terça-feira, 12 de julho de 2022

Vincent Van Gogh no Museu d’Orsay – Paris

Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/2022/07/vincent-van-gogh-no-museu-dorsay-paris/ 

No Museu d’Orsay, em Paris, Vincent Van Gogh (1853-1890) se moveu do térreo para uma sala do 5º andar, quase o sótão da antiga estação, com as seguintes telas:  dois autorretratos; o quarto em Arles; dois buquês de flores de diferentes épocas que combinam perfeitamente; o retrato do dr. Gachet, um médico psiquiatra que cuidou de Van Gogh na fase mais aguda da sua doença e, também, a mais criativa; o jardim do dr. Gachet, a estonteante “Noite Estrelada”, que atrai os visitantes do museu e inspira emoções e canções; a “Igreja de Auvers-sur-Oise”, cidadezinha onde Van Gogh viveu seu último ano de vida.  A visita é uma imperdível viagem na arte desse gênio da pintura.  

La Nuit étoilée (Noite Estrelada), também conhecida como “Noite Estrelada sobre o rio Ródono”, um óleo sobre tela, de 73,0 x 92,0 cm, pintada em 1888, é estonteante. Quando Van Gogh chegou a Arles, em fevereiro de 1888, ele já pensava em representar na tela os efeitos noturnos. Em abril de 1888, escreveu a seu irmão Theo: "Preciso de uma noite estrelada com ciprestes ou, talvez, sobre um campo de trigo maduro".

Em junho, ele confidenciou ao pintor Emile Bernard: "Mas quando farei o Céu Estrelado, esta pintura que sempre me preocupa" e, em setembro, em carta à irmã, evoca o mesmo assunto: "Muitas vezes me parece que a noite é ainda mais ricamente colorida do que o dia". Neste mesmo mês de setembro, ele finalmente realiza seu projeto assombroso.

Van Gogh pintou pela primeira vez um canto do céu noturno, quando estava em Arles, em: “O Terraço de um Café na Place du Forum”. Depois, ele pintou a “Noite Estrelada sobre o rio Ródano” com as cores magníficas que ele percebeu no escuro. Há o predomínio dos tons azuis; os tons laranjas vemos nas luzes de gás da cidade refletidas na água e nas estrelas brilhando como pedras preciosas.

Poucos meses depois, quando acabava de ser internado, Van Gogh pintou outra versão do mesmo tema: o Starry Sky (Nova York, MoMA), no qual se expressa toda a violência de sua mente perturbada, com as árvores em forma de chamas e estrelas girando, dando uma visão cósmica.

Na tela, La Nuit étoilée, do Museu d’Orsay, a presença de um casal apaixonado evidencia uma atmosfera de paz, bem diferente da tela pintada quando esteve hospitalizado em Saint-Rémy. Em uma carta para o irmão Théo, Van Gogh descreveu a tela “Noite Estrelada sobre o rio Ródano”:

“Incluí um pequeno esboço de uma tela quadrada de 30, o céu estrelado finalmente é pintado à noite, mesmo sob um lampião de gaz. O céu é azul verde, a água é azul real e o chão é malva. A cidade é azul e violeta e a luz do lampião é amarela com reflexos dourados, descendo até o bronze esverdeado. Sobre o campo azul esverdeado do céu a ursa maior tem uma cintilação verde rosa, cuja palidez discreta contrasta com o dourado do brutal lampião. Duas figuras de namorados estão no primeiro plano... eu não ficaria surpreso se você gostasse da Noite Estrelada, é mais calma do que outras telas... se o trabalho andasse sempre assim eu teria menos inquietações com dinheiro, pois as pessoas veriam mais facilmente que a técnica continua a ser cada vez mais harmoniosa. Mas este maldito mistral é bem incômodo para eu dar pinceladas que se portem bem e se entrelacem com sentimento... me faz bem fazer qualquer coisa difícil, mas isso não muda de forma alguma a minha imensa necessidade de religião, então saio para o ar livre da noite e pinto as estrelas, sonhando sempre com a imagem de um grupo de figuras simpáticas e animadas.”

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 7 de julho de 2022


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