terça-feira, 29 de outubro de 2019

POR: GILMÁRIO MOURÃO TEIXEIRA - José Rosemberg - in memoriam

             
Prof. José Rosemberg (1909-2005) (foto de 12/2002)           Dr. Gilmário Mourão Teixeira (foto de 12/2018)


                                    Texto de Gilmário Mourão Teixeira 
                                                In: Bol. Pneumol. Sanit. 2006; 14 (1):49-50

José Rosemberg                                                                               In memoriam


            Escrevo, pela terceira vez, em tempos recentes, sobre a incomparável figura do Professor José Rosemberg. Nas duas primeiras, tomado de justificada alegria – no momento de seus noventa anos e por ocasião da homenagem que lhe prestou a Sociedade Cearense de Pneumologia e Tisiologia – e, nesta, consternado por sua morte, ocorrida aos noventa e seis anos de idade, na cidade de São Paulo, no dia 24 de novembro de 2005.

Possuidor de uma cultura multiforme inspirada no humanismo filosófico, Rosemberg percorreu com desenvoltura as grandes avenidas do conhecimento – literatura, história, filosofia, artes, ciências – conteúdos que lhe permitiram encarar com independência e propriedade as profundas mutações da sociedade de seu tempo. Aficionado às artes – plásticas e música sobretudo –visitou, mundo afora, galerias, museus, salas de concerto, onde, diante de uma obra-prima, não só comprazia-se com a emoção do belo, mas, também, era capaz de vivê-la, entusiasmar-se e discorrer sobre sua motivação, construção e repercussão, bom conhecedor que era da História das Artes. Experimentei a prova desse seu pendor quando, lá atrás, no início dos anos sessenta, brindou-me com uma gravação da “Sonata ao Luar” de Beethoven, tocada no último piano que pertenceu ao compositor. Não seria demasiado inferir-se que muito de sua elegância, esmero e nobreza, traços de sua personalidade, deva-se a essa sensibilidade pelo universo das artes.

A trajetória médica de Rosemberg abarcou múltiplas áreas – clínica, magistério, pesquisa, saúde pública – em que se empenhou com inteligência e mestria sem se afastar da observação da ética, da moral e do respeito aos direitos humanos.

Exerceu a docência de medicina, ampla e ininterrupta, desde recém-formado até as vésperas de sua morte. Integrante da escola de tisiologia brasileira do século passado, ao nível de seus grandes vultos, muito cedo, ali nos albores da quimioterapia que desmantelou o arsenal terapêutico da tuberculose e reescreveu a história dessa doença, progrediu para a pneumologia onde consagrou-se no país e fora dele; a essa época, transformou sua cátedra de Tisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Católica de São Paulo, em disciplina de Tisio-pneumologia. Foi também Professor de Tisiologia da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo, e Livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, além de uma exaustiva atuação em numerosos cursos, seminários e congressos nacionais e internacionais, distinguindo-se por muitas vezes, como relator de temas oficiais ou presidente do conclave. Cabe aqui um destaque para sua inestimável participação, ao longo de muitos anos, no Curso de Pneumologia Sanitária que o Ministério da Saúde realiza anualmente, por meio do Centro de Referência Professor Hélio Fraga, em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública. O brilhantismo de suas aulas doutas e atualizadas e a fidalