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| Raquel de Queiroz |
Em homenagem ao dia da avó - 26 de julho
A ARTE DE SER AVÓ
Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E
não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é
realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o
filho mesmo...
Quarenta
anos, quarenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que
o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda
envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas
compensações - todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as
tenha descoberto - mas acredita.
No
entanto - no entanto! - nem tudo são flores no caminho da avó. Há,
acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que
ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto.
Não importa que ela, hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a
lhe chamar de "vovozinha", e lhe conte que de noite, às vezes, ele de
repente acorda e pergunta por você. A mãe tem todas as vantagens da
domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer,
dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da
rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.
Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes.
Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia.
Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir
sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer roquetes, tomar café - café!
-, mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala,
destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz
elétrica mil vezes se quiser - e até fingir que está discando o
telefone. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer - e ser
acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para
os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros
da educação moderna...
E
quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho,
lhe reconhece, sorri e diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade,
como pão ao forno.
E
o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe
o castiga, e ele olha para você, sabendo que se você não ousa intervir
abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade...
Até
as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó
e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho -
involuntariamente! - bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado,
mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os
olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso
malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola
mesma, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é
relíquia: não tem dinheiro que pague...