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| Flagelados na estação de Iguatu aguardando o trem para Fortaleza, em 1877 |
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| Flagelados da seca no Ceará, de 1877/8 |
AS EPIDEMIAS QUE ASSOLARAM O CEARÁ
ana
margarida furtado arruda rosemberg
Fortaleza, 21/5/2020
No Ceará, as doenças que
adquiriram caráter epidêmico foram: varíola, febre amarela, cólera mórbus e
sarampo. As pandemias que aqui aportaram eram chamadas de gripes: espanhola, asiática e Hong Kong. A gripe espanhola
(H1N1), em 1918/20, considerada a maior pandemia do século XX, matou, no Mundo,
entre 50 e 100 milhões de pessoas; a gripe asiática (H2N2), em 1957/58, matou 2
milhões; a gripe Hong Kong (H3N2), em 1968/70, matou 1 milhão. No século XXI, a
gripe suína (H1N1), em 2009/10, matou, no Mundo, milhares de pessoas: 18.449 (confirmados - OMS) e 151.700 – 575.400
(estimados - CDC e OMS). Atualmente, a Covid-19 está escrevendo sua história
pandêmica, em nosso meio.
Das doenças que assolaram
o Ceará, a varíola foi a que mais matou.
Até a grande epidemia de 1877/78/79, a mesma era endêmica com alguns surtos
epidêmicos isolados. Nas grandes secas,
porém, por causa das condições nutricionais da população e a formação de aglomerados
nas vilas e cidades, adquiria caráter epidêmico.
Segundo Barão de Studart,
em seu livro “Climatologia, epidemias e endemias do Ceará”, a varíola
atingiu os cearenses em:
1804 (Fortaleza, Aracati)
1814 (Fortaleza), 1818
(Fortaleza)
1825 (vários lugares com
vítimas da seca)
1826/28 (Crato e Jardim
com 13 mil mortes)
1845 (vários lugares com
vítimas da seca)
1849 (Acarati, Fortaleza
e Sul da Província)
1854 (Aracati)
1855 (Aracati, Granja e
Sobral)
1857/58 (Fortaleza,
Maranguape, Cauhipe, Siupé,
Aracati, Sobral)
1859 (Fortaleza, Jubaia, Pacatuba, Acarape, Tabatinga)
1860 (Icó, Lavras)
1877/78/79 (todo o Ceará)
1890 (Fortaleza)
1891 (Fortaleza)
A epidemia de 1877/78/79
foi avassaladora. Conhecida como a tragédia dentro de uma tragédia, aconteceu
durante a “Grande Seca” ou “Seca dos Três Setes”, pois atravessou três anos
(77/78/79).
Naquela ocasião, milhares
de pessoas famintas se aglomeraram em Fortaleza, em péssimas condições
sanitárias, propiciando uma disseminação atroz da varíola. A cidade passou de
42 mil habitantes para 114 mil. Os flagelados encheram as praças, os prédios
públicos e a periferia da cidade. Lá ficavam em abarracamentos sem condições
sanitárias. A varíola, que era chamada
de “bexiga” pela população, atingiu 150 mil pessoas no Ceará.
Segundo Rodolpho
Teóphilo, o farmacêutico que testemunhou os horrores dessa epidemia, em apenas
dois meses de 1877, a varíola matou 27.378 retirantes que se aglomeravam nos
arrabaldes de Fortaleza. Em 1878, o total de mortos foi de 24.849.
O Lazareto
da Lagoa Funda, que tinha capacidade para 300 doentes, colapsou. Foram
improvisados outros lazaretos na periferia da cidade, bem precários, com
capacidade para cinco mil variolosos, mas a quantidade de doentes era em torno
de 40 mil.
Os lazaretos (inicialmente
locais para isolar os hansenianos) eram grandes galpões construídos para
receber as pessoas acometidas de qualquer doença contagiosa. Durante as epidemias eram locais onde os doentes iam esperar a morte.
Em 1855/6,
no bairro Lagoa Funda, foi construído o mais famoso lazareto de Fortaleza. No livro “A
fome”, Rodolpho Teóphilo descreve o referido lazareto, durante a epidemia de
varíola de 1878, como um lugar de terror.
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| Rodolpho Theóphilo |
Segundo Theóphilo, os gemidos e os gritos dos variolosos
moribundos eram comoventes. As
enfermarias regurgitavam de doentes com a pele em carne viva e putrefata.
Muitos perdiam a consciência. Outros, alucinados de dor, erguiam-se dos leitos
completamente desvairados, enquanto a carne putrefata caía no chão. Alguns, metiam as unhas nas pústulas e
arrancavam as crostas com pus e sangue e as comia, enlouquecidos.
As pessoas morriam sem
assistência médica. A varíola atingiu, também, os habitantes de
Fortaleza causando pavor. No dia 31 de dezembro de 1878, faleceu
Marieta Raja Gabaglia, mulher do Presidente da Província, José Júlio de Albuquerque Barros, mostrando
que o vírus não distinguia classe social.
