terça-feira, 26 de julho de 2022

A IGREJA DE SAINT-MÉDART EM PARIS

 Publicado no Jornal do Médico

https://jornaldomedico.com.br/2022/07/a-igreja-de-saint-medard-em-paris/


A Igreja de Saint-Médard (Église de Saint-Médard), localizada no número 141 da rue Mouffetard, na margem esquerda do Sena, é a igreja paroquial dos fiéis de parte do 5º arrondissement.

No século IX, após as invasões normandas, uma capela dedicada a São Médard (Saint-Médard) foi construída ao longo de uma estrada romana que ia de Lutèce a Lyon.

A atual igreja foi construída a partir de meados do século XV ao século XVIII.

Em 27.12.1561, houve o primeiro tumulto da história de Saint-Médard: o clero da igreja tocou seus sinos velozmente e perturbou o culto de huguenotes, que estava sendo realizado em um prédio próximo.  Como consequência, houve uma batalha campal na igreja; o segundo tumulto foi na década de 1720, no cemitério da igreja, hoje uma praça ao lado da mesma. Os convulsionários revigoraram a querela jansenista e apavoraram o clero e o poder régio.

Até a Revolução Francesa, o bairro da Igreja de Saint-Médard tinha o nome de Faubourg Saint-Marceau.  Várias igrejas neste bairro desapareceram completamente durante a turbulência revolucionária e com as transformações de Paris sob o Segundo Império.

Durante a Revolução, o clero da igreja prestou juramento à “Constituição Civil do Clero”. Em novembro de 1793, o culto foi abolido e a igreja fechada sendo devolvida ao clero em 1795.

No século XIX, participaram da vida da paróquia, entre outros, a Irmã Rosalie Rendu (1786-1856), chefe da casa das Filhas da Caridade São Vicente de Paulo, na rue de l'Épée-de-Bois. A Irmã Rosalie, beatificada pelo Papa João Paulo II em 2003, foi reconhecida pela sua devoção aos doentes, aos pobres e aos revolucionários de julho de 1830 e fevereiro de 1848.

Monumento histórico em 1906, a Igreja de Saint-Médard tem alguns vestígios de vitrais renascentistas, incluindo um belo telhado de vidro axial. Há também uma boa quantidade de obras de arte, incluindo pinturas do século XVI ao XIX. A complexa abóbada do seu ambulatório fará as delícias de quem aprecia a arquitetura religiosa.

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Paris, 21 de julho de 2022

 

 

domingo, 17 de julho de 2022

A LIVRARIA PARISIENSE SHAKESPEARE AND COMPANY

 


Publicado no Jornal do Médico

https://jornaldomedico.com.br/2022/07/a-livraria-parisiense-shakespeare-and-company/

A livraria “Shakespeare and Company” está localizada no 37, rue de la Bûcherie, no 5º arrondissement de Paris, pertinho da Catedral de Notre-Dame.

Especializada em literatura inglesa, funciona também como biblioteca e serve de refúgio para viajantes (“tumbleweeds”), que são acomodados em troca de algumas horas de trabalho diário.

O nome “Shakespeare and Company” foi o de uma livraria anterior, fundada e dirigida pela americana Sylvia Beach e que funcionou em dois endereços diferentes: no 8, rue Dupuytren (de 1919 a 1921); no 12, rue de l'Odéon (de maio de 1921 a 1941).

Durante o período entre guerras, a livraria era o centro da cultura anglo-americana, em Paris. Foi visitada por autores pertencentes à "Geração Perdida", como Ernest Hemingway, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein e James Joyce.

Hemingway cita a livraria em seu livro autobiográfico “Paris é uma festa”, publicado em 1965, que nos faz mergulhar na vida do escritor na década de 1920, quando ele morou em Paris.

