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| ROBERT KURZ |
Robert Kurz (Nuremberga, 24 de dezembro de 1943 - 18 de julho de 2012) foi um filósofo e ensaísta alemão. Participou de uma vertente de reinterpretação da obra de Marx, denominada na Alemanha Wertkritik ('crítica do valor'). Sua área de interesse abrangeu a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a crítica do iluminismo e a relação entre cultura e economia.
Em 1986, Kurz participou da criação da revista Krisis (e do grupo epônimo), em torno da qual se desenvolveu a Wertkritik. O grupo obteve uma certa notoriedade em 1999, quando da publicação do "Manifesto contra o Trabalho", escrito por Robert Kurz, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle. 2 . Em 2003, o filósofo Anselm Jappe, em seu livro As aventuras da mercadoria - para uma nova crítica do valor (Lisboa: Antígona, 2006), apresentou os desenvolvimentos teóricos desse autores.
Em abril de 2004, o grupo Krisis sofre uma cisão, e Robert Kurz, Roswitha Scholz e Claus Peter Ortlieb criam um novo grupo, em torno da revista EXIT! - Kritik und Krise der Warengesellschaft ('EXIT! - Crítica e Crise da Sociedade da Mercadoria')3
Robert Kurz é autor de O Colapso da Modernização (1991)4 (Der Kollaps der Modernisierung), entre outros livros.
Morreu aos 18 de julho de 2012, com 69 anos de idade após uma cirurgia nos rins.5 6
Publicava regularmente ensaios em jornais e revistas da Alemanha, Áustria, Suíça e Brasil.
FONTE: WIKIPEDIA
Uma vida humana?
Só sem mercado,
estado e trabalho
Robert Kurz fala
sobre o seu novo livro
Há meses que a grande imprensa
alemã, e principalmente jornais e revistas alternativos, não
deixam de falar bem e, antes de tudo, mal da mais nova
publicação de Robert Kurz, o "Livro Negro do Capitalismo:
um epodo à economia de mercado", ( http://www.eichborn.de). Em 816 páginas encontramos uma breve
história valente e violenta do capitalismo, as filigranas da
construção das bases ideológicas e fetichistas do sistema
produtor de mercadorias e os percursos críticos do totalitarismo
de mercado no processo mundial da modernização. Kurz não entra
em competição com outros "Livros negros" da
comparação de sistemas e de campeonatos de atrocidades
macabras, mas apresenta os processos sociais modernos e
contextualiza os seus ideólogos desde Mandeville e Bentham para
desenhar a profunda dimensão histórica das desgraças
contemporâneas.
Robert Kurz reside em Nuremberg,
Alemanha, e é um dos editores da revista (Krisis), que publica fundamentos da teoria social
crítica elaborados pelo grupo Krisis. No Brasil ele não é
desconhecido. Em 1993 o seu "livro audacioso", o
"Colapso da modernização" (Ed. Paz e Terra), provocou
fervorosos debates entre intelectuais brasileiros de esquerda.
Uma seleção das suas posteriores palestras no Brasil e de
artigos jornalísticos na imprensa brasileira foi publicada nos
"Últimos combates" (Editora Vozes, Zero à esquerda).
Lançado no ano passado no Dep. de Geografia da USP com a
presença de vários participantes do grupo Krisis o
"Manifesto contra o trabalho" (labur@edu.usp.br), do qual Kurz é co-autor, resultou em
novas polémicas.
Os escritos de Robert Kurz e, em
particular, o seu novo livro, possuem uma saudável energia
negatória que toca mordazmente nos tabus da modernidade: a
economia de mercado, o dinheiro, o Estado e o trabalho. Permite
assim aos leitores encontrar perguntas e respostas a respeito de
uma urgentemente renovada perspectiva de crítica social e
emancipação humana.
Dieter Heidemann
Prof. do Dep. de
Geografia da USP
com colaboração de
Cláudio Duarte
D.H.: O título original do
seu livro novo era "Os moinhos satânicos". Por que a
mudança?
Realmente, entre os vários
títulos pensados, o meu favorito era "Os moinhos
satânicos" lembrando a poesia do romântico inglês William
Blake no final do século XVIII. Era uma expressão proverbial
das primeiras experiências com o sistema fabril capitalista. Mas
juridicamente o título já tinha sido ocupado por um romance.
Além disso, a editora preferiu o título "Livro negro do
capitalismo". Esperava mais efeito e atenção para fazer
contraponto ao "Livro negro do comunismo" de um grupo
de autores franceses e traduzido para diversas línguas. É uma
alistagem cansativa dos crimes do regime do socialismo de Estado,
uma pura obra de propaganda sem substância histórico-crítica e
contra um inimigo que já não existe mais. Agora bem, se eu
quisesse apenas alistar os crimes do capitalismo ocidental, acho
que nem 100 volumes grossos seriam suficientes.
