quinta-feira, 20 de julho de 2023

JM RD - MONCORVO DE FIGUEIREDO – Pai da Pediatria Brasileira

 MONCORVO DE FIGUEIREDO – Pai da Pediatria Brasileira

Carlos Arthur Moncorvo de Figueiredo (1846-1901)

Publicado no JM - RD - Julho 2023. Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Julho-2023.pdf

Carlos Arthur Moncorvo de Figueiredo, filho de Carlos Honório de Figueiredo e Emília Dulce Moncorvo de Figueiredo, nasceu em 31.08.1846, na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1871, colou grau pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, defendendo a tese intitulada “Dispepsia e seu Tratamento Calórico em Geral”.

Recém-formado foi estudar na Europa durante dois anos, passando a maior parte do tempo estagiando na “l’École Pratique de la Faculté de Médecine de Paris”, dedicando-se ao estudo das doenças que atingem as crianças. 

De volta ao Brasil, depois de trabalhar em clínica privada e na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, Moncorvo fundou com colaboradores a “Policlínica Geral do Rio de Janeiro”, inaugurada em 1882, com as presenças do Imperador Dom Pedro II e do Conde d’Eu.

Na referida Policlínica, o Dr. Moncorvo atendia crianças pobres e ministrava cursos livres, formando a primeira geração de pediatras do Brasil.

Médicos famosos, como: Arthur Moncorvo Filho (que seguiu os passos do pai), Fernandes Figueira, Clemente Ferreira, Luiz Barbosa, Olinto de Oliveira, Eduardo Meyrelles e Olympio Portugal, entre outros, se especializaram em pediatria na Policlínica.

 

Os cursos livres ministrados por ele perduraram durante 19 anos, até a sua morte, em 1901.

O Dr. Moncorvo propôs ao Ministro do Império, Rodolfo Dantas, a criação de uma cadeira de Clínica Infantil na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Mesmo sem obter êxito naquele momento, sua proposta foi importante para a futura criação da cadeira.

Durante sua vida profissional, o Dr. Moncorvo publicou mais de 80 livros em português, francês, espanhol, inglês e italiano, com temas variados, como: cólera, influenza, elefantíase, reumatismo, coqueluche, impaludismo, malária e diarreias; publicou artigos em inúmeras revistas e jornais no Brasil, como: “Revista Médica” e “O Progresso Médico”, e no exterior, como: “Revue Générale de Clinique et de Thérapeutique Infantiles”, “Revista de Enfermidades de los Niños” e “Archivio Italiano di Pediatria”.

Além de ter sido agraciado com o relevante prêmio “The World”s Columbian Comission” pela publicação do livro “Children”s diseases and their remedies (1893)”, várias instituições do Brasil e do Mundo conferiram a ele medalhas, prêmios e títulos. São os mais relevantes: membro titular da Academia Nacional de Medicina, em 1884; membro correspondente e, ou, honorário de renomadas instituições cientificas, como: Instituto Histórico-Geográfico Brasileiro, Academia Real das Ciências de Lisboa, Sociedade Médica dos Hospitais de Paris e a prestigiosa Academia Nacional de Medicina da França.

O Dr. Moncorvo foi Prof. Honorário da Faculdade de Medicina da Universidade de Santiago do Chile e agraciado com a comenda da Ordem de Cristo, em 1889, pelo Governo Imperial.

Por sua trajetória profissional dedicada a implantação da especialidade em prol da saúde infantil, foi agraciado postumamente com o título de “Pai da Pediatria Brasileira”.

