O dia ficou borrado na memória, mas o mês e o ano nítidos
para sempre. Era maio de 2012, primavera em Paris. Cedinho, desci os degraus
velhos e desgastados do prédio da Rue de
Lombards, 58, no 1er arrondissement. Ao
abrir a pesada porta que dava acesso à rua, um frio gostoso invadiu a minh’alma.
Com uma sensação de leveza, liberdade e segurança dobrei a esquina e cai em uma
das 13 bocas da estação Châtelet Les Halles,
na Place Sainte Opoortune, da
fantástica rede de metrô de Paris. Em busca da linha 1, cruzei com dezenas de
pessoas num vai e vem sem parar. Na bifurcação dos dois sentidos, La Défense e Château de Vincennes, uma jovem
extraía das cordas de seu violino sons melodiosos. Ao entrar no vagão do metrô, observei
que as pessoas liam jornais e livros, com sede de informação e saber. Pensei em
Monteiro Lobato e em sua célebre frase: “Um País se faz com homens e livros”.
Foi assim que a França se fez. Desci na estação Franklin Roosevelt em busca
da linha 9. Ao emergir em Trocadero
meu olhar se voltou para a Tour Eiffel.
Quanta majestade ostenta a “Dama Rendada”! Em cinco minutos estava na Rue de Longchamp, para mais uma aula
teórica de História da França (Une conférence d'histoire de France). O curso de
História da Arte, da France Langue, que
frequentava em Paris, era complementado com aulas teóricas sobre História da França.
O tema da aula do dia era “Maio de 68”. Sempre
ouvi falar da revolução encabeçada pelos estudantes da Sorbonne, em maio de 68,
em Paris, mas nunca imaginei a profundidade e a força da mesma.
Daniel Cohn-Bendit,
estudante de sociologia da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, iniciou o movimento quando liderou
um protesto que exaltava o direito das pessoas à felicidade e criticava a
sociedade consumista. Os grupos de esquerda: trotskistas, maoístas e
anarquistas se uniram e, no dia 27 de março, cem estudantes ocuparam a
Universidade de Nanterre. O movimento desaguou na Sorbonne e, no dia 3 de maio,
a mesma foi ocupada pela polícia resultando em cem feridos e seiscentos presos.
No dia 6 de maio, houve confronto no Quartier Latin com um saldo de novecentos
feridos e quatrocentos presos. No dia 7 de maio, 30.000 estudantes marcharam
sobre a Champs Elysées. A noite de 10 de maio passou para a história como “A
Noite das Barricadas”, pois 20 mil estudantes enfrentaram a polícia sob uma
chuva de pedras, gás lacrimogênio, cocktel molotov, fumaça de carros
incendiados etc. No dia 13 de maio, estudantes e trabalhadores se uniram e
decretaram uma greve geral de 24h, em Paris, em protesto contra as políticas do
General De Gaulle. No dia 20 de maio, Paris amanheceu sem metrô, ônibus e outros
serviços. Cerca de 6 milhões de grevistas ocuparam as 300 fábricas da França.
No dia 30 de maio, o movimento tornou-se vultoso quando 2/3 dos trabalhadores
franceses aderiram ao movimento e 1 milhão de franceses marcharam sobre a
Champs Elysées. A Universidade de Sorbonne, ocupada pelos estudantes, iniciou
uma batalha cuja as armas foram frases ousadas: “A imaginação ao poder”, "É
proibido proibir", "Abaixo a universidade" e "Abaixo a
sociedade espetacular mercantil". Os
estudantes franceses se mobilizaram para mostrar ao mundo os novos tempos, a
liberdade e a rebeldia. A França dos anos de 1960, sob o comando do General
Charles De Gaulle, era uma sociedade culturalmente conservadora e fechada. A
juventude ansiava por mais liberdade, rejeitando a ordem estabelecida e a
sociedade de consumo. O Maio de 68 mudou profundamente as relações entre raças,
sexos e gerações na França, e, em seguida, no restante da Europa. No decorrer
das décadas, as manifestações ajudaram o Ocidente a fundar idéias como as das
liberdades civis democráticas, dos direitos das minorias, e da igualdade entre
homens e mulheres, brancos e negros e heterossexuais e homossexuais. Segundo o
historiador francês Michel Winock, autor do livro "La fièvre hexagonale: les grandes crises politiques de 1871 à
1968", houve na França, em Maio de 68, uma emancipação social. Winock
diz que desde a Revolução Francesa (1789), há um culto à revolução. A França
bate recordes mundiais de manifestações. Só em Paris há mais de mil por ano. Isso
é uma herança da história. Para muitos filósofos e historiadores, o Maio de 68
foi o acontecimento revolucionário mais importante do século XX, porque foi uma insurreição popular que superou
barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Fortaleza, 16 de julho de 2012.
 |
| Sartre e Daniel Cohn-Bendit |
 |
| Estudantes franceses em maio de 68 - Paris |
 |
| Barricadas nas ruas de Paris |
 |
| Passeata de estudantes em maio de 68 - Paris |
 |
Estudantes em frente fábrica da Renault prestam apoio e solidariedade aos operários que ocuparam a fábrica em uma greve geral.
|
Ana,lendo o seu blog a gente descobre como a história é importante para nossas vidas. Parabéns por mais esta aula!
ResponderExcluirObrigada, Edna. Para entender o presente é preciso conhecer o passado.
ResponderExcluirAna, li e gostei do que li.
ResponderExcluirDa aula de história sobre o movimento de maio de 68 em Paris e da sua descrição sobre a ida para a sala de aula na Francês Langue. Saudades dos lugares vividos!
Ângela, vc, mais do que qualquer pessoa, compreende esse meu dia em Paris. bj
ResponderExcluir