D.H.: O livro é a história
da imposição da modernidade e do liberalismo. Qual é o fio
condutor da sua análise ?
Eu queria escrever uma história
crítico-radical da modernização desde o século XVIII,
através de uma apresentação integrada de aspectos que
normalmente estão sendo apresentados não só apologeticamente,
mas também tratados monograficamente separados.
O livro é: 1) Uma história das
três grandes revoluções industriais (introdução do sistema
fabril através da máquina a vapor no início do séc. XIX,
"automobilização" fordista através da produção em
linha e racionalização da economia empresarial na primeira
metade do sec. XX, revolução microeletrônica no limiar do
séc. XXI); 2) Uma história da ciência da economia nacional com
as suas vacilações permanentes entre os pólos do mercado e do
Estado; 3) Uma história da ideologia legitimadora burguesa
centrada na naturalização e biologização do social (a
economia capitalista e suas conseqüências sociais são tratadas
por ela como "lei natural" acima de qualquer crítica);
4) Uma história do disciplinamento de "material
humano" e da interiorização de normas de
comportamento capitalistas até chegar ao "homem
autoregulativo" contemporâneo; 5) Uma história do
movimento operário socialista e do socialismo do Estado, não
como um contramodelo, mas como um "elemento imanente"
da modernização burguesa; 6) Uma história das grandes crises
que caracterizam, em sua essência, este sistema.
Sempre uso citações originais
dos atores contemporâneos. Através de três séculos, fica
assim transparente que o capitalismo nunca foi outra coisa senão
um sistema de impertinências descaradas em relação à vida e
ao comportamento humano; para a grande maioria dos homens no
passado e no presente nunca trouxe um aumento de bem-estar, mas
sempre apenas novos surtos de pobreza em massa e desespero.
D.H.: Encontramos as
referências teóricas de sua análise social nas discussões
publicadas na revista "KRISIS": Qual é a importância
da critica do valor para a sua crítica radical do processo de
modernização e dos fetiches do sistema produtor de mercadorias
?
O "Livro negro do
capitalismo" é também uma tentativa de concretizar,
através de material histórico e atual, a critica que o
"Grupo Krisis" faz à compreensão usual da teoria
marxiana. O "marxismo do movimento operário" entendeu
equivocadamente as formas elementares da socialização
capitalista (trabalho abstrato, valor / forma-mercadoria,
dinheiro, mercado, Estado, nação, democracia) como condições
existenciais sociais positivas, quase ontológicas. Nesta base,
aparentemente neutra, realizou a sua parte da "luta de
classes". Por isso, a "luta de classes" era apenas
uma forma de concorrência interna das categorias
capitalistas e do seu invólucro férreo. Tratava-se de lutas por
distribuição, melhorias e "direitos", cujo êxito
parcial e sempre passageiro atava, cada vez mais fortemente, os
homens ao sistema dominante, ainda na sua própria forma-sujeito.
Hoje, a "luta de classes" esmorece no mundo inteiro e
se torna, apesar das catástrofes sociais, um modelo em
extinção, pois, na crise da terceira revolução industrial, o sistema
referencial comum, o fundamento aparentemente neutro da
moderna produção de mercadorias, está abalado. "Crítica
do valor" significa levar este fato em consideração e,
pela primeira vez, pôr radicalmente em questão as formas de
relações sociais de mercado e Estado, que se tornaram tão
naturais. Nesta perspectiva, o capitalismo não é nenhum
problema da "mais-valia retida" e da riqueza monetária
subjetiva, mas um problema de um louco fim em si mesmo: a
"valorização do valor", o absurdo reacoplamento
cibernético do dinheiro a si mesmo. Capitalistas e executivos
são apenas funcionários deste "sujeito automático"
(Marx). A relação social em referenciais monetários e
concorrenciais universais nos mercados anônimos é somente
possível através de um sistema de mercados de trabalho
preposto, nos quais os homens precisam vender a si mesmos para se
tornar material da "máquina mundial" capitalista. A
crise fundamental dos mercados de trabalho se revelará,
portanto, mais cedo ou mais tarde como crise do próprio
capitalismo.
D.H.: Como você desenvolve
então a crítica ao trabalho, considerando-o característica do
mundo moderno?