Faleceu em 25 de julho de 1901, no Rio de Janeiro, deixando um imenso legado para a medicina.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 1 de julho de 2023

 

REFERÊNCIAS

https://www.anm.org.br/carlos-arthur-moncorvo-de-figueiredo/

https://rmmg.org/artigo/detalhes/136#:~:text=Carlos%20Arthur%20Moncorvo%20de%20Figueiredo,servi%C3%A7o%20de%20mol%C3%A9stias%20da%20inf%C3%A2ncia.

https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/carlos-arthur-moncorvo-de-figueiredo

http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1297124293_ARQUIVO_ANPUHNAC11IPPMG.pdf

file:///C:/Users/ana%20margarida/Downloads/Ana%20Margarida%20Furtado%20Arruda%20Rosemberg%20(2).pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Arthur_Moncorvo_de_Figueiredo

 

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quarta-feira, 28 de junho de 2023

APRECIAÇÃO CRÍTICA DA OBRA DE ARTE – “La Tabagie”

 Publicado no Jornal do Médico

Link, abaixo

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APRECIAÇÃO CRÍTICA DA OBRA DE ARTE – “La Tabagie”
Descrição Técnica
           

Autores

Os irmãos Le Nain (Louis e Mathieu)

Título  - “La Tabagie”

Outro Título - “Le Corps de Garde”

Data - 1643

Técnica – óleo sobre tela

Dimensões – Altura: 1,17m; Altura com acessório: 1,39 m; Largura: 1,37m; Largura com acessório: 1,58 m

École de France       

Localização - Louvre-Paris

“La Tabagie”, também conhecida como “Le Corps de Garde”, é uma das obras-primas da pintura noturna e a obra-prima dos irmãos Le Nain.


O quadro impacta por nos dar a impressão de ser uma cena de uma taberna repleta de fumadores de cachimbo, moda de consumir o tabaco no século XVII.


Entretanto, de perto, ele nos leva para dentro de uma "sala de guarda" no escuro da noite. Os rostos e as atitudes das personagens refletem a amizade que une esses soldados. Enquanto um soldado cochila os seus companheiros fumam seus enormes cachimbos em torno de uma vela.


A tela nos convida a entrar na cena pela expressividade dos olhares e a confidencialidade das conversas.


A paleta é de cores marrom, ocre e cinza. Porém, o tom vermelho da personagem em primeiro plano direciona o olhar do espectador.

 

Esta tela foi por muito tempo considerada a obra-prima de Louis Le Nain, o gênio dos três irmãos franceses. Hoje, os estudos mostram que a tela foi só iniciada por ele e, posteriormente, concluída por seu irmão Mathieu, que ampliou o tema do fumo. Mathieu acrescentou uma personagem fumando à esquerda e colocou um cachimbo na mão do homem no primeiro plano do lado direito.

Antoine Le Nain (c. 1600 - 1648), Louis Le Nain (c. 1603 - 1648) e Mathieu Le Nain (1607–1677), os três irmãos artistas, nasceram em ou perto de Laon, no norte da França.

Suas pinturas magistrais mostram que eles assinavam somente com o sobrenome Le Nain, ficando, assim, impossível distinguir a autoria das obras individualmente. Normalmente eles são referidos como uma única entidade “Le Nain”.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 12 de junho de 2023

segunda-feira, 5 de junho de 2023

MEDICINA NA PRÉ-HISTÓRIA E NA PROTO-HISTÓRIA


Publicado no Jornal do Médico. Link, abaixo.

 https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Maio-2023-app.pdf


MEDICINA NA PRÉ-HISTÓRIA E NA PROTO-HISTÓRIA

Esqueleto de uma mulher magdaleniana, provavelmente de 25 a 35 anos, encontrado no abrigo rochoso de Cap Blanc. Fonte:

https://fr.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9decine_dans_la_Pr%C3%A9histoire_et_la_Protohistoire

O passado é um fundo abismo onde não chegam nossas sondas

 Charles Baudelaire (1821-1867)

O conhecimento que temos das práticas médicas na pré-história e na proto-história (período que precede o surgimento da escrita e que coincide com a Idade dos Metais), é bastante limitado. 


As fontes disponíveis são dispersas (paleopatologia e etnoarqueologia) e oferecem apenas uma visão fragmentada. As hipóteses são precárias e as generalizações frágeis.


