Com frequência nas mídias sociais tanto eu quanto frei
Betto somos acusados de comunistas e não são poucos que nos mandam para
Cuba. Teríamos boa companhia, com o presidente Obama e o Papa Francisco
que por lá já passou duas vezes. Chamar alguém de comunista funciona
como uma ofensa, como se ainda estivéssemos na guerra-fria de 30 anos
atrás. O preconceito tem vida longa. Bem dizia Einstein “que é mais
fácil decompor um átomo e fazer uma boma atômica do que tirar o
preconceito da cabeça de uma pessoa”. Nem por isso devemos deixar de
combater todo tipo de intolerância e facciosismo para chegarmos a
respeitar as difernças e fundar relações humanas para além das
ideológicas pessoais. Por muitos anos frei Betto trabalhou em Cuba. Eu e
ele aceitamos um trabalho sistemático sob uma condição: que pudéssemos
atuar simultaneamente nos dois polos, no religioso e no político. A nós
interessava aproximar a Igreja ao socialismo e fazer que o socialismo
se abrisse à dimensão religiosa, como algo profundamente humano. Fizemos
dezenas de viagens, perigosas pois os militares nos vigiavam
atentamente, com cursos sobre a leitura estrutural analítica da
realidade, longe da rigidez marxista-soviética, abarcando os mais altos
escalões de um lado, e do outro, tentanto mostrar que os ideais éticos
do socialismo não eram contraditórios à mensagem central do
cristianismo. Devemos dizer que, com a iluminação do
Espírito,conseguimos caminhar tão longe ao ponto de haver, pela primeria
vez, um encontro entre o episcopado cubano com os dirigentes
socialistas. Por fim se chegou a uma reconciliação, no sentido de que o
socialismo cubano já não colocava como pré-condição para trabalhar no
estado ser ateu, definindo-se como um estado laico, abrindo assim
liberdade para as as igrejas e aos religiosos e àsreligosas que
começaram a chegar a Cuba. Este foi o mérito maior, silencioso, prudente
e sábio de Frei Betto. Como ninguém entre nós, conhece a ilha. O povo o
tem em altíssima estima, especialmente, depois do livro de entrevistas
que fez com Fidel sob o título “Fidel e a religião” que conheceu mais
de um milhão de exemplares impressos. Digo tudo isso, para fazer um
reconhecimento público desse frade-irmão-companheiro que une em sua vida
duas paixões: o serviço contínuo e o amor permanente aos pobres e uma
ciumenta paixão por Deus em longas horas diárias de meditação,
geralmente noturnas. Nesse artigo faz uma análise e um prognóstico de
como será uma eventual evolução do socialismo em Cuba, agora que se deu,
por mediação do Papa Francisco, a reconciliação entre os USA e Cuba.
Preservar-se-ão os valores do socialismo, da solidariedade, da
generosidade face aos flagelados do mundo inteiro para onde enviam seus
médicos e suas medicinas e a busca sempre maior de permitir que todos
possam realizar suas potencialidades mediante uma severa educação e uma
medicina de alta qualidade? Torceremos para que o sonho maior do
socialismo de cada um dar o que puder e receber o que precisar, possa
ser uma conquista da humanização dos seres humanos na nossa passagem por
essa única Casa Comum que temos. Reproduzimos o artigo divulgado nesta
semana final de março:Lboff
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O papa Francisco, ao comemorar 78 anos, a 17 de dezembro de 2014, deu
um inestimável presente ao Continente americano: o início do fim do
bloqueio dos EUA à Cuba e o reatamento das relações diplomáticas entre
os dois países.
Este foi o tema que Francisco priorizou com Obama no encontro que
mantiveram, em Roma, em março daquele ano. Um ano antes, ao assumir o
pontificado, Francisco se inteirou da questão ao receber Diaz-Canel,
vice-presidente de Cuba.
Obama admitiu na TV que “o isolamento não funcionou.” De fato, o
bloqueio imposto à Cuba, ao arrepio de todas as leis internacionais, não
conseguiu nem mesmo fragilizar a autodeterminação cubana após a queda
do Muro de Berlim.
Fidel, que completará 90 anos em agosto deste ano, sobrevive a oito
presidentes dos EUA, dos quais enterrou quatro. E a mais de 20 diretores
da CIA.
Os EUA são lerdos para admitir que o mundo não é fruto de seus
caprichos. Por isso, demorou 16 anos para reconhecer a União Soviética;
20 para o Vietnã; e 30 para a República Popular da China. E foram
precisos 53 anos para aceitar que Cuba tem direito à autodeterminação,
como já sinalizara a Assembleia Geral da ONU.