Marx vacilava ainda entre uma
ontologização positiva e uma crítica radical do trabalho. O
movimento dos trabalhadores, como o seu nome já diz (Partido do
Trabalho, ponto de vista do trabalho etc.), entendeu
equivocadamente o trabalho como alavanca da emancipação e como
contramodelo ao capitalismo. Porém, a abstração trabalho não
é o oposto mas o estado de agregado vivo do próprio capital; o
trabalho não é uma condição suprahistórica antropológica da
existência, mas a forma de atividade específica capitalista da
modernidade - dispêndio abstrato de energia humana num espaço
funcional de economia empresarial. Nesta abstração já está
posta a indiferença em relação ao conteúdo, ao sentido e à
finalidade, às necessidades vitais. Trabalho como determinação
abstrata é o lado atuante do fim em si mesmo irracional
capitalista.
O "Livro Negro" deriva o
conceito de trabalho abstrato não de maneira lógico-definidora
da forma-valor (isto Marx já fez em "O Capital"), mas
tem uma outra forma de apresentação: o sistema do trabalho
abstrato é analisado no seu desdobramento concreto-histórico,
incluindo obviamente os últimos 100 anos de capitalismo, que
Marx não vivenciou. No final deste desenvolvimento, mostra-se
que somente na 3ª revolução industrial a aparente naturalidade
da abstração trabalho torna-se prática e teoreticamente
obsoleta. Ou, a tecnologia informacional torna diversas
atividades humanas supérfluas no espaço funcional capitalista
ou a sua execução é realizada por robôs. De outro lado, o
trabalho desaparece mais ainda naquelas empresas, economias
nacionais ou regiões mundiais que, face a fraca força de
capital, não podem utilizar a microeletrônica e, por isso,
afundam na concorrência.
D.H.: Falando de economias
nacionais, quais são as formas de ascensão e decadência do
Estado-nação?
A assim chamada nação, tão
pouco suprahistórica como o trabalho, foi uma invenção do
século XVIII. Ela não é outra coisa senão o invólucro
cultural e imaginativo do Estado capitalista e da forma
irracional de legitimação para uma "continuação
político-militar de concorrência com outros meios". O
"Livro Negro" tematiza tanto a integração histórica
do movimento de trabalhadores e do socialismo na mania nacional,
como também tematiza a crise do contexto nacional na atual
globalização do capital. O conceito de "libertação
nacional" demonstra-se agora como uma contradição em si. O
apelo à nação não é nenhuma alternativa à globalização,
mas é apenas reacionário. A esquerda precisa de formas de
organização e ação transnacionais para estar de novo à
altura do desenvolvimento capitalista. Só podemos pensar um
futuro pós-capitalista através de formas pós-nacionais de
reprodução.
D.H.: Junto com o Estado, a
democracia e a cidadania tiveram o seu papel na imposição do
processo de modernização. Como você relaciona liberalismo,
socialdemocracia e socialismos de Estado ao sistema produtor de
mercadorias ?
Enquanto o capitalismo não estava
plenamente desenvolvido, também o sistema do direito burguês
ainda não estava num estado completo. A universalidade e
igualdade da forma-direito ainda não estava construída;
principalmente na área política (direito de eleição, direito
de reunião, direito de coligação etc.), uma grande parte da
população ficou excluída total ou parcialmente dos direitos
burgueses. Por isso, a atenção para mudanças se dirigia antes
de tudo à esfera política. Sob o nome de democracia, a
reivindicação por "igualdade política e liberdade"
foi declarada objetivo histórico. O "Livro negro"
analisa esta orientação como uma ilusão histórica. Pois a
integração das massas na cidadania moderna era ao mesmo tempo
um disciplinamento que estreitava a consciência e a ação nos
moldes da sociedade capitalista. Por isso, as diversas ditaduras
da modernização não eram nenhum contraponto à democracia, mas
um estágio histórico passageiro da própria democracia. A
esperança de que sistemas democráticos de decisão poderiam
regular o sistema econômico pressuposto há muito tempo foi
cruelmente desacreditada. Pois, antes que os membros da sociedade
do sistema produtor de mercadorias iniciem sua discussão
democrática, já são definidos a priori como
concorrentes econômicos. A valorização do dinheiro, o mercado
e a concorrência criam alternativas irracionais que apenas a
posteriori são trabalhadas pelos procedimentos
democráticos. Hoje, o charme da democracia tornou-se
definitivamente algo insípido. Pela crítica globalização do
capital, o totalitarismo econômico do mercado leva não só a
política democrática, mas a política em si ad absurdum.
D.H.: De que modo o
"Livro negro" trata desta crítica globalização e do
colapso do capitalismo de cassino, quando você fala até em
"dinheiro desempregado"?
