo,
levando o primeiro ao suicídio e o segundo a uma morte não
esclarecida.
A destruição do maior líder popular que o
País já conheceu, Lula, encobre o plano mais amplo de destruir o
conjunto da esquerda, impedindo inclusive sua influência nos processos
eleitorais de 2016-18. Os doutos jurisconsultos constituíram um
verdadeiro oráculo, que não é em Delfos, mas em Curitiba, e suas
arrasadoras condenações antes do julgamento, são pronunciadas pela boca
de delatores “alcaguetes”, que se desmentem uns aos outros para que no
final o sumo sacerdote, juiz togado, pronuncie o veredicto (verdade
absoluta)!
A construção artificiosa da verdade é negação da ética.

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