O livro “Ulysses” de James Joyce foi publicado integralmente, em 1922,  pela livraria “Sheakespeare and Company”,  com estrondoso sucesso. “Ulysses” foi lançado pela primeira vez como um seriado na revista americana “The Little Review”, entre março de 1918 e dezembro de 1920, antes de ser publicado em Paris pela referida livraria. Logo que foi publicado nos Estados Unidos, “Ulysses” suscitou polêmica, principalmente com a denúncia apresentada pela “New York Society for the Suppression of Vice”, considerando o livro obsceno. Por esta razão, o livro ficou proibido nos Estados Unidos até 1934.

A primeira “Shakespeare and Company” foi fechada em dezembro de 1941, devido à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1951, outra livraria de língua inglesa foi aberta, em Paris, pelo americano George Whitman, sob o nome de “Le Mistral”, no 37, rue de la Bûcherie. A loja rapidamente se tornou um centro de cultura literária. Em 1964, o nome desta segunda livraria foi alterado para “Shakespeare and Company”, no 400º aniversário do nascimento de William Shakespeare e em homenagem à livraria Sylvia Beach, que ele admirava.

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Paris, 15 de julho de 2022

terça-feira, 12 de julho de 2022

Vincent Van Gogh no Museu d’Orsay – Paris

Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/2022/07/vincent-van-gogh-no-museu-dorsay-paris/ 

No Museu d’Orsay, em Paris, Vincent Van Gogh (1853-1890) se moveu do térreo para uma sala do 5º andar, quase o sótão da antiga estação, com as seguintes telas:  dois autorretratos; o quarto em Arles; dois buquês de flores de diferentes épocas que combinam perfeitamente; o retrato do dr. Gachet, um médico psiquiatra que cuidou de Van Gogh na fase mais aguda da sua doença e, também, a mais criativa; o jardim do dr. Gachet, a estonteante “Noite Estrelada”, que atrai os visitantes do museu e inspira emoções e canções; a “Igreja de Auvers-sur-Oise”, cidadezinha onde Van Gogh viveu seu último ano de vida.  A visita é uma imperdível viagem na arte desse gênio da pintura.  

La Nuit étoilée (Noite Estrelada), também conhecida como “Noite Estrelada sobre o rio Ródono”, um óleo sobre tela, de 73,0 x 92,0 cm, pintada em 1888, é estonteante. Quando Van Gogh chegou a Arles, em fevereiro de 1888, ele já pensava em representar na tela os efeitos noturnos. Em abril de 1888, escreveu a seu irmão Theo: "Preciso de uma noite estrelada com ciprestes ou, talvez, sobre um campo de trigo maduro".

Em junho, ele confidenciou ao pintor Emile Bernard: "Mas quando farei o Céu Estrelado, esta pintura que sempre me preocupa" e, em setembro, em carta à irmã, evoca o mesmo assunto: "Muitas vezes me parece que a noite é ainda mais ricamente colorida do que o dia". Neste mesmo mês de setembro, ele finalmente realiza seu projeto assombroso.

Van Gogh pintou pela primeira vez um canto do céu noturno, quando estava em Arles, em: “O Terraço de um Café na Place du Forum”. Depois, ele pintou a “Noite Estrelada sobre o rio Ródano” com as cores magníficas que ele percebeu no escuro. Há o predomínio dos tons azuis; os tons laranjas vemos nas luzes de gás da cidade refletidas na água e nas estrelas brilhando como pedras preciosas.

Poucos meses depois, quando acabava de ser internado, Van Gogh pintou outra versão do mesmo tema: o Starry Sky (Nova York, MoMA), no qual se expressa toda a violência de sua mente perturbada, com as árvores em forma de chamas e estrelas girando, dando uma visão cósmica.