No período Paleolítico, os sapiens viviam em pequenos grupos móveis de caçadores-coletores, onde as epidemias eram raras e os traumas frequentes.

No Neolítico, com o aparecimento da agricultura, domesticação de animais, urbanização e crescimento populacional, surgiram novos riscos à saúde. 


Ao instalarem-se e reagruparem-se, os sapiens tiveram que enfrentar novas patologias. Se por um lado o armazenamento de alimentos permitiu evitar carências, por outro o estoque de cereais fez com que proliferassem os ratos, causando as pestes e doenças infecciosas. 


Essa forma de vida neolítica e proto-histórica fez com que surgissem práticas de cuidado com a saúde.


As fontes para o estudo dessas práticas são reduzidas. A principal disponível para os pesquisadores são os ossos fósseis. 


A análise dos referidos ossos permite conhecer as doenças que acometiam os homens pré-históricos, como: metástases ósseas, tuberculose, sífilis, além da detecção de redução de fraturas pelo calo ósseo, que não se forma se o movimento não for restringido. 


A ausência do calo ósseo pode, portanto, ser interpretada como ausência de procedimento médico. Por outro lado, algumas fraturas podem cicatrizar perfeitamente sem o uso de um dispositivo de imobilização.

Intervenções cirúrgicas, como trepanação ou amputações, também permitem tirar conclusões sobre as práticas médicas. 


É possível observar certos grupos étnicos na África Ocidental, e concluir sobre práticas médicas pré-históricas. Mesmo assim, essa abordagem etnoarqueológica apresenta várias dificuldades, como a diferença de clima e as grandes diferenças de práticas entre grupos étnicos.


Hoje, o uso de equipamentos sofisticados (radiologia, ressonância magnética etc.) ou novas técnicas (estudos de DNA etc.) levam a avanços notáveis ​​no conhecimento e facilitam as pesquisas de pré-historiadores especializados no estudo de patologias pré-históricas. 


Ao observarem restos ósseos de raras múmias, esses cientistas descobrem várias patologias que afetam os ossos e, em alguns casos, intervenções humanas destinadas a tratá-las.


Pierre Thillaud, professor emérito de história da medicina na faculdade de Paris-Descartes, frisou: as doenças de que padeceram nossos ancestrais são as mesmas que as nossas. 


Nada surpreendente, aliás, já que nada distingue o humano Cro-Magnon do humano do século XXI: seu organismo sofre as mesmas agressões e encontra as mesmas respostas para combatê-las. 


Obviamente, o clima e o ambiente socioecológico dos humanos pré-históricos favoreciam certas patologias em detrimento de outras, mas uma queda em um barranco sempre causava fraturas e a exposição ao parasita Plasmodium falciparum apresentava o mesmo risco de malária. 


Se as doenças fossem as mesmas, eles já sabiam como curá-las? Eles foram capazes de analisar os sintomas para identificar uma doença e tratá-la? Eles tinham médicos?


Essas são perguntas que os paleopatologistas se fazem para entender as doenças do passado e seus tratamentos.

 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Paris, 13 de maio de 2023

 


terça-feira, 18 de abril de 2023

BREVE HISTÓRIA DA ANESTESIA

 

Tela de Roberto Hinckley, 1882, primeiro procedimento cirúrgico com anestesia geral pelo éter em 16 de outubro de 1846.

Publicado no Jornal do Médico .

 Link, abaixo

https://jornaldomedico.com.br/wp-content/uploads/RD-Abril-2023.pdf

BREVE HISTÓRIA DA ANESTESIA

“Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas e fechou a carne em seu lugar; E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e levou-a a Adão”.

Gênesis 2:21-22 - Bíblia

Segundo historiadores da medicina, a primeira anestesia foi feita por Deus quando induziu um sono profundo em Adão e retirou-lhe uma costela. Portanto, Deus foi o primeiro anestesista e o primeiro cirurgião.

