sábado, 23 de abril de 2016

A HISTÓRIA É IMPLACÁVEL COM OS TRAIDORES

Ana Margarida Rosemberg - médica e historiadora


A HISTÓRIA É IMPLACÁVEL COM OS TRAIDORES

Para a história os traidores são seres abomináveis que, após julgados, vão para a lata do lixo. Os exemplos não faltam. Um dos mais conhecidos, Judas Iscariotes, entregou Cristo aos romanos por 30 moedas.
Marcus Junius Brutus, em 44 a.C., traiu Júlio César quando se juntou a Cassius em uma conspiração para matá-lo. Foi imortalizado na célebre frase dita por Júlio César: “Até tu Brutus”. Na Divina Comédia, Dante Alighieri jogou no inferno Brutus e Cassius, evidenciando que a humanidade não perdoa os traidores. 

Shakespeare explorou o tema da traição em várias de suas peças como: Rei Lear, Hamlet e Macbeth. Porém, na peça “Otelo, o Mouro de Veneza”, escrita por volta de 1603, a traição ficou mais chocante. Iago, amigo de Otelo, o induziu a matar a própria esposa, Desdêmona, injustamente. No Brasil, Domingos Fernandes Calabar, em 1635, foi condenado por traição, por ter ajudado a Holanda a invadir o Nordeste. Em 1789, Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, foi traído por um de seus companheiros, Silvério dos Reis. A História enaltece Tiradentes e não perdoa Silvério.  
Napoleão Bonaparte foi traído por Talleyrand. Quando a França espalhava pela Europa os princípios da Revolução Francesa, Talleyrand organizou a deposição de Napoleão e a restauração da monarquia com a volta dos Bourbons.  
Poucas traições tiveram efeito tão imensurável como a que envolveu a União Soviética e a Alemanha, em 1939. O pacto Molotov-Ribbentrop estabelecia que a Alemanha nazista de Hitler e a URSS de Stálin não iriam interferir uma na outra em termos bélicos. Porém, Hitler, em 1941, atacou os russos na Operação Barbarossa. A Rússia, após tamanha traição, entrou na Segunda Grande Guerra ao lado dos aliados. O resto é História. 
 Salvador Allende, presidente do Chile, foi traído por um de seus militares mais “leais”, Augusto Pinochet. Em 1973, após ter sido nomeado por Allende para a chefia do Exército, Pinochet liderou um golpe militar que derrubou Allende e implantou uma ditadura ferrenha. Allende confiava tanto em Pinochet, que na manhã do golpe disse: “chamem Augusto ele é um dos nossos”.  
No Brasil, em 2016, Michel Temer, Vice-Presidente da República conspirou, com bandidos de seu partido e da oposição ao governo, contra a primeira presidente mulher, eleita por 54 milhões de brasileiros, Dilma Rousseff. 
Temer foi desleal, covarde e traidor. Por isso, a História joga-lo-á na lata do lixo.

Ana Margarida Arruda Rosemberg  


POR: ARRUDA BASTOS - Golpe: o filho “bastardo” que a mídia tenta negar

Dr. Arruda Bastos


Por Arruda Bastos - médico, professor universitário e ex-Secretário da Saúde do Ceará.

Publicado na página do FACE - Médicos pela democracia, em 21 de abril de 2016
https://www.facebook.com/AtitudeMedica/?fref=nf
 
Que a história é o senhor da razão não se tem a menor dúvida. É uma máxima reconhecida por todos. Com essas palavras, inicio o meu raciocínio. Em 1964, os mesmos segmentos que hoje tentam negar o Golpe em andamento no Brasil estavam juntos: a grande mídia, comandada mais uma vez pela Globo, alguns membros do STF, partidos reacionários, empresários e entidades patronais sem compromisso com a nação, o grande capital internacional, entre outros. Na época, diziam que não estava acontecendo um golpe no Brasil, mas sim uma revolução democrática. Precisamos de longos 21 anos de opressão, censura, tortura e até mortes para que se reconhecesse que o acontecido não foi uma revolução democrática, mas um golpe, patrocinado pelos segmentos citados e, na época, com o apoio da força das baionetas dos militares.

A história agora se repete e de uma forma ainda mais despudorada. Os mesmos segmentos com a grande mídia, como em 64, fazem um grande esforço para negar o golpe em andamento. O golpe é o filho bastardo que a mídia tenta negar, eles geraram o filho, foram cúmplices, parceiros e tentam dourar a pílula, renegar o filho e batizá-lo com um nome democrático.

2016 não é nem de longe 1964. A única aparência é no reacionarismo, no espírito e na postura golpistas dos mesmos segmentos, só que hoje sem os militares, que parecem ser os únicos que evoluíram no seu espírito democrático. Hoje, não precisaremos mais de 21 anos, só mesmo de alguns segundos, para que todos, até os mais desinformados, firmem uma posição. A dantesca votação da admissibilidade do impeachment na Câmara dos Deputados no último dia 17 foi determinante. Ficou claro que a presidenta Dilma não cometeu crime para sofrer o impeachment. Até mesmo alguns, não poucos, adeptos da saída da presidenta, reconhecem se tratar de um golpe parlamentar jurídico midiático com o apoio de segmentos dos mais corruptos, comandados pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o pelo conspirador vice-presidente, Michel Temer.

Agora, querem calar a voz da nossa democracia e até, pasmem, a voz da nossa presidenta na denúncia do golpe à imprensa internacional em seu discurso na ONU - Organização das Nações Unidas. Fato esse que seria cômico se não fosse trágico; seria de rir se não fosse para chorar. A que ponto chega a desfaçatez dessa gente?

Agora, mais do que nunca, devemos bradar bem alto a plenos pulmões que o que está acontecendo no Brasil é uma tentativa de golpe que, como em 64, tem como únicas finalidades retirar direitos sociais, retroceder nos avanços sociais, inverter o vetor de apoio às regiões e aos mais pobres da nossa sociedade e entregar nossas riquezas aos grandes grupos internacionais.

O nosso papel, o da mídia independente, dos blogs, das redes sociais e, principalmente, do povo nas ruas vai ser fundamental para defender o nosso Estado Democrático de Direito. Não vamos nos dispersar. Pelo contrário, devemos amplificar os nossos movimentos, uma vez que, só assim, o golpe será barrado agora no Senado.

O GOLPE VAI SER DERROTADO!
VIVA A DEMOCRACIA!
21 de abril de 2016

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A VITÓRIA DOS GOLPISTAS TEM SABOR DE LAMA






                       
                    A VITÓRIA DOS GOLPISTAS TEM SABOR DE LAMA


A vitória de ontem, para os que apoiaram o golpe, teve cheiro e sabor de esgoto. A lama que recobre a maioria dos nossos parlamentares impregnou os votos dados a favor do impedimento de Dilma Rousseff. Esta lama respingou na população que comemorou nas ruas do Brasil a admissibilidade do processo de impeachment.

Comandada por Eduardo Cunha, um bandido contumaz, reconhecido e rejeitado pelo povo brasileiro, a sessão de ontem na Câmara de Deputados manchou indelevelmente a história do Brasil.

A tão propalada compra de votos, que a golpista Rede Globo propagou aos quatro ventos, não se evidenciou. Pelo contrário, os votos contra o impedimento de Dilma Rousseff foram dados por parlamentares conscientes que colocaram os interesses do Brasil acima dos interesses individuais. Ficarão como heróis para a nossa história.

Neste doloroso processo, ganhou terreno a conscientização do povo brasileiro. Não haverá mais retrocesso. A elite intelectual e os trabalhadores deste País lutarão contra a opressão do sistema e contra o fascismo.

A aglutinação de tantos colegas no grupo: MÉDICOS PELA DEMOCRACIA” me deu a convicção de que devemos fortalecer a luta. Agora, mais do que nunca, devemos cultivar a nossa saudável e impagável convivência.