Hoje, em muitos países e regiões
do mundo, o sistema produtor de mercadorias, e com isso a
economia monetária, de fato já entrou em colapso. Nos centros
ocidentais e em partes da periferia, a crise do trabalho só não
aparece como crise do capital porque aqui, a "substância de
trabalho", isto é a economia real, foi substituida por um
desacoplamento dos mercados financeiros. A capitalização
através das bolsas do "capitalismo de cassino"
especulativo antecipou esperanças fictícias de ganhos de quase
todo o século XXI. Esperanças que nunca mais serão realizadas.
O "Livro negro" analisa este desenvolvimento através
da comparação com as bolhas especulativas nos níveis da 1ª e
da 2ª Revolução Industrial. Como as anteriores, também esta
há de estourar. Mas também fica muito mais claro que a
dimensão do "capital fictício"(Marx) hoje é muito
maior do que no passado. Isto porque na 3ª Revolução
Industrial o capital torna sua própria "substância de
trabalho", de uma maneira muito mais profunda, algo
supérfluo. Quando esta bolha estourar o estrondo abalará a
sociedade capitalista mundial até ao seu fundamento.
D.H.: Como você pensa um
processo de emancipação social para além do trabalho, da luta
de classes, do movimento operário tradicional e da simples
"cultura da recusa"?
O mecanismo funcional irracional
do capital somente pode converter as gigantescas forças
produtivas da microeletrônica em desemprego em massa, em
estresse de eficiência e, enfim, no colapso do sistema
financeiro. A perspectiva emancipatória, por outro lado, só
pode consistir em transformar essas forças produtivas em ócio
livre e em uma boa vida para todos. Mas, para isso, precisaria
surgir um movimento social que não se definisse mais através da
forma capitalististicamente constituída dos interesses
concorrenciais. Precisaria ser um "movimento de
apropriação" que se apropriasse diretamente dos recursos,
não mais pelo desvio do mercado, do Estado, do dinheiro e da
política. Isto somente é possível através da ruptura de sua
própria forma-sujeito e forma de consciência. Para alcançar
isso, uma "cultura da recusa" poderia ser um passo na
direção correta, assim como o desenvolvimento de "formas
de ajuda mútua" para além do mercado e do Estado, como
também rebeliões contra as impertinências descaradas do
totalitarismo econômico (até em forma eletrônica de um vírus:
"I love you"). O decisivo será se os futuros
movimentos sociais alcançarão a crítica radical das categorias
capitalistas ou se eles se engajarão na auto-administração da
miséria. A teoria não pode esboçar por si só um programa
concreto e oferecer este programa ao mundo como se fosse um novo
sabão em pó. A perspectiva só pode ser concretizada na ação
conjunta da teoria e dos movimentos sociais emancipatórios.
D.H.: A forma literária do
livro corresponde ao cinismo da realidade violenta do processo de
modernização. A sua linguagem de repugnância sensível aos
detalhes, desprezo sarcástico e ironia permite lembrar Adorno,
não ?
Alguns críticos chamaram o
"Livro negro" um "panfleto de insultos contra a
economia de mercado". Essa carapuça aceito com prazer.
Apenas na distância acadêmica burguesa a teoria e a análise
histórica aparecem como uma observação neutra de objetos
neutros. Uma crítica social, porém, pressupõe um engajamento
existencial do homem inteiro, portanto também, a emoção. A
ordem dominante não é apenas um sistema com mecanismos
funcionais mas também uma impertinência detestável e um
acúmulo de infâmias. Todos os verdadeiros críticos, de Marx
até Adorno, ligaram as análises precisas à ironia e rejeição
da "modernização", cuja burrice e violência insultam
toda a razão humana.
D.H.: Como está sendo a
recepção do livro na Alemanha?
O "Livro Negro" chamou
muito mais atenção e levou a maiores tiragens do que o
"Colapso da Modernização" no início da década de
90. Junto com o "Manifesto contra o trabalho", do Grupo
Krisis, apresentou questionamentos para um novo debate da
esquerda e alcançou um número grande de leitores. É óbvio que
as resenhas nos meios de comunicação, com poucas exceções,
estão sendo extremamente negativas, uma vez que se feriu o tabu
de um consenso social aparentemente definitivo: "a economia
de mercado e a democracia". Também os porta-vozes da antiga
esquerda reagiram alergicamente, mais ainda que em relação a
publicações anteriores da Revista Krisis, pois estão vendo seu
barco ir a pique.
Robert Kurz
Schwarzbuch Kapitalismus: ein
Abgesang auf die Marktwirtschaft
Frankfurt am Main, Eichborn
Verlag, 1999
FONTE: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz54.htm
FONTE: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz54.htm


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