Na tela, La Nuit étoilée, do Museu d’Orsay, a presença de um casal apaixonado evidencia uma atmosfera de paz, bem diferente da tela pintada quando esteve hospitalizado em Saint-Rémy. Em uma carta para o irmão Théo, Van Gogh descreveu a tela “Noite Estrelada sobre o rio Ródano”:

“Incluí um pequeno esboço de uma tela quadrada de 30, o céu estrelado finalmente é pintado à noite, mesmo sob um lampião de gaz. O céu é azul verde, a água é azul real e o chão é malva. A cidade é azul e violeta e a luz do lampião é amarela com reflexos dourados, descendo até o bronze esverdeado. Sobre o campo azul esverdeado do céu a ursa maior tem uma cintilação verde rosa, cuja palidez discreta contrasta com o dourado do brutal lampião. Duas figuras de namorados estão no primeiro plano... eu não ficaria surpreso se você gostasse da Noite Estrelada, é mais calma do que outras telas... se o trabalho andasse sempre assim eu teria menos inquietações com dinheiro, pois as pessoas veriam mais facilmente que a técnica continua a ser cada vez mais harmoniosa. Mas este maldito mistral é bem incômodo para eu dar pinceladas que se portem bem e se entrelacem com sentimento... me faz bem fazer qualquer coisa difícil, mas isso não muda de forma alguma a minha imensa necessidade de religião, então saio para o ar livre da noite e pinto as estrelas, sonhando sempre com a imagem de um grupo de figuras simpáticas e animadas.”

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Paris, 7 de julho de 2022


segunda-feira, 4 de julho de 2022

O JARDIM DE LUXEMBURGO - PARIS

Publicado no Jornal do Médico

 https://jornaldomedico.com.br/2022/07/o-jardim-de-luxemburgo-paris/

foto:  ana margarida furtado arruda rosemberg  - junho de 2022

O Jardim de Luxemburgo, um jardim parisiense localizado no 6º arrondissement, na margem esquerda do rio Sena, foi criado, em 1612, por Marie de Médicis (1575-1642), viúva de Henrique IV (1563-1610).

O jardim foi criado para o palácio, “Palais Médicis”, cujo nome não vingou e deu lugar ao nome atual, “Palais du Luxembourg” e “Jardin du Luxembourg”, herdados do nome, François de Piney-Luxembourg, dono da antiga mansão particular que lá havia.

Abrangendo uma área de 25 hectares, o jardim é dividido em uma parte de estilo francês e uma parte de estilo inglês. Entre os dois estende-se uma floresta geométrica e um grande lago. Há também um pomar, um apiário para aprender sobre apicultura, estufas com uma coleção de orquídeas de tirar o fôlego e um jardim de rosas. O jardim tem 106 estátuas espalhadas pelo parque, a monumental “Fontaine Médicis”, “l’Orangerie” e “Le Pavillon Davioud”. Há muitas atividades para as crianças, como: fantoches, carrosséis, escorregas etc.

Parisienses ou turistas jogam xadrez, tênis, bridge ou o barco com controle remoto. A programação cultural é marcada por exposições gratuitas de fotografias nos portões do jardim e por concertos no coreto.

A história do Jardim e do Palácio começa no início do século XVII. O bairro que se estendia no sopé da montanha de “Sainte-Geneviève” era pouco povoado e composto principalmente por seminários, conventos, colégios e mansões, incluindo a do Duque de Piney-Luxembourg.

Quando Marie de Médicis decidiu deixar o Palácio do Louvre, ela pensou nesta propriedade onde o jovem Luís XIII, seu filho, aprendeu a caçar.  Os oito hectares de terra que cercavam a residência permitiriam que ela construísse um vasto jardim florentino com o qual sonhava.

O palácio, inspirado no Palácio Pitti, em Florença, foi decorado por artistas italianos, franceses e flamengos. Em 1622, Pierre Paul Rubens (1577-1640) foi contratado pela Marie de Médicis para pintar vinte e quatro gravuras, retratando os principais episódios de sua vida. Apenas treze foram feitas e, atualmente, estão no Museu do Louvre-Paris, no segundo piso da Ala Richelieu.