O colega Fonseca iniciou sua reflexão com o primeiro verso do poema “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias. Eu encerro a minha com o último verso do mesmo poema.


As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar”.


Viva Dilma, Viva Lula, Viva a Democracia e Viva o Povo Brasileiro! 

Ana Margarida Arruda Rosemberg
Fortaleza, 18 de abril de 2016

NOTA DOS MÉDICOS PELA DEMOCRACIA

             Perdemos uma batalha, mas a luta continua.

Não chores, meu filho; 
Não chores, que a vida 
É luta renhida:Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

 
Gonçalves Dias

Os golpistas acertaram um golpe baixo na democracia, mas estão longe de ganhar a guerra. Mais do que nunca o povo deve se erguer, em uníssono, para defender a Constituição, que só prevê impeachment em caso de crime de responsabilidade e a Presidenta Dilma não cometeu nenhum crime. A democracia está em perigo. Devemos acusar o golpe, mas curar rapidamente nossas feridas da alma, levantar a poeira, unir nossas mentes e corações num grito de liberdade contra os golpistas, os lesa-pátria, os traidores do povo. Não vamos aceitar que um notório corrupto, o Eduardo Cunha, e um traidor contumaz, Michel Temer, com o apoio da Rede Globo, que apoiou a Ditadura Militar, manchem mais uma vez a história de nosso país. Não podemos aceitar que, mancomunados com grandes empresários e banqueiros, nacionais e internacionais, privatizem a Petrobras, se apossem do Pré-sal, façam terra arrasada dos programas de inclusão social e destruam os direitos trabalhistas. Perdemos uma batalha, mas a luta continua e nossa nova tricheira é barrar o Golpe no Senado Federal. Temos, a nosso favor, um exército de valorosos combatentes:
os jornalistas e comunicadores que, com o dom da palavra, criaram uma mídia alternativa e enfrentaram galhardamente o poder avassalador do Partido da Imprensa Golpista-PIG;
os povos do campo, da floresta e dos mares, o MST, a Via Campesina, os agricultores e pequenos produtores rurais, os indígenas, quilombolas, extrativistas, pescadores e trabalhadores do mar, que ergueram um tsunami libertário em defesa da democracia;
os trabalhadores e o povo da cidade, a CUT e demais centrais sindicais, a gente negra e dos morros, as torcidas organizadas, todos que têm fome e sede de justiça e se puseram em marcha em defesa de um país sem opressão;
nossos queridos artistas, os Chicos, Buarque e César, as Beths, Nelsons e Monarcos, os Celsos, Benvindos e Duvivier, Pitangas, Sabatelas, Zé Abreus e Wagneres, os Ticos, Renegados, o povo do funk, sambistas, maracatus e tantos outros artistas, que com sua força e sensibilidade deram seu recado contra o golpe;
nossos intelectuais, juristas, professores e profissionais liberais que venceram o engodo dos argumentos fascistas e golpistas e defenderam a verdade e humanismo da ciência e de suas profissões;
a nossa juventude, de todas as idades, a UNE, a UBES, a UJS, o Levante e demais coletivos de luta dos estudantes, por erguerem bem alta a bandeira libertária da justiça e da fraternidade;
os religiosos de todos os credos, que deram o testemunho em defesa da vida em plenitude, da igualdade e compaixão, honrando os ensinamentos do Cristo revolucionário e dos mestres de todas as religiões;
Lula e Dilma e parlamentares que disseram não ao golpe, por respeitarem a decisão de seus milhares de eleitores;
temos, enfim, nós "Médicos pela Democracia" e todos os Profissionais de Saúde, que tentamos aliviar o sofrimento de nosso povo e salvar o Brasil da sanha dos golpistas e nos manteremos unidos e lutando pela reconquista do estado democrático de direito.
Nossos filhos e netos, por gerações e gerações, hão de se orgulhar desta nossa jornada memorável de luta em defesa de um país livre, soberano, justo e fraterno.
Não ao Golpe
VIVA A DEMOCRACIA
Manoel Fonseca
Arruda Bastos
Ana Margarida Rosemberg
Médicos pela Democracia
Comissão de Organização
(17/04/2016)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

