Quando o manto da noite cobriu o dia 25 de maio de 2018, em Fortaleza, Ana Maria partiu para outra dimensão!
Partiu de mansinho e sem alardes, como era seu jeito de viver.
No meio da imensa saudade que deixou, ficou a triste constatação de que quanto mais vivemos mais morremos, pois a nossa verdadeira morte é a morte das pessoas que amamos.
Conheci a Ana Maria nos idos de 1969, quando ingressamos juntas na faculdade de Medicina da UFC.
Fazíamos parte do grupo das Ana (s). Éramos quatro. Eu (Ana Margarida), Ana Lúcia, Ana Maria Barbosa e ela, Ana Maria Dantas, além de duas Ângela (s): a Brito e a Vasconcelos.
Graciosa, meiga e faceira, Ana Maria nos cativou de pronto e para sempre.
Mais tarde, na década de 80, depois de abraçarmos a tisio-pneumologia, nos reencontramos no Hospital de Maracanaú.
Formávamos com a Valéria, Tânia, Nadja e Beth o grupo das seis na luta ferrenha para curar os pacientes tuberculosos.
Muito mais do que colegas de trabalho, éramos amigas. Nosso grupo desafiou o tempo. Sim, o tempo que tudo muda, transforma e destrói, não conseguiu destrui-lo e ele permanece incólume até os dias atuais.
Na década de 90, algumas trilharam caminhos diferentes na pneumologia, mas sempre unidas. Formando um grupo singular, servíamos de exemplo para os demais discípulos cearenses de Hipócrates.
Das seis, restam quatro. A primeira a partir foi a Nadja, a querida Dadá, que deixou um vazio sideral e uma saudade imensa.
Na década de 90, quando a luta contra o tabagismo no Ceará estava se consolidando, a Ana Maria compartilhou com o nosso grupo do Comitê Coordenador de Controle do Tabagismo no Brasil-Capítulo CE momentos vitoriosos na luta por um Mundo sem tabaco.
Abraçou essa causa e continuou nessa luta, ao lado da Tânia, no Hospital de Messejana até recentemente.
Finalmente, nos últimos anos, tive a imensa alegria de participar com ela do grupo político “Médicos pela Democracia”. Foram muitos os momentos vividos nessa nova trincheira de lutas.
Dividimos, também, ela e eu, momentos de enlevo apreciando exposições de arte na companhia da Beth Carvalho e da Vera Mamede. Formávamos o grupo das artes.
De grupo em grupo, minha amizade com a Ana foi se fortalecendo e se amalgamando. Desse modo, fizemos a nossa convivência nessa trajetória terrena.
Ana Maria falava dos filhos: Raquel, André e Natália e do marido, Helder, companheiro de toda a sua vida, sempre de maneira muito carinhosa.
Trocávamos ideias sobre nossas vidas e sobre política, sem restrições, como só as grandes e sinceras amizades permitem.
Perdi uma amiga de qualidades excepcionais; o Ceará perdeu uma médica que deu com altruísmo o melhor de si para curar, aliviar as dores e consolar os pacientes; o Brasil perdeu uma guerreira na luta por uma sociedade mais igualitária e justa.
Dorme em paz Ana Maria, sua missão foi nobre e seu legado será perene.
ana margarida furtado arruda rosemberg
Paris, 31 de maio de 2018.