Sem entrar em considerações religiosas e filosóficas, limito-me a descrever uma breve história da anestesia seguindo documentos escritos.

A prática anestésica surgiu em meados do século XIX, mas o conhecimento é muito mais antigo. Entre 430 e 424 a.C., o historiador grego Heródoto de Halicarnasso relatou em seus escritos como os citas, uma tribo do “Mar Negro”, no sul da Rússia, induziam um estado de estupor ao inalar vapores de cânhamo. As inalações de vapores para entrar em estado de transe também eram praticadas pela Pítia de Delfos, guardiã do templo de Apolo. Pode-se estabelecer que o cânhamo foi o primeiro anestésico inalatório, mas este processo nunca foi usado na antiguidade para cirurgia.

Na Idade Média, os barbeiros ou cirurgiões da Escola Médica de Salerno faziam as vezes dos anestesistas. Eles causavam intensa dor e desmaios nos pacientes colocando o dedo em suas feridas ou faziam uma mistura de duas plantas, meimendro, uma planta da família das solanáceas  e o ópio. O paciente era amarrado para evitar que se movesse ao acordar e um afastador de língua era colocado para evitar que ele mordesse a língua.

No século VIII, a referida Escola de Salerno recebeu importantes textos médicos gregos referentes ao ensino da cirurgia. Os escritos gregos foram traduzidos para o árabe e chegaram ao mundo cristão por meio de uma tradução dupla. Depois de Salerno, esses conhecimentos chegaram à “Escola de Medicina de Montpellier” e daí para o resto da Europa. Os documentos dessa época relatam uma preparação anestésica aplicada através de um lenço ou esponja colocada no nariz, chamadas de “esponjas soporíficas”.

O uso de esponjas soporíferas, havia sido descrito na Antiguidade por Dioscórides, e foi usada pelo Lombardo Hugo de Lucca (Borgognoni, Ugo de Lucca 1220), cirurgião da cidade de Bolonha, e que participou das Cruzadas na Terra Santa. A Lombardia foi o centro de transmissão do conhecimento.

Na Idade Média, o médico francês Guy de Chauillac advertiu contra o uso de “esponjas soporíficas”, devido ao perigo que seu uso acarretava.  A famosa médica alemã, Santa Hildegard de Bingen, no século XII, deu remédios aos enfermos para capacitá-los a resistir as dores.

No século XIX, os derivados do ópio continuaram sendo o principal analgésico eficaz, antes do uso do sono químico geral com éter e depois com clorofórmio.

O inventor da anestesia foi o dentista americano William Thomas Green Morton (1819-1868). O grande feito aconteceu, em 1846, no anfiteatro cirúrgico do “Massachusetts General Hospital”, nos EEUU. Morton tinha idealizado um aparelho inalador de éter que foi usado durante a cirurgia de um jovem de 17 anos, Gilbert Abbot, portador de um tumor no pescoço. A cirurgia foi realizada com êxito pelo cirurgião John Collins Warren (1778-1856).

O termo anestesia foi dado pelo professor americano de anatomia e fisiologia, Oliver Wendell Holmes, em carta dirigida a William Morton. Ele designou por este termo um estado de inconsciência induzido pela inalação de gás para reduzir a dor do ato cirúrgico.

No início do século XX, a cocaína foi utilizada como anestésico local, em particular para cirurgia ocular, até ao desenvolvimento dos seus primeiros derivados sintéticos, Stovaïne de Ernest Fourneau (1904) e Novocaïne de Alfred Einhorn (1906).