Durante a Revolução Francesa, o jardim foi abandonado e o palácio foi transformado em prisão. Danton, Desmoulins, Fabre d'Églantine, David, entre oitocentos outros, lá estiveram detidos. Hoje, o antigo palácio é sede do senado da França. O Jardim de Luxemburgo, um verdadeiro oásis no centro de Paris, já foi frequentado por Sartre, Simone de Beauvoir, Ernest Hemingway, entre outros escritores e filósofos franceses.

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Paris, 29 de junho de 2022


terça-feira, 28 de junho de 2022

LA BELLE FERRONNIÈRE - LEONARDO DA VINCI

 Publicado no Jornal do Médico

https://jornaldomedico.com.br/2022/06/la-belle-ferronniere-de-leonardo-da-vinci/


                              Foto: ana margarida furtado arruda rosemberg

La Belle Ferronnière, uma tela de Leonardo da Vinci, de 62 × 44 cm, pintada entre 1495 e 1497, em um painel de madeira, exibida no Museu do Louvre-Paris, é uma das obras primas desse gênio da arte.

A pintura mostra o busto de uma bela mulher, com a cabeça voltada para o espectador e o olhar desviado. Ela usa uma “scuffia”, um gorro na parte de trás da cabeça, um “ferronnière”, uma faixa cingindo a testa, adornada com um camafeu ou uma pedra preciosa (um adorno da moda na Lombardia).

Sua identidade é polêmica. É certo que a pintura data do primeiro período milanês de Leonardo da Vinci. A modelo, pela riqueza dos ornamentos, deve ser da corte de Ludovic Sforza.  Béghin propõe que seja Béatrice d'Este (1475-1497), a esposa de Ludovic Sforza, por causa da semelhança entre La Belle Ferronnière e o busto de Béatrice d'Este, de Cristoforo Romano.

Karl Morgenstern (1813) e outros críticos acharam algumas semelhanças com o desenho número 209 da Galeria Uffizi, executado em lápis e aquarela, um retrato de Beatrice d'Este, atribuído a Leonardo da Vinci.

A hipótese mais difundida é a de Lucrezia Crivelli, que se tornou amante de Ludovico Sforza a partir de 1495, quando deu à luz a um filho dele.

A pintura levantou muitas questões. Alguns especialistas preferiram ver o trabalho de Giovanni Antonio Boltraffio ou Francesco Melzi, em vez de Leonardo.

Hoje, podemos dizer com certeza que a pintura vem da oficina de Leonardo da Vinci. As análises mostraram que a “Dame à l'Hermine” e a “Belle Ferronnière” vêm do mesmo tronco de árvore. Além disso, o exame de raios-X mostrou grandes analogias com a Mona Lisa, apesar de inúmeras repinturas (o cocar originalmente não cobria as orelhas, a mandíbula direita foi retocada).

O Museu do Louvre a descreve assim:

Léonard de VINCI

Vinci (près de Florence), 1457, Amboise (France), 1519

Portrait d’une dame de la cour de Milan, dit à tort La Belle Ferronnière

L’identification traditionnelle du modele à Lucrezia Crivelle, maîtresse de Ludovico Sforza, duc de Milan, n’est pas avérée. Certains Y reconnaissent Béatrice d’Este, l’épouse de Ludovico, ou Isabelle d’Aragon. L’appellation de “Belle Ferrorièrre” vien d’une confusion avec um autre Portrait.

Traduzindo

Leonardo De Vinci

Vinci (perto de Florença), 1457, Amboise (França), 1519

Retrato de uma senhora da corte de Milão, erroneamente chamada La Belle Ferronnière

A tradicional identificação da modelo com Lucrezia Crivelle, amante de Ludovico Sforza, duque de Milão, não está comprovada. Alguns reconhecem Béatrice d'Este, a esposa de Ludovico, ou Isabel de Aragão. O nome de “Belle Ferrorièrre” vem de uma confusão com outro Retrato.