POR: PAULO NOGUEIRA - Como será o dia seguinte caso a atraição de Temer triunfe

Publicado no DCM em 12/04/2016
O pior pecado depois do pecado é a publicação do pecado.
É uma das minhas frases favoritas. O autor é Machado de Assis.
Ela se aplica à perfeição ao áudio vazado em que Michel Temer festeja, antecipadamente, a vitória do golpe.
Em si, é uma infâmia, um despropósito, uma manifestação de pequenez.
Publicado, o vídeo é ainda pior: é o símbolo da traição de um homem que conseguiu com ele disputar com Eduardo Cunha o título de pessoa mais desprezível da República.
Temer além de tudo é um sem noção.
Ele acha que terá qualquer chance de conciliar os brasileiros? De promover um governo de salvação, do alto de sua majestosa insignificância?
Se sim, não é um caso apenas de traição, mas também de insanidade mental.
Imagine que o golpe afinal vingue.
Temer não terá um minuto de trégua. Os golpistas receberão, em dobro, tudo o que fizeram para atormentar Dilma e impedi-la de governar.
Todos sabem a capacidade do PT como oposição. Tanto mais depois de ser roubado descaradamente.
E a militância, como se comportará?
Greves, protestos se espalharão imediatamente pelo país. Importante: não serão apenas os petistas que sairão às ruas. Todos os progressistas que nas últimas semanas se ergueram contra o golpe farão o mesmo.
Em sua descomunal miopia, Temer talvez imagine que o apoio da Globo e da mídia vá garantir-lhe governabilidade.
Só que a perda de influência da imprensa tradicional é um dado da vida. O Jornal Nacional passou semanas massacrando Lula e eis que, em vez de incinerado, ele surgiu na liderança na corrida presidencial.
Como a Veja, o JN, de tanto abusar da ingenuidade de seus telespectadores, passou a ser acreditado apenas por um grupo limitado. Não convence mais ninguém porque sua credibilidade, como a da Veja, desceu a zero.
Não vai adiantar Temer abrir os cofres públicos para a Globo, o que certamente ocorrerá. A Globo não terá como melhorar sua vida.
É previsível que ocorram choques nas ruas. Policiais militares de todas as partes baterão em manifestantes, mas isso só multiplicará a raiva e a revolta.
Marco Aurélio Mello, um dos raros focos de luz nesta imensa escuridão em que se transformou o país, alertou para o pior. A polícia, incapaz de pacificar o país, pode ser substituída pelos militares.
E então o país poderia voltar a 1964.
É uma distopia brutal, mas não há como ignorá-la.
O mais provável – se o golpe vingar – é que diante do quadro de caos total sejam chamadas eleições presidenciais imediatamente.
E então Temer será forçado a enfrentar as urnas, como um vampiro que enfrenta o sol.
Temer se recolherá, para sempre, ao monturo da história como o bufão traidor que falou em salvar o país sem conseguir sequer salvar a si próprio da miséria e do desprezo eternos.

Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

domingo, 10 de abril de 2016

POR: FREI BETO: Desafios de futuro à revolução cubana

Desafios de futuro à revolução cubana: frei Betto

Publicado no Blog de Leonardo Boff em 30/03/2016 

Com frequência nas mídias sociais tanto eu quanto frei Betto somos acusados de comunistas e não são poucos que nos mandam para Cuba. Teríamos boa companhia, com o presidente Obama e o Papa Francisco que por lá já passou duas vezes. Chamar alguém de comunista funciona como uma ofensa, como se ainda estivéssemos na guerra-fria de 30 anos atrás. O preconceito tem vida longa. Bem dizia Einstein “que é mais fácil decompor um átomo e fazer uma boma atômica do que tirar o preconceito da cabeça de uma pessoa”. Nem por isso devemos deixar de combater todo tipo de intolerância e facciosismo para chegarmos a respeitar as difernças e fundar relações humanas para além das ideológicas pessoais. Por muitos anos frei Betto trabalhou em Cuba. Eu e ele aceitamos um trabalho sistemático sob uma condição: que  pudéssemos atuar simultaneamente nos dois polos, no religioso e no político. A nós interessava aproximar a Igreja ao socialismo e fazer que o socialismo se abrisse à dimensão religiosa, como algo profundamente humano. Fizemos dezenas de viagens, perigosas pois os militares nos vigiavam atentamente, com cursos sobre a leitura estrutural analítica da realidade, longe da rigidez marxista-soviética, abarcando os mais altos escalões de um lado, e do outro, tentanto mostrar que os ideais éticos do socialismo não eram contraditórios à mensagem central do cristianismo. Devemos dizer que, com a iluminação do Espírito,conseguimos caminhar tão longe ao ponto de haver, pela primeria vez, um encontro entre o episcopado cubano com os dirigentes socialistas. Por fim se chegou a uma reconciliação, no sentido de que o socialismo cubano já não colocava como pré-condição para trabalhar no estado ser ateu, definindo-se como um estado laico, abrindo assim liberdade para as as igrejas e aos religiosos e àsreligosas que começaram a chegar a Cuba. Este foi o mérito maior, silencioso, prudente e sábio de Frei Betto. Como ninguém entre nós, conhece a ilha. O povo o tem em altíssima estima, especialmente, depois do livro de entrevistas que fez com Fidel sob o título “Fidel e a religião” que conheceu  mais de um milhão de exemplares impressos. Digo tudo isso, para fazer um reconhecimento público desse frade-irmão-companheiro que une em sua vida duas paixões: o serviço contínuo e o amor permanente aos pobres e uma ciumenta paixão por Deus em longas horas diárias de meditação, geralmente noturnas. Nesse artigo faz uma análise e um prognóstico de como será uma eventual evolução do socialismo em Cuba, agora que se deu, por mediação do Papa Francisco, a reconciliação entre os USA e Cuba. Preservar-se-ão  os valores do socialismo, da solidariedade, da generosidade face aos flagelados do mundo inteiro para onde enviam seus médicos e suas medicinas e a busca sempre maior de permitir que todos possam realizar suas potencialidades mediante uma severa educação e uma medicina de alta qualidade? Torceremos para que o sonho maior do socialismo de cada um dar o que puder e receber o que precisar, possa ser uma conquista da humanização dos seres humanos na nossa passagem por essa única Casa Comum que temos. Reproduzimos o artigo divulgado nesta semana final de março:Lboff
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O papa Francisco, ao comemorar 78 anos, a 17 de dezembro de 2014, deu um inestimável presente ao Continente americano: o início do fim do bloqueio dos EUA à Cuba e o reatamento das relações diplomáticas entre os dois países.
Este foi o tema que Francisco priorizou com Obama no encontro que mantiveram, em Roma, em março daquele ano. Um ano antes, ao assumir o pontificado, Francisco se inteirou da questão ao receber Diaz-Canel, vice-presidente de Cuba.
Obama admitiu na TV que “o isolamento não funcionou.” De fato, o bloqueio imposto à Cuba, ao arrepio de todas as leis internacionais, não conseguiu nem mesmo fragilizar a autodeterminação cubana após a queda do Muro de Berlim.
Fidel, que completará 90 anos em agosto deste ano, sobrevive a oito presidentes dos EUA, dos quais enterrou quatro. E a mais de 20 diretores da CIA.