Em 1867, foi realizada a primeira anestesia no Brasil, pelo médico Roberto Jorge Haddock Lobo, no Hospital Militar do Rio de Janeiro.

ana margarida furtado arruda rosemberg

Braga-Portugal 15.04.2023

 

segunda-feira, 3 de abril de 2023

ROSE E MARGÔ - Por: Ronald Teles












Dr. Ronald Teles - Cardiologista

Rose e Margô

Não há dimensões para nosso amor,

Nem barreiras no tempo,

Pois nossas almas habitam,

Os raios do sol que nos queimam aqui dentro,

Esse amor,fulcro de luz,

Rapidamente um luzeiro,

Já não cabe em nosso peito,

Que saiba o mundo inteiro,

A força de nossa paixão, 

Ela escorre por nossos olhares,

Ela está em nossas mãos e almas,

Órfãs de nossas carícias,

Ainda buscando nosso derradeiro adeus,

Que nunca acontecerá,

Pois meu beijo no beijo teu,

Decretou a imortalidade de nossos sentimentos, 

Eles nunca serão lamentos,

Posto que batem em nosso peito,

Em um coração perfeito, 

Que agora tornou-se um só.

Margô e Rose

segunda-feira, 27 de março de 2023

ENIGMA - Por: Ronald Teles

 Poema do Dr. Ronald Teles dedicado ao casal Margô e Rose


Enigma 

Teu sorriso, pelo canto do lábios, 

Tua face linda plasmada dos anjos,

Tua boca, ao fim de uma frase,

Já iniciando um olhar quase indeciso,

Gestos leves, suaves e certeiros,

Pele alva e linda,

Em comunhão com tua alma etérea,

Que busca teu exterior,

Revelando toda a beleza,

Que tens dentro de ti,

Que salta de teu coração, 

Tornando pleno quem te contempla,

Quem ainda espera,

Um fulcro de mais um sorriso,

Que tornará o sol,

Irradiando todo o paraíso, 

Ele refletirá teus olhos,

Que iluminam a estrada que preciso,

Para chegar cada vez mais perto de ti,

Me perdendo em tua face plena de perdão, revelando,

Toda a perfeição do amor,

Que eu jamais deveria sentir

quarta-feira, 22 de março de 2023

A CONQUISTA HISTÓRICA DAS MULHERES MÉDICAS

 

A CONQUISTA HISTÓRICA DAS MULHERES MÉDICAS

Historicamente a participação da mulher nas profissões ligadas à saúde, em especial à profissão de médica, foi limitada, ainda que tenha sido importante o seu papel como cuidadora. Proibida de estudar medicina, a grega Agnodice (século IV a.C.) disfarçou-se de homem.

Na Idade Média, poucos países permitiam a entrada de mulheres nas faculdades de medicina. A abadessa alemã Hildegard de Bingen (1098-1179) foi exceção e tornou-se uma médica renomada. Na Itália, séc. XI, a médica Trótula de Salerno (1050 -?) se projetou. Na França, a primeira médica foi Madeleine Brès (1842-1921), que se formou, em 1875. Na Suíça e na Rússia, as mulheres só conquistaram o direito de estudar medicina na segunda metade do século XIX. Na Alemanha, Regina von Siebold (1771-1849) foi a primeira médica.

  No Brasil, no século XIX, as mulheres que ousaram sonhar em se formar em medicina enfrentaram discriminação e preconceito. Maria Augusta Generoso Estrela (1860-1946) foi a primeira mulher brasileira a se formar em medicina, em 1881, com o apoio de D. Pedro II, mas nos EEUU. Porém, foi a gaúcha Rita Lobato Velho Lopes (1866-1954) a primeira mulher brasileira a se formar em numa escola brasileira. Ermelinda Lopes (1866-1952) e Antonieta Dias, 1889, foram também pioneiras. Nise da Silveira, alagoana, se formou em medicina na Bahia, em 1926, como única mulher em uma turma de 157 homens.

Essa proporção foi mudando e, hoje, a projeção revela que, em 2024, as mulheres serão maioria entre os médicos no Brasil. Entre os anos de 2009 e 2022, o número de mulheres passou de 133.000 para 260.000, ou seja, quase dobrou na série histórica.