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Paris, 21 de junho de 2022


quinta-feira, 23 de junho de 2022

Por: Adélia Prado - O QUE A MEMÓRIA AMA, FICA ETERNO

                     Foto: Internet                           Adélia Prado

“O que a memória ama, fica eterno”.

Quando eu era pequena, não entendia o choro solto da minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro. O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender. O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando momentos. Crianças têm o tempo a seu favor e a memória ainda é muito recente. Para elas, um filme é só um filme; uma melodia, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente parte. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são crianças, nossos amigos estão perto, nossos pais ainda vivem.

Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

A capacidade de se emocionar vem daí: quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira. Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi o fundo musical de um amor, ou a trilha sonora de uma fossa – e mesmo que tenham se passado anos, sua memória afetiva não obedece a calendários, não caminha com as estações; alguma parte de você volta no tempo e lembra aquela pessoa, aquele momento, àquela época…

Amigos verdadeiros têm a capacidade de se eternizar dentro da gente. É comum ver amigos da juventude se reencontrando depois de anos – já adultos ou até idosos – e voltando a se comportar como adolescentes bobos e imaturos. Encontros de turma são especiais por isso, resgatam as pessoas que fomos, garotos cheios de alegria, engraçadinhos, capazes de atitudes infantis e debilóides, como éramos há 20 ou 30 anos. Descobrimos que o tempo não passa para a memória. Ela eterniza amigos, brincadeiras, apelidos… mesmo que por fora restem cabelos brancos, artroses e rugas.

A memória não permite que sejamos adultos perto de nossos pais. Nem eles percebem que crescemos. Seremos sempre “as crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Prá eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das estórias contadas ao cair da noite… ainda são muito recentes, pois a memória amou, e aquilo se eternizou.

Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é simples assim. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na dor. Mas aquilo que amamos tem vocação para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando. Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que amamos pode ser facilmente reativado por novos gatilhos: somos traídos pelo enredo de um filme, uma música antiga, um lugar especial.

Do mesmo modo, somos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex-amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve, daqui seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.

A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO DE 1789

                    Foto: ana margarida rosemberg
Publicado no Jornal do Médico. 

        No Museu Carnavalet de Paris podemos apreciar uma pintura (óleo sobre madeira), de 1789, atribuída a Jean-Jacques-François Le Barbier (1738-1826). Trata-se de uma composição alegórica da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” elaborada durante a Revolução Francesa de 1789. Ao lado da mesma, vemos um painel com a explicação da alegoria, a saber:  

1.     Figura alada representando a Nação (ou a Liberdade), segurando na mão direta o cetro da soberania e apontando o dedo indicador para a declaração.

2.     O “Olho da Providência”, no alto da composição, colocado dentro de um triângulo equilátero, representando a igualdade das três ordens. Os raios fazem referência a sabedoria dos iluministas.

3.     A forma evoca as “Tábuas da Lei” de Moisés no Monte Sinai com os 10 mandamentos de Deus.

4.     A serpente mordendo o rabo representa a eternidade.

5.     O “Boné Frígio” é uma referência aos escravos da antiguidade e simboliza a liberdade.

6.     A coroa de louros representa o poder e a glória da declaração.

7.     O pique significa a força da lei; emprestados da antiguidade romana, o “fasces lictoris” simboliza a união e força dos cidadãos franceses.

8.     As nuvens e sombras acumuladas na parte inferior se esvaem progressivamente para dar lugar a um céu limpo na parte superior.

9.     A mulher representa a França monarquista. A coroa e as flores de lis são os símbolos da realeza. Ela quebra as correntes do despotismo.

Todas as representações cercam o preâmbulo e os dezessete artigos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Estas assumem aqui um aspecto de solenidade religiosa. Esta pintura sobre madeira pertenceu a Georges Clemenceau antes de entrar nas coleções do museu.

A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão nasceu no verão de 1789, a partir do projeto da Assembleia Constituinte, formada pela reunião dos Estados Gerais, durante a Revolução Francesa.

