Ontem, dia 10 de julho de 2013, o Instituto Clemente Ferreira de São Paulo, baluarte da luta contra a tuberculose na Brasil, completou um século de existência. Para marcar a data, transcrevo os acontecimentos do dia de sua inauguração, através do texto retirado de minha dissertação de mestrado em História Social: “Guerra à Peste Branca – Clemente Ferreira e a Luta Contra a
Tuberculose”. PUC-SP - 2008.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Em 1913, no dia
10 de julho, foi inaugurada à Rua da Consolação a nova sede do dispensário
Clemente Ferreira com o nome de Dispensário-Modêlo “Clemente Ferreira”.
Compareceram à cerimônia solene o Dr. Altino Arantes, Secretário do Interior; o
Dr. Emílio Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; o Deputado Washington Luis;
representantes do Presidente do Estado, do Prefeito Municipal, do Secretário da
Justiça, do Arcebispo e do Conselho Municipal e grande número de médicos e
populares. O Presidente da Liga e do Dispensário, Clemente Ferreira, proferiu
discurso agradecendo, em nome da Liga, aos representantes do Estado pela
presença e pelo apoio material dado para a construção do mesmo, mas deixou
claro que ainda estavam no prefácio de uma luta que necessitava de novos
armamentos e da coadjuvação do Estado.[1]
A imprensa deu grande cobertura ao
acontecimento divulgando a solenidade de inauguração e falando do prédio que
colocava São Paulo no mesmo patamar dos países europeus e norte-americanos. O jornal
Correio Paulistano, assim, noticiou:
Dez de julho de 1913 veio assinalar mais uma brilhante
vitória para o glorioso apostolado do ilustre clínico Sr. Dr. Clemente
Ferreira, que há anos tem movido um combate sem tréguas a uma das mais
terríveis moléstias que flagelam a humanidade. (...) Ontem efetuou-se a
inauguração oficial do novo prédio do Dispensário, situado na Rua da
Consolação, nº. 117.[2]
O novo dispensário foi batizado com
o nome de Dispensário-Modêlo, por possuir a concepção de espaço do pensamento
científico higienista e por sua ousada arquitetura nada ficar a dever a dos
dispensários europeus. O prédio,
circulado por um amplo espaço ajardinado, possuía dois pavimentos. Suas
instalações eram assim constituídas: No segundo andar encontravam-se: sala de
conferências, sala das damas paulistas da “Obra de Preservação dos Filhos de
Tuberculosos Pobres”, sala do diretor, biblioteca, arquivo e secretaria. O
primeiro andar, bem mais amplo, possuía: duas salas de espera para os doentes
tuberculosos (uma aberta e a outra fechada), gabinete de hematologia e de
análises clinicas, gabinete de bacterioscopia clínica, salas de consultas
abertas e fechadas, gabinete de otorrinolaringologia, sala de aeroterapia e
ginástica pulmonar, gabinete de radiologia, gabinete para pequenas operações,
toilletes, gabinete de inscrição dos doentes, sala de entrega de alimentos,
farmácia e laboratório farmacêutico. No térreo encontravam-se: caldeiras para
desinfecção diária das escarradeiras, museu, sala de fotografia, sala de
esterilização de leite, almoxarifado, rouparia e quatro compartimentos para
instalações hidroterápicas. No centro havia um pátio com um solarium para tratamento dos
tuberculosos e, nas paredes da entrada de todos os compartimentos, cartazes
mostrando ensinando higiênicas para prevenir a doença.[3]
No hall da entrada principal foi colocada uma placa de mármore com os seguintes
dizeres:
Dispensário-Modêlo
Clemente Ferreira
Este Estabelecimento, destinado à assistência
Hygienica e ao tratamento dos tuberculosos pobres, foi iniciado e concluído
durante o mandato administrativo da seguinte diretoria:
Presidente – Dr. Clemente da Cunha Ferreira; 1º.
Vice-Presidente – Dr. Victor Godinho; 2º. Vice- Presidente – Dr. Saturnino
Simplicio de Salles Veiga; 3º. Vice- Presidente – Dr. Francisco de Paula de
Abreu Sodré; Secretário Geral – Dr. Henrique Coelho; 1º. Secretário – Dr.
Américo Brasiliense de Almeida Mello; 2º. Secretário – Dr. Remízio Gomes
Guimarães; Thesoureiro – Comendador Joaquim d´Abreu de Lima Pereira Coutinho;
Procurador – Tenente Coronel José de Amorim Lima. [4]
Quatro bustos de
bronze,[5]
além de uma placa com o nome da Liga, ornamentavam sua fachada. Sobre esses
bustos, Clemente Ferreira, assim, se referiu no discurso que fez na inauguração
do Dispensário:
Os bustos de bronze simbolizam quatro fases memoráveis
na história da tuberculose, na evolução dos conhecimentos, no desdobrar dos
estudos e investigações sobre a patologia, a profilaxia e a terapêutica da
moléstia. Um representa o genial Laennec, o venerando descobridor da escuta mediata,
a quem visceralmente se prende o inicio do progresso, do aperfeiçoamento da
técnica da diagnose física do mal (...); o outro busto personifica o sábio
Villemin, o eminente investigador e proficiente demonstrador da contagiosidade
do terrível morbo que, desde os seus incomparáveis estudos e pesquizas, ficou
conhecido em seu caráter de transmissibilidade, assentando-se assim as
fundações de uma higiene profilática. O terceiro busto perpetua a figura do
insigne Koch, o emérito descobridor do bacilo – o motor patogênico da moléstia,
o qual isolado e cultivado desde esta data – 1882-, desvendou todos os
mistérios da etiologia do mal (...). Finalmente, ao quarto busto do único
sobrevivente – o sr. dr. Philip – de Edimburgo, - cabem a imperecível gloria e o
irredutível mérito da fundação dos dispensários antituberculosos, que marca a
fase pratica do combate ao flagelo popular, a era eficiente do movimento
educativo da opinião publica, do ensino preventivo e da assistência higiênica
dos tuberculosos necessitados e suas famílias. A colocação de taes bustos
representa, portanto, a consagração, a comemoração dos méritos e dos serviços
dos insignes cientistas à medicina e à sociedade, e constitue um gesto
expressivo de justiça histórica.[6]
Ana
Margarida Furtado Arruda Rosemberg
[2] Jornal Correio
Paulistano, 11 de julho de 1913.
[3] Jornal Correio Brasiliense, 11 de julho de
1913.
[4] Esta placa
ainda continua na mesma localização. Ela não tem data, mas é da época da
inauguração do prédio - 10 de julho de 1913.
[5] Os quatros bustos ainda
hoje estão lá, mas no pátio interno onde funcionava um solarium para o
tratamento dos tuberculosos, pela helioterapia.
Anamargarida,
ResponderExcluirMuito legal sua lembrança.
Digna e merecida homenagem a uma Casa digna, que teve o privilégio de ser dirigida por Rosemberg, e que continua privilegiada por receber sua lembrança.
Em nome dos "Clementinos", muito obrigado,
Beijo,
Jorge Afiune
Querida Anamargarida
ResponderExcluirMaravilhosa a sua homenagem!!
Sabemos que o Instituto Clemente Ferreira foi palco de atividades dignas de todo respeito nesses 100 anos de existência..
Sua homenagem vem de encontro a isso.
Super abraço
Maitê: uma respeitosa e agradecida "clementina"