Entre os homens, o crescimento foi mais lento no mesmo período, com acréscimo de cerca de 43%. Entre 2023 e 2035, o crescimento previsto entre as médicas será de cerca de 118%, enquanto, entre os homens, será de 62%. As mulheres conseguiram uma trajetória exitosa na profissão dedicada a arte de curar. 

ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 15 de março de 2023

quarta-feira, 15 de março de 2023

NISE DA SILVEIRA (1905-1999) – o afeto e a arte como terapia


Psiquiatra e pensadora alagoana Nise da Silveira 

Nise da Silveira, filha única de Faustino Magalhães da Silveira (1872-1927), professor de matemática e jornalista, e de pianista Maria Lydia da Silveira (1885-1970), nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 15 de fevereiro de 1905, e cresceu em um ambiente de amor, arte, cultura e harmonia.


Em sua cidade natal, estudou no colégio de freiras para meninas, “Santíssimo Sacramento”, concluindo o curso secundário com 15 anos de idade. De Maceió foi para Salvador fazer o curso médico na Faculdade de Medicina da Bahia.


 Em 1926, com apenas 21 anos e como a única mulher em uma turma de 157 homens, colou grau em medicina ao lado de Mário Magalhães da Silveira (1905-1986), seu primo, que tornou-se, além de um grande médico sanitarista, companheiro de sua vida inteira.


Em 1927, após a morte de seu pai, foi morar no Rio de Janeiro, onde especializou-se em neurologia e psiquiatria. Em 1933, foi trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha, depois de ser aprovada em concurso público. 


Foi presa em 1936 e solta em 1937, após permanecer 18 meses no presídio Frei Caneca, onde teve convivência com Olga Benário Prestes (1908-1942) e Graciliano Ramos (1892-1953), que a citou 41 vezes em seu livro “Memórias do Cárcere”.


Sobre a causa de sua prisão, ela falou: “Em 1936, início da ditadura Vargas, uma enfermeira do hospital, percebendo na minha mesa, em meio a livros de psiquiatria, literatura, arte, livros sobre marxismo, que eu também estudava, denunciou-me à diretoria. Na mesma noite fui presa (...). Perdi o emprego e fiquei afastada do serviço público, obtido por concurso, durante oito anos, sob a alegação de pertencer a um círculo de ideias incompatíveis com a democracia. Eu tinha contato com o Partido Comunista, mas não era uma militante política ativa”.


Em 1944, após sair da prisão e morar em vários estados do Nordeste, fugindo de novas ameaças de encarceramento, Nise retornou ao serviço público  no “Centro Psiquiátrico Pedro II”, no Engenho de Dentro.


Por discordar da literatura psiquiátrica em voga que preconizava métodos agressivos de tratamentos, como: eletroconvulsoterapia (eletrochoque), insulinoterapia, lobotomia e confinamento, Nise se negou a utilizá-los.


Discordando também da ideia de que o esquizofrênico é destituído de afetividade, ela assumiu os trabalhos de terapia ocupacional do hospital Pedro II, criando, em 1946, a “Sessão de Terapêutica Ocupacional e Recreação (STOR)”, do referido hospital.


Com uma nova abordagem, baseada no afeto, ela conseguiu penetrar no mundo hermético de seus “clientes”, como denominava seus pacientes, ajudando-os a se apropriarem da realidade. Além das oficinas de trabalho artesanal, Nise criou os ateliês de pintura e modelagem, valorizando a autonomia dos pacientes que eram, até então, usados para prestar serviços no hospital.


Incompreendida por seus pares, por buscar um caminho psicológico e não fisiológico, ela foi perseguida, ridicularizada e hostilizada.  Enfrentando muitas barreiras para levar adiante seu trabalho, ao contrário de desistir, ela ampliou seus conhecimentos sobre a linguagem da arte e o significado das fórmulas simbólicas.