De fato, EUA e Cuba jamais romperam o diálogo. Em Washington
funcionou, ao longo de cinco décadas, a legação cubana, assim como em
Havana o prédio da legação usamericana ergue-se majestoso no Malecón.
A notícia dessa reaproximação marca o fim definitivo da Guerra Fria
em nosso Continente. E Cuba sai no lucro, pois oferece uma
infraestrutura turística sadia, despoluída e isenta de violência a 1
milhão de canadenses que, no inverno, com três horas de voo, trocam 20
graus negativos por 30 positivos do mar do Caribe.
Com a abertura do mercado cubano a investimentos estrangeiros, os
EUA, que raciocinam em cifrões, não querem ficar atrás da União
Europeia, do Canadá, do México, do Brasil e da Colômbia, que selam
importantes parcerias com a Ilha revolucionária. “Em vez de isolar Cuba,
estamos isolando somente o nosso país, com políticas ultrapassadas”,
disseram em carta a Obama os parlamentares estadunidenses Patrick Leahy
(democrata) e Jeff Flake (republicano) ao retornarem de Havana.
Em troca de Alan Gross, agente da CIA detido em Cuba por ações
terroristas, Obama libertou três dos cinco cubanos presos nos EUA, desde
setembro de 1998, acusados de terrorismo (dois já tinham sido soltos).
Na verdade, os cinco cubanos tratavam de evitar, na Flórida,
iniciativas terroristas de grupos anticastristas. E foram usados como
bucha de canhão pelo FBI e por grupos de direita para impedir, na época,
a reaproximação entre EUA e Cuba.
O tribunal de Atlanta havia admitido, por unanimidade, que as
sentenças aplicadas a três dos cinco cubanos (Hernández, Labañino e
Guerrero, libertados por último) careciam de fundamento jurídico: não
houve transmissão de informação militar secreta, nem puseram em risco a
segurança dos EUA.
Capital simbólico
Cuba vive, atualmente, um momento histórico de grandes
transformações. Sua lógica revolucionária de desenvolvimento, centrada
nas necessidades e nos direitos da maioria da população, deixa de ser
estatizante e se abre às parcerias público-privadas. A construção do
porto de Mariel, o mais importante de todo o Caribe, descortina novas
possibilidades ao desenvolvimento cubano.
O setor de turismo, incrementado pela excelência dos serviços – como
na área médica, e o alto nível educacional da mão de obra e a proteção
ambiental -, se amplia como promissora estratégia de captação de
divisas. O governo de Cuba se empenha em equacionar o problema da
duplicidade de moedas – o peso cubano, utilizado pela população local, e
o CUC, moeda conversível, obrigatória para turistas e acessível ao
cubano em condições de pagar 24 pesos por 1 CUC. Enfim, uma série de
novas medidas é estudada e testada para alavancar o desenvolvimento do
país.
O que há de original na lógica de desenvolvimento de Cuba é
justamente seu capital simbólico fundado em valores espirituais, como o
senso de liberdade e independência, de cooperação e solidariedade, que
marca a história do país, da luta dos escravos à implantação do
socialismo. Muitos, no exterior, ignoram o quanto essa ética
revolucionaria é arraigada no povo cubano e apostam que, em breve, Cuba
será uma miniChina, politicamente socialista e economicamente
capitalista.
Ora, esse risco existiria se Cuba abandonasse o que possui de mais
precioso: seu capital simbólico. O país não tem muitos bens materiais, e
o pouco que possui tem sido repartido para assegurar a cada habitante
direito à dignidade como ser humano.
Porém, poucas nações do mundo são ricas, como Cuba, em capital
simbólico, encarnado em figuras como Felix Varela, José Martí, Ernesto
Che Guevara, Raúl e Fidel Castro.
Esse capital simbólico não resulta apenas da Revolução vitoriosa em
1959. A Revolução o potencializou. É consequência de séculos de
resistência do povo cubano aos dominadores espanhóis e estadunidenses.
Resulta desse profundo senso de independência e soberania que
caracteriza a cubaneidade e marca a gloriosa história do país.