Em 26 de agosto de 1789, a Assembleia Nacional votou a Declaração que proclamava que os direitos do homem e do cidadão são naturais, inalienáveis ​​e sagrados. Todos os homens nascem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem ser baseadas no mérito e a segurança e a propriedade são sagradas.

O texto lança as bases para uma reforma do sistema judiciário e afirma a obrigação, para o Estado, de garantir a aplicação das leis e a defesa da coisa pública.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 15 de junho de 2022

terça-feira, 14 de junho de 2022

A ROSA DE OURO DO MUSEU CLUNY

Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/2022/06/a-rosa-de-ouro-do-museu-cluny/

A "Rosa de Ouro", uma obra de arte em ouro maciço, é ofertada pela Igreja Católica Apostólica Romana, como símbolo de reverência e estima, a personalidades, igrejas, governos e governantes que tenham demonstrado lealdade para com a Santa Sé. 

A flor dourada brilhante simboliza a majestade de Cristo, uma alusão aos profetas que diziam ser o Messias “a flor do campo e o lírio dos vales”. Seu perfume, segundo o Papa Leão XIII, mostra o odor de Cristo. Os espinhos relembram a sua paixão. 

A "Rosa de Ouro" surgiu na Idade Média, em data não precisa. Em uma Bula do Papa Leão IX, de 1049, encontra-se uma alusão à mesma. O referido Papa isentou o convento de Santa Cruz de Woffenhein, na Alsacia, com a condição da abadessa enviar todos os anos uma rosa de ouro à Santa Sé. 

A "Rosa de Ouro" mais antiga enviada que se conhece foi ofertada pelo Papa Urbano II a Fulque IV de Anjou, em 1096.

No Museu da Idade Média de Paris, Musée Cluny, podemos apreciar o exemplar mais antigo que ainda subsiste: uma rosa trabalhada com grande delicadeza: as hastes, fitas estreitas dobradas sobre si mesmas, e as flores, feitas de corolas sobrepostas, são cortadas em finas folhas de ouro.

 Ela foi encomendada pelo Papa João XXII a Minucchio de Sena, na cidade de Avignon, durante o período em que a referida cidade foi sede do papado (1309 a 1411), a mesma foi ofertada a Rodolfo III de Nidau, em 1330. 

A maior parte das "Rosas de Ouro" antigas foram fundidas com fins monetários. Os poucos exemplares que subsistem podem ser vistos na Catedral de Benevento, na Basílica de São João de Latão, no Museu Sacro da Biblioteca do Vaticano, no Palácio da Comuna de Sena e no Palácio Imperial de Hofburg, em Viena. Porém, como já citei, o exemplar mais antigo está no Museu Cluny, em Paris.

O Brasil abriga quatro "Rosas de Ouro". A primeira foi ofertada pelo Papa Leão XIII à princesa Isabel pela abolição dos escravos e encontra-se no Museu de Arte Sacra do Rio de Janeiro.

A segunda foi ofertada pelo Papa Paulo VI, em 1967, por ocasião das comemorações dos 250 anos da descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida, pelos pescadores, no rio Paraibuna.

A terceira foi ofertada, em 12 de maio de 2007, pelo papa Bento XVI ao Santuário Nacional de Aparecida, durante a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe. A quarta foi ofertada pelo Papa Francisco, em 2017.

As rosas ofertadas por Paulo VI, Bento XVI e Francisco à Basílica de Aparecida podem ser apreciadas no Museu Nossa Senhora Aparecida, na Torre da Basílica. 

Paris, 10 junho de 2022

ana margarida furtado arruda rosemberg

sexta-feira, 10 de junho de 2022

O CARLINHOS PARTIU!