Em 1952, Nise fundou o “Museu de Imagens do Inconsciente” para preservar os trabalhos dos pacientes e, alguns anos depois, fundou a “Casa das Palmeiras”, uma clínica de reabilitação para pacientes, em regime ambulatorial, para quebrar os ciclos de reinternação hospitalar. 


Em dezembro de 1954, escreveu uma carta a Carl Gustav Jung (1875-1971), psiquiatra e psicoterapeuta suíço, com fotografias de pinturas (mandalas) de seus pacientes, expondo sua experiência com a arte no tratamento dos esquizofrênicos. Recebeu em seguida uma carta de Yung reconhecendo que as mandalas eram manifestações de forças do inconsciente que tinham por finalidade compensar a dissociação esquizofrênica.


Em 1957, Nise foi estudar no Instituto C. G. Yung, em Zurique, estreitando suas relações com Yung. Em seguida participou do “II Congresso Internacional de Psiquiatria”, quando expôs obras do acervo do “Museu de Imagens do Inconsciente”.


Nise treinou monitores que atuaram com êxito na terapia ocupacional. Um de seus clientes, Emygdio de Barros (1895-1986), tornou-se um artista plástico reconhecido. Ao falecer, ele deixou um legado de 3.300 obras de arte.


Nise soube valorizar as relações dos pacientes com os animais (cães e gatos), e plantas, como parte do tratamento da esquizofrenia. Em seu livro “Imagens do Inconsciente”, ela descreve essa experiência com os animais, chamados de coterapeutas. A presença de cães no hospital provocou a revolta de médicos e culminou com o envenenamento de muitos deles.


Pioneira na zooterapia, para facilitar a reintegração social de pacientes com transtornos psiquiátricos, expôs suas teorias no livro “Gatos, A Emoção de Lidar”, publicado em 1998. Publicou outras obras, como: “Jung: vida e obra”, “Imagens do inconsciente”, “Casa das Palmeiras”, “O Mundo das Imagens”, “Cartas a Spinoza” e “Nise da Silveira”.


A inscrição de seu nome no livro de “Heróis e Heroínas da Pátria” foi vetada, em 2022, pelo então Presidente Bolsonaro. Felizmente o parlamento brasileiro derrubou o veto. Há inúmeros reconhecimentos nacionais e internacionais da obra de Nise da Silveira. O centro psiquiátrico onde ela trabalhou leva seu nome: “Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira”. Em Portugal, França, Itália e muitas cidades brasileiras há instituições inspiradas em seu trabalho.


Ferreira Gullar (1930-2016), acompanhou com fascínio a trajetória de Nise e publicou, em 1996, o livro “Nise da Silveira – uma psiquiatra rebelde”. Em 2008, o jornalista e escritor Bernardo Carneiro Horta publicou uma biografia não convencional de Nise, intitulada: “NISE – Arqueóloga dos Mares”.


Em 2016, baseado na biografia de Horta, foi lançado o filme “Nise - O Coração da Loucura”, dirigido por Roberto Berliner, com Glória Pires no papel principal.


Nise faleceu em 30 de outubro de 1999, aos 94 anos, no Rio de Janeiro, deixando como legado uma revolução no tratamento dos doentes mentais através da arte, do afeto e da solidariedade.


ana margarida furtado arruda rosemberg

Fortaleza, 14 de março de 2023








Nise da Silveira | fotos: autores desconhecidos/arquivo Nise da Silveira

Nise da Silveira | fotos: autores desconhecidos/arquivo Nise da Silveira

Foto da turma de formandos de 1926 da Universidade de Medicina da Bahia. Nise era a única mulher em uma sala de 75 alunos | foto: autor desconhecido/arquivo Nise da Silveira

Nise entre professores e alunos durante uma aula de anatomia na Faculdade de Medicina da Bahia. À esquerda de Nise está Arthur Ramos, futuro antropólogo | foto: autor desconhecido/acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasi

Fonte:

lhttps://ocupacao.icnetworks.org/ocupacao/nise-da-silveira/nise/

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61603637