| Rosemberg Cariry - cineasta e escritor |
http://www.opovo.com.br/jornal/opiniao/2017/06/rosemberg-cariry-sobre-o-nascimento-e-a-morte-de-uma-nacao.html
Publicado no jornal "O POVO" 21.06.2017
O Brasil tem um passado assombroso. A escravidão gerou uma corrupção
moral e política de tamanha proporção e tragicidade que ainda hoje disso
não conseguimos nos livrar. A escravidão a tudo corrompeu: o
escravizador e o escravizado, a casa grande e a senzala, a fazenda e a
instituição pública, a justiça e o governo, a realidade e a imaginação, o
presente e o futuro. Em tudo ficou a marca da desumanidade e o
desapreço pela vida “coisificada” que se transforma em mercadoria.
Não
esqueçamos. Imensa foi a reação das elites cafeeiras contra a abolição
da escravatura. Quando selada, os afrodescendentes foram atirados à
própria sorte, sem direitos de cidadania, sem indenização, sem-terra,
sem bens. Nessa condição, foram obrigados a servir aos mesmos senhores a
troco do mísero pão, enquanto eram condenados à miséria nas favelas e
os tugúrios da periferia. A quartelada da República é um arranjo de cima
para adequá-la aos novos ditames mercantis e políticos da Europa. A sua
classe dominante vai lutar durante todo o século XX para manter o povo
brasileiro na sujeição, na desgraça e no analfabetismo.
Entretanto,
houve um tempo em que este país acreditou em si. De meados da década de
1950 para o início da década de 1960, eclodiram iniciativas que ousaram
uma arquitetura nova, um cinema novo, uma bossa nova, um teatro novo,
uma literatura de grande vitalidade. Encontro de povos e culturas,
herdeiro de mundos, o Brasil foi visto, naquele tempo, como uma
civilização nova. A euforia pouco durou. Não precisamos dizer o que
representou o golpe de 1964, com a prisão e o exílio da melhor
inteligência brasileira, sob o signo da tortura e das trevas e o jugo
dos interesses norte-americanos, durante mais de 20 anos.
Após
breve e conturbado período de democracia, com algumas conquistas
sociais, temos agora um governo sem legitimidade, com a frágil
permanência negociada a peso de ouro (sustentado pelo Grande Mercado),
que trata de acabar com o que resta do Brasil. Vivemos o tempo do
regresso da sífilis, da peste bubônica, da tuberculose, da febre
amarela, da dengue-zika-chikungunya e de todas as misérias epidêmicas e
sociais.
Milhões voltaram ao patamar de miséria absoluta e o
trabalho precarizado e escravo aumenta, notadamente entre mulheres,
favelados e crianças. Vivemos um agora ainda mais pobre e agonizante
país que volta a ser uma imensa senzala e uma colônia agrícola dos
grandes impérios. A violência, urbana e rural, transforma o país em um
aberto campo de batalha, com mais vítimas anuais do que as piores
guerras contemporâneas. Os negros, as mulheres e os jovens são as suas
maiores vítimas. Aumentam as indústrias do medo, da segurança e dos
presídios. Crescem os fascismos e crimes de todo tipo – tudo já
adquirindo ares de “normalidade”.
Os países nascem e morrem, são
inventados e desinventados. Tem época em que uma nação é estripada,
material e simbolicamente, e os seus pedaços são distribuídos aos
abutres. É possível que as partes do corpo despedaçados ainda tremam e
pulsem a vida e, quem sabe, voltem a se reunir novamente em um só corpo
(feito o corpo de Osíris) e possa a nação renascer. Sim, uma nação pode
ressurgir das trevas, mas estará para sempre marcada pela violência e
pela miséria de sua história recuada e recente.
Rosemberg Cariry
ar.moura@uol.com.br
Cineasta e escritor
Nenhum comentário:
Postar um comentário