 



Ao Carlos Eurico, irmão poeta que partiu deixando como alento seus poemas, s
audades eternas. 

ana margarida 07.06.2022




AO MEU PAI

MIGUEL EDGY TÁVORA ARRUDA

Pai
um pássaro em voo rasante
conseguiu ultrapassar as fronteiras
as muralhas existem
as fronteiras são reais
da anunciação do outro lado do homem
os limites do seu diálogo interno
do presente do poeta guerreiro
feiticeiro e filho da paz
pai
o pássaro sou eu
sou a águia
no ápice montanhoso da imensidão do cosmos
pai
o pai és tu
o espírito inquieto de alma calada
o santo figurante no grande teatro da vida
e também grande
em tuas lágrimas
e sorrisos eternos
e lindo também
em teus brilhos de luzes coloridas
em tua bondade e força gigantes
e eu sou teu filho
o menino bonito de asa quebrada
que ao teu olhar alça voo
à liberdade
e tu és meu pai
o velho homem e moço de asas abertas
que me acolhe nos braços
à liberdade real

Carlos Eurico Furtado de Arruda       

Fortaleza-CE,17 de novembro de 2001.

 










































segunda-feira, 6 de junho de 2022

HÔTEL BARBETTE – MARAIS - PARIS

 

Publicado no Jornal do Médico, link abaoxo.
https://jornaldomedico.com.br/2022/06/hotel-harbette-marais-paris/

Por volta de 1300, Étienne Barbette (1250-1321), tesoureiro e conselheiro financeiro do rei Philippe IV le Bel (1268-1314), construiu uma casa emCourtille Barbette”, uma propriedade agrícola que ocupava um quadrilátero formado pelas atuais: rue Vieille-du-Temple, rue des Francs-Bourgeois, rue Payenne e rue du Parc-Royal, no atual 3º arrondissement de Paris.

A casa foi equipada por Étienne, no início do século XIV, para se tornar uma residência de descanso fora da cidade. Após ser ampliada e embelezada, a simples casa de campo tornou-se um verdadeiro palácio.

Em 1306, a multidão revoltada com a valorização da moeda decidida por Philippe le Bel atacou as propriedades de Etienne Barbette, considerado responsável por esta situação.

Em 16 de dezembro, os desordeiros foram ao “Hôtel Barbette”, derrubaram as árvores e a casa foi saqueada. Em retaliação, em 28 de dezembro, o rei enforcou 26 desordeiros e seus corpos foram expostos em todos os portões da cidade.

Quando Etienne Barbette morreu, em 1321, o “Hôtel Barbette” e a propriedade, La Courtille-Barbette, foram vendidos.

A casa tornou-se uma das residências principescas mais populares nos séculos XIV e XV e foi ocupada pela rainha da França, Isabel da Baviera (1370-1435), e no século seguinte por Diane de Poitiers (1500-1566).

 

Isabel da Baviera mudou-se para o “Hôtel Barbette”, adquirido, por volta de 1401, de Jean de Montagu (1363-1409), para escapar dos ataques de loucura de seu marido Carlos VI (1368-1422), que residia em seu vizinho palácio de Saint-Pol.

Transcrevo, abaixo, um trecho da famosa “Carta de Paris”, feita pelo Professor Rosemberg ao Dr. Tarantino, em 18 de junho de 1988,  que fala no Hôtel Barbette.

Este outro hotel é o Barbette, internamente todo forrado de cetim roxo e foi de Isabeau da Baviera (tem seu túmulo na Igreja de St. Denis, onde já estivemos). Essa ardente rainha lançou a moda dos bailes de máscaras, os quais logo conquistaram os foros da maior suruba da paróquia. Aqui está o H. d’Abert; é o mais discreto dos que vimos, tem, porém, bela fachada barroca; sua inquilina foi a fogosa viúva do escritor Scarron. Fez amizade com Mme. Montespan do “entourage” de Luis XIV, sendo por este recebida tornando-se governanta de seus filhos bastardos. Rapidamente virou marquesa de Maintenon pela regra geral vigente: abrir as pernas para o Rei e acordar marquesa.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 2 de junho de 2022