Os EUA são lerdos para admitir que o mundo não é fruto de seus caprichos. Por isso, demorou 16 anos para reconhecer a União Soviética; 20 para o Vietnã; e 30 para a República Popular da China. E foram precisos 53 anos para aceitar que Cuba tem direito à autodeterminação, como já sinalizara a Assembleia Geral da ONU.
De fato, EUA e Cuba jamais romperam o diálogo. Em Washington funcionou, ao longo de cinco décadas, a legação cubana, assim como em Havana o prédio da legação usamericana ergue-se majestoso no Malecón.
A notícia dessa reaproximação marca o fim definitivo da Guerra Fria em nosso Continente. E Cuba sai no lucro, pois oferece uma infraestrutura turística sadia, despoluída e isenta de violência a 1 milhão de canadenses que, no inverno, com três horas de voo, trocam 20 graus negativos por 30 positivos do mar do Caribe.
Com a abertura do mercado cubano a investimentos estrangeiros, os EUA, que raciocinam em cifrões, não querem ficar atrás da União Europeia, do Canadá, do México, do Brasil e da Colômbia, que selam importantes parcerias com a Ilha revolucionária. “Em vez de isolar Cuba, estamos isolando somente o nosso país, com políticas ultrapassadas”, disseram em carta a Obama os parlamentares estadunidenses Patrick Leahy (democrata) e Jeff Flake (republicano) ao retornarem de Havana.
Em troca de Alan Gross, agente da CIA detido em Cuba por ações terroristas, Obama libertou três dos cinco cubanos presos nos EUA, desde setembro de 1998, acusados de terrorismo (dois já tinham sido soltos).
Na verdade, os cinco cubanos tratavam de evitar, na Flórida, iniciativas terroristas de grupos anticastristas. E foram usados como bucha de canhão pelo FBI e por grupos de direita para impedir, na época, a reaproximação entre EUA e Cuba.
O tribunal de Atlanta havia admitido, por unanimidade, que as sentenças aplicadas a três dos cinco cubanos (Hernández, Labañino e Guerrero, libertados por último) careciam de fundamento jurídico: não houve transmissão de informação militar secreta, nem puseram em risco a segurança dos EUA.
Capital simbólico
Cuba vive, atualmente, um momento histórico de grandes transformações. Sua lógica revolucionária de desenvolvimento, centrada nas necessidades e nos direitos da maioria da população, deixa de ser estatizante e se abre às parcerias público-privadas. A construção do porto de Mariel, o mais importante de todo o Caribe, descortina novas possibilidades ao desenvolvimento cubano.
O setor de turismo, incrementado pela excelência dos serviços – como na área médica, e o alto nível educacional da mão de obra e a proteção ambiental -, se amplia como promissora estratégia de captação de divisas. O governo de Cuba se empenha em equacionar o problema da duplicidade de moedas – o peso cubano, utilizado pela população local, e o CUC, moeda conversível, obrigatória para turistas e acessível ao cubano em condições de pagar 24 pesos por 1 CUC. Enfim, uma série de novas medidas é estudada e testada para alavancar o desenvolvimento do país.
O que há de original na lógica de desenvolvimento de Cuba é justamente seu capital simbólico fundado em valores espirituais, como o senso de liberdade e independência, de cooperação e solidariedade, que marca a história do país, da luta dos escravos à implantação do socialismo. Muitos, no exterior, ignoram o quanto essa ética revolucionaria é arraigada no povo cubano e apostam que, em breve, Cuba será uma miniChina, politicamente socialista e economicamente capitalista.
Ora, esse risco existiria se Cuba abandonasse o que possui de mais precioso: seu capital simbólico. O país não tem muitos bens materiais, e o pouco que possui tem sido repartido para assegurar a cada habitante direito à dignidade como ser humano.
Porém, poucas nações do mundo são ricas, como Cuba, em capital simbólico, encarnado em figuras como Felix Varela, José Martí, Ernesto Che Guevara, Raúl e Fidel Castro.
Esse capital simbólico não resulta apenas da Revolução vitoriosa em 1959. A Revolução o potencializou. É consequência de séculos de resistência do povo cubano aos dominadores espanhóis e estadunidenses. Resulta desse profundo senso de independência e soberania que caracteriza a cubaneidade e marca a gloriosa história do país.