O transporte dos cadáveres era feito
pelos próprios retirantes por quantias insignificantes. Só a miséria podia
fazer com que um homem se sujeitasse a conduzir o cadáver podre de um bexigoso
a uma distância de cinco km, por quinhentos réis, disse Rodolpho Teóphilo. Os
cadáveres eram transportados em redes imundas, amarradas em uma vara, e
conduzidas por dois homens que, para realizarem a difícil tarefa, precisavam
tomar muita cachaça. Outros, nem redes tinham, iam amarrados de pés e mãos a um
longo pau.
No dia 10 de dezembro de
1878, faleceram de varíola, em Fortaleza, 1.004 pessoas. Esse dia entrou para a
história como: “o dia dos mil mortos”. Entre os retirantes da seca, foram
contratados 64 para servirem de “coveiros”. Eram tantos cadáveres que os "coveiros" exaustos não deram conta de enterrá-los. Centenas de corpos ficaram insepultos. No dia seguinte, uma visão aterradora dominava o cemitério da Lagoa
Funda: urubus sobrevoavam os cadáveres
numa nuvem escura; carne humana em putrefação era disputada pelos urubus e
cachorros que foram expulsos com pauladas e pedradas.
Em fevereiro de 1879 a epidemia arrefeceu, pois já tinha atingido a população. Depois dessa tragédia, Rodolpho Teóphilo aprendeu a fazer a vacina e, enfrentando resistência do governo e da população pobre e analfabeta, conseguiu, em 1904, vacinar a população debelando a varíola em Fortaleza.
Somente em 1980, a varíola foi erradicada no Mundo.
Em fevereiro de 1879 a epidemia arrefeceu, pois já tinha atingido a população. Depois dessa tragédia, Rodolpho Teóphilo aprendeu a fazer a vacina e, enfrentando resistência do governo e da população pobre e analfabeta, conseguiu, em 1904, vacinar a população debelando a varíola em Fortaleza.
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| Rodolpho Teóphilo vacinando uma criança no isolamento de variolosos em 14.10.1907 |
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| Rodolpho Teóphilo vacinando populares no Ceará. Atrás um vitelo - Foto do acervo da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz |
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| Casa de Rodolpho Teóphilo e sede do Instituto Vacinogênico do Ceará Bairro Benfica - Fortaleza - final do século XIX - (atualmente demolida) |
A febre amarela surgiu no
Ceará, em 1851, vinda do Maranhão através de passageiros do navio São Sebastião. Na época, Fortaleza tinha 15.000 habitantes. Cerca de 6.000
adoeceram e 251 vieram a óbitos. No interior, foram registrados 14.440 casos
com 252 óbitos.
Para combater a febre
amarela foram aterrados vários pântanos em Fortaleza para evitar os miasmas,
pois eles acreditavam que a causa das doenças eram os miasmas. Indiretamente
essas medidas serviram, pois diminuíram os focos dos mosquitos transmissores da
doença. A partir dessa epidemia a febre amarela tornou-se endêmica.
A cólera chegou ao Ceará
em 1882, depois de ter arrasado os outros estados do Nordeste. A epidemia
atingiu quase todas as cidades do interior. Dois terços da população cearense
foi contaminada adoecendo. Vieram a óbito 12. 500 pessoas.
Essas epidemias sempre
estiveram na história da humanidade. Hoje, com o crescimento populacional e a
eficácia dos meios de transportes, os microrganismos se espalham com maior
facilidade, mas, por outro lado, temos uma arma poderosa para vencê-los, a
INFORMAÇÃO. Cientistas compartilham informações e compreendem os mecanismos por
trás das epidemias e o modo de combatê-las. Enquanto os medievos nunca puderam saber
a causa da peste negra, os cientistas, em poucos dias, identificaram o genoma
do coranavírus e já estudam o desenvolvimento de uma vacina e medicamentos para
cura da doença que nos assola. Diante de uma tragédia como uma pandemia, a
solidariedade e a cooperação afloram nas pessoas mostrando a importância de
domesticar laços simbólicos para se ampararem e se ajudarem. Só a cooperação e
a solidariedade entre os povos serão capazes de fazer a humanidade enfrentar e
vencer as pestes.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, José Policarpo. História da Saúde Pública no
Ceará. Fortaleza: Edições UFC, 1994
NETO, Lira. O poder e a peste: a vida de Rodolfo
Teófilo. 2ª edição, Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 2001.
PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque:
reforma urbana e controle social (1860-1930). 2ª edição. Fortaleza: Edições
Demócrito Rocha, 1999.
STUART, Guilherme Barão de. Climatologia, epidemias e endemias do Ceará. Fortaleza: Fundação
Waldemar Alcântara, 1997.
TEÓFILO, Rodolfo. Varíola e Vacinação no Ceará.
Fortaleza, Oficinas do Jornal do Ceará, 1904.
UJVARI, Stefan Cunha. A História da Humanidade contada
pelos vírus, bactérias, parasitas e outros microrganismos. 2ª edição. São
Paulo: Editora Contexto, 2012.
SITES






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