Ora, se a Revolução Cubana tem o propósito de perdurar como “sol do
mundo moral”, na feliz expressão de Luz y Caballero, que intitula a
clássica obra de Cíntio Vitier sobre a eticidade cubana, e se o desafio é
aprimorar o socialismo, a questão ética se torna central nos processos
de educação ideológica. Cada cubano deve se perguntar por que Martí, que
viveu quase quinze anos nos EUA, não vendeu a sua alma ao imperialismo
ascendente. Por que Fidel e Raúl, filhos de latifundiário, educados nos
melhores colégios da alta burguesia cubana, não venderam suas almas ao
inimigo? Por que Che Guevara, médico formado na Argentina,
revolucionário consagrado em Cuba, ministro de Estado e presidente do
Banco Central, ousou franciscanamente abandonar todas as honras
políticas e facilidades inerentes ao exercício de suas funções no poder
para meter-se anonimamente nas selvas do Congo e da Bolívia, onde a
morte o encontrou em estado de completa penúria?
O capitalismo, com a sua poderosa maquina publicitária, quer que a
humanidade tenha como sentido o ter, e não o ser. Quer formar
consumistas e não cidadãos e cidadãs. Quer uma nação de indivíduos, e
não uma comunidade nacional de companheiros e companheiras.
O socialismo ruma na direção contrária. Nele o pessoal e o social são
faces da mesma moeda. Nele cada ser humano, independentemente de sua
saúde, ocupação, cor da pele, condição social, é dotado de ontológica
dignidade e, como tal, tem direito à felicidade.
Esta a ética a ser cultivada para que Cuba, no futuro, não venha a
ser uma nação esquizofrênica, com política socialista e economia
capitalista. O socialismo de uma nação não se mede pelos discursos de
seus governantes. Nem pela ideologia do partido no poder. O socialismo
de uma nação se mede pela amplitude democrática de seu sistema político,
efetivamente emanado do povo e, sobretudo, de sua economia, de modo que
todos, cidadãos e cidadãs, tenham iguais direitos de compartilhar os
frutos da natureza e do trabalho humano. Por isso, considero o
socialismo o nome político do amor.
Mudar os objetivos
A reaproximação de Cuba e EUA é vista com cautela pelos cubanos. Nas
visitas que fiz à ilha nos últimos 15 meses, cubanos admitiram que a
reaproximação é inevitável. Porém, “há um longo caminho a ser
percorrido”, disse-me Fidel, que continua lúcido e atento ao noticiário.
E muito interessado em tudo que se passa no Brasil.
Não basta a nova retórica de Obama. “É preciso que os EUA excluam
Cuba da lista dos países terroristas”, frisou Fidel (o que ocorreu após o
encontro de Raúl e Obama no Panamá, em abril de 2015) – “e suspendam o
bloqueio.” Na reunião da CELAC, na Costa Rica, em janeiro de 2015, Raúl
Castro acrescentou: “E devolvam a base naval de Guantánamo.”
Cuba recebe, hoje, 3 milhões de turistas por ano. (Para nossa
vergonha, o Brasil, com esse imenso potencial turístico, recebe apenas 6
milhões). A diferença com o nosso país é que Cuba tem política de
Estado de implementação turística, e promove turismos ecológicos,
científicos e culturais. Já o Brasil, além da ausência de política para o
setor, explora apenas o Carnaval, praias e mulatas…
Com a reaproximação com os EUA, prevê-se que viajarão a Cuba, a cada
ano, 3 milhões de estadunidenses. Eis o temor dos cubanos. O país, por
enquanto, não dispõe de infraestrutura adequada para absorver tantos
visitantes.
Segundo os cubanos, os canadenses são respeitosos, discretos e de
fácil entrosamento com a população local. Já os estadunidenses carregam
três acentuados defeitos: a arrogância (acham-se os donos do mundo); o
consumismo (comprar, desde carros antigos que trafegam pelas ruas de
Havana, até mulheres…); e a mania de viajar sem sair dos EUA… (o que
explica a existência, em cada ponto turístico do planeta, de McDonald’s e
redes hoteleiras ianques, como Sheraton, Intercontinental etc).
Ainda assim, os dólares são bem-vindos a uma economia deficitária,
embora haja consciência de que o reatamento significa o choque do
tsunami consumista com a austeridade revolucionária.
Tudo indica que, inicialmente, o fluxo maior de viajantes dos EUA
rumo a Cuba será motivado pelo “turismo médico”. Para o cidadão comum,
tratamentos de saúde nos EUA são caros e precários. Cuba, além de
excelência na área, reconhecida internacionalmente, possui expertise em
ortopedia. E, atualmente, desenvolve vacinas eficientes contra vários
tipos de câncer.
Agora, resta à Casa Branca passar do discurso à prática. Como me
enfatizou Fidel, “eles são nossos inimigos e, portanto, precisam mudar
não apenas os métodos, mas sobretudo os objetivos em relação a Cuba.”
Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens aos países socialistas” (Rocco), entre outros livros.