Ora, se a Revolução Cubana tem o propósito de perdurar como “sol do mundo moral”, na feliz expressão de Luz y Caballero, que intitula a clássica obra de Cíntio Vitier sobre a eticidade cubana, e se o desafio é aprimorar o socialismo, a questão ética se torna central nos processos de educação ideológica. Cada cubano deve se perguntar por que Martí, que viveu quase quinze anos nos EUA, não vendeu a sua alma ao imperialismo ascendente. Por que Fidel e Raúl, filhos de latifundiário, educados nos melhores colégios da alta burguesia cubana, não venderam suas almas ao inimigo? Por que Che Guevara, médico formado na Argentina, revolucionário consagrado em Cuba, ministro de Estado e presidente do Banco Central, ousou franciscanamente abandonar todas as honras políticas e facilidades inerentes ao exercício de suas funções no poder para meter-se anonimamente nas selvas do Congo e da Bolívia, onde a morte o encontrou em estado de completa penúria?
O capitalismo, com a sua poderosa maquina publicitária, quer que a humanidade tenha como sentido o ter, e não o ser. Quer formar consumistas e não cidadãos e cidadãs. Quer uma nação de indivíduos, e não uma comunidade nacional de companheiros e companheiras.
O socialismo ruma na direção contrária. Nele o pessoal e o social são faces da mesma moeda. Nele cada ser humano, independentemente de sua saúde, ocupação, cor da pele, condição social, é dotado de ontológica dignidade e, como tal, tem direito à felicidade.
Esta a ética a ser cultivada para que Cuba, no futuro, não venha a ser uma nação esquizofrênica, com política socialista e economia capitalista. O socialismo de uma nação não se mede pelos discursos de seus governantes. Nem pela ideologia do partido no poder. O socialismo de uma nação se mede pela amplitude democrática de seu sistema político, efetivamente emanado do povo e, sobretudo, de sua economia, de modo que todos, cidadãos e cidadãs, tenham iguais direitos de compartilhar os frutos da natureza e do trabalho humano. Por isso, considero o socialismo o nome político do amor.
Mudar os objetivos
A reaproximação de Cuba e EUA é vista com cautela pelos cubanos. Nas visitas que fiz à ilha nos últimos 15 meses, cubanos admitiram que a reaproximação é inevitável. Porém, “há um longo caminho a ser percorrido”, disse-me Fidel, que continua lúcido e atento ao noticiário. E muito interessado em tudo que se passa no Brasil.
Não basta a nova retórica de Obama. “É preciso que os EUA excluam Cuba da lista dos países terroristas”, frisou Fidel (o que ocorreu após o encontro de Raúl e Obama no Panamá, em abril de 2015) – “e suspendam o bloqueio.” Na reunião da CELAC, na Costa Rica, em janeiro de 2015, Raúl Castro acrescentou: “E devolvam a base naval de Guantánamo.”
Cuba recebe, hoje, 3 milhões de turistas por ano. (Para nossa vergonha, o Brasil, com esse imenso potencial turístico, recebe apenas 6 milhões). A diferença com o nosso país é que Cuba tem política de Estado de implementação turística, e promove turismos ecológicos, científicos e culturais. Já o Brasil, além da ausência de política para o setor, explora apenas o Carnaval, praias e mulatas…
Com a reaproximação com os EUA, prevê-se que viajarão a Cuba, a cada ano, 3 milhões de estadunidenses. Eis o temor dos cubanos. O país, por enquanto, não dispõe de infraestrutura adequada para absorver tantos visitantes.
Segundo os cubanos, os canadenses são respeitosos, discretos e de fácil entrosamento com a população local. Já os estadunidenses carregam três acentuados defeitos: a arrogância (acham-se os donos do mundo); o consumismo (comprar, desde carros antigos que trafegam pelas ruas de Havana, até mulheres…); e a mania de viajar sem sair dos EUA… (o que explica a existência, em cada ponto turístico do planeta, de McDonald’s e redes hoteleiras ianques, como Sheraton, Intercontinental etc).
Ainda assim, os dólares são bem-vindos a uma economia deficitária, embora haja consciência de que o reatamento significa o choque do tsunami consumista com a austeridade revolucionária.
Tudo indica que, inicialmente, o fluxo maior de viajantes dos EUA rumo a Cuba será motivado pelo “turismo médico”. Para o cidadão comum, tratamentos de saúde nos EUA são caros e precários. Cuba, além de excelência na área, reconhecida internacionalmente, possui expertise em ortopedia. E, atualmente, desenvolve vacinas eficientes contra vários tipos de câncer.
Agora, resta à Casa Branca passar do discurso à prática. Como me enfatizou Fidel, “eles são nossos inimigos e, portanto, precisam mudar não apenas os métodos, mas sobretudo os objetivos em relação a Cuba.”
Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens aos países socialistas” (Rocco), entre outros livros.

terça-feira, 5 de abril de 2016

MÉDICOS PELA DEMOCRACIA LANÇAM MANIFESTO.


Hoje, 05/04/2016, às 19h, no Auditório Castelo Branco da Reitoria-UFC, haverá um ATO do Grupo "MÉDICOS PELA DEMOCRACIA", quando será lançado oficialmente um Manifesto em defesa do mandato de Dilma Rousseff.
O Grupo "Médicos pela Democracia" tem participado de vários atos contra o golpe que está sendo escalado em nosso País. 
Para assinar o manifesto, clique no link.
http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR89375

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https://www.facebook.com/AtitudeMedica/?fref=ts


MANIFESTO
"Médicos pela democracia"

"O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem".
Guimarães Rosa

Vivemos um tempo sombrio em nosso país, em que o Estado de Direito está sendo corroído e há uma exacerbação de preconceitos, intolerância e violência.

A Constituição brasileira está sendo aviltada por decisões judiciais arbitrárias. Não aceitamos a tentativa de golpe que visa cassar a vontade livre e soberana dos brasileiros que se expressaram nas urnas. Diante desta grave situação, nós "médicos pela democracia" firmamos nossa posição:

1- Defendemos a Democracia e a manutenção do Estado Democrático de Direito, respeitando o arcabouço jurídico previsto na Constituição Brasileira de 1988.

2- Acreditamos que o debate político, pautado pelo respeito, destituído de sentimentos de ódio, preconceito e da incitação à violência é salutar para a jovem democracia brasileira.

3- Não compactuamos com a corrupção e defendemos que corruptos e corruptores sejam investigados, julgados e punidos, dentro da Lei, protegendo o direito a ampla defesa, presunção de inocência e ao contraditório.

4- Repudiamos a seletividade e parcialidade, observada em distintas ações executadas por setores do judiciário e da polícia federal, induzindo-nos a crer que exista uma articulação entre tais setores, alguns partidos e a grande mídia, com o objetivo de destituir a Presidenta da República.

5- Discordamos dos posicionamentos sobre a atual conjuntura política, publicados recentemente, sem consulta à categoria, das entidades médicas: Conselho Federal de Medicina (CFM), Associação Médica Brasileira (AMB) e o Sindicato dos Médicos do Ceará.

6- Não aceitamos que, insuflados por operações espetaculosas do aparelho judicial-midiático, se estabeleça um clima de intolerância e violência em nosso país e atitudes fascistas sejam estimuladas, quebrando a liberdade de opinião e destroçando as relações sociais.

Defendemos, portanto, o Estado Democrático de Direito, a Soberania Nacional, a Justiça Social e a Liberdade.

Não ao Golpe!

Fortaleza, 22 março de 2016
"Médicos pela Democracia" 
Médicos pela Democracia no aeroporto de Fortaleza recepcionando o Lula -  02/04/2016

Dras: Ângela Uchôa, Helena Serra Azul e Ana Margarida na Praça do Ferreira no Comício do Lula em Fortaleza


Médicos pela Democracia no aeroporto de Fortaleza recepcionando o Lula -  02/04/2016

Lula Recebendo a camisa do nosso movimento

Lula sendo recepcionado pelo colega Arruda Bastos


Ato contra o Golpe em Fortaleza- 31/03/2016

Ato contra o Golpe em Fortaleza- 31/03/2016