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| Filhos do casal Edgy e Adelina, com primos, primas e amigos, em Baturité. |
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| Lucia, Maninha e Edna com amigas |
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| Filhos da casal Edgy e Adelina com primos e primas, em Baturité. |
Na rua 15 de Novembro, em Baturité, na
década de 1950, tinha uma casa abandonada que para
nós era mal-assombrada e nos causava grande pavor. Sempre que por lá passávamos,
metíamos o pé em desembalada carreira
com medo das almas do outro mundo. A respiração ficava ofegante e o coração
quase saia pela boca até virarmos o beco do cine, quando desacelerávamos
aliviadas. Em compensação existiam
outras casas que nos acolhiam como se nossas fossem. As opções eram muitas. Recordo-me
bem das seguintes: vovó Noemy, tio Ananias, Tiinhas, dona Noemy e seu Edmundo, Laurenice, dona Neila,
Mirian, Ângela Brito, Márcia e Mércia, Helena Elba, Roberto Lucena e muitas
outras. As portas não tinham trancas. Por isso, em todas elas brincávamos como
na casa de nossos pais.
A Lúcia, além do piano, tocava acordeon. A
Maninha imitava, mas quase nada tocava. A Edna era a dançarina que sonhava ser
um dia uma grande bailarina. E tanto ela pelejou que na ponta dos pés dançou.
O Raimundo Luiz, o mais levado, arranhou com
a agulha da radiola do meu pai, um disco raro. Foi um Deus nos acuda quando o
papai chegou. Certa vez, ele fugiu do colégio e fez muitas travessuras. Com
aqueles olhos verdes, herdados da minha mãe, seduzia qualquer um e era o
queridinho da tia Luizinha, tia Rosinha e tio Ananias.
Lembro-me que em um dia resolvemos quebrar a
rotina e fomos até a maternidade, eu a Goretti e o Raimundo Luiz, só para
bisbilhotar. Como ninguém nos barrou fomos entrando em todos os lugares. De repente,
uma visão de tirar o fôlego: uma mulher parindo. Gravei na retina, para sempre,
aquela mulher com as pernas abertas pintadas de mercúrio cromo. Uma freira
correu e fechou a porta em nossa cara. Ficamos apavorados e com muito medo. Não
sei como, mas a mamãe soube da travessura, pois quando chegamos em casa ganhamos
uns bolos nas duas mãos. Também, às vezes, brigávamos e nos agarrávamos pelos
cabelos, arranhando-nos com as unhas, mas eram brigas de irmãos que logo, logo
se resolviam.
Um dia, eu e a Goretti matamos a curiosidade
de ver uma mulher nua, olhando pela brecha da porta do banheiro, uma de nossas
empregadas tomando banho. Os seios fartos, o sexo cabeludo, a descoberta, o
pecado. Nossa consciência pesou e fomos contar ao padre. Para nós tudo era
pecado!
No quintal tinha um tanque grande, pintinhos,
galinhas e os pombinhos da Goretti. No
tanque tomávamos banhos inesquecíveis, num canto do quintal fazíamos o guisado
em panelinhas de barro. O portão de lado com uma pesada tranca dava saída para
o cine beco. Quando chovia mais forte corríamos pra tomar banho de bica. Que
banhos maravilhosos! Os barquinhos de papel descendo pelas coxias atiçavam a
nossa imaginação. Tudo era festa, alegria e fantasia!
À
noite, depois do jantar, íamos brincar na calçada. Nas noites de lua cheia contávamos as
estrelas, os carneirinhos de nuvens e espiávamos a estrela d’Alva. Depois,
começavam as brincadeiras: quem é que tem o anel? Tínhamos que adivinhar. Além
dessa, tinha a do grilo. Cadê o grilo? Está lá atrás. Porém, a melhor de todas
era a do general. Cada um de nós recebia uma denominação: generalíssimo,
general de divisão, general de brigada, coronel, tenente coronel, major,
capitão, tenente, sargento, cabo e rapadura melada.
Generalíssimo passou em revista
as suas tropas e sentiu falta do capitão.
-O capitão não falta, quem falta é o coronel.
-O coronel não falta, quem falta é o major.
-O major não falta, quem falta é o general de brigada.
-O general de brigada não falta, quem falta é o tenente coronel.
E assim a noite passava até a hora de deitar.
Tudo era fantasia na nossa infância. Um tempo feliz que permanecerá
para sempre, indelével, em minha memória.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2002.
PS: Os dizeres da brincadeira do generalíssimo foram alterados porque a Lúcia e a Edna lembraram-se das expressões usadas na época.
PS: Os dizeres da brincadeira do generalíssimo foram alterados porque a Lúcia e a Edna lembraram-se das expressões usadas na época.



Parabéns, Ana! Mais um texto lindo e emocionante. Adorei!
ResponderExcluirFoi a nossa infância, Edna. Um tempo em
ResponderExcluirque não havia violência e que podíamos brincar na rua sem medo de nada. Quanta saudade!
DO FACEBOOK
ResponderExcluirLuiz Arruda:
FANTÁSTICO ANA. PARABÉNS. ME EMOCIONOU DEMAIS
DO FACEBOOK
ResponderExcluirGoretti Arruda Bezerra:
Que bom registrar esse tempo impar, para essas maravilhosas lembranças não se perderem para sempre.Parabéns!!!
DO E-MAIL
ResponderExcluirCara Ana Margarida,
Bom dia!
O seu primoroso texto sobre as travessuras infantis nos remonta ao tempo em que éramos felizes e não sabíamos.
Parabéns. Essa série de memórias, combinada com o vasto acervo fotográfico familiar, são um bom ponto de partida para o seu primeiro livro.
Abraços,
Marcelo Gurgel
EMOCIONANTE....PARTICIPEI MUITO DOS GUISADOS....FEITOS EM PANELINHAS BARRO....COMIDINHA BOA TEMPERADA COM EMOÇÃO,SONHOS E ALEGRIAS....
ResponderExcluirPARABÉNS, MAIS UMA VEZ,PELO BELÍSSIMO TEXTO.
Obrigada, Núbia. Sei que você fez parte de nossa infância e foi uma prima muito querida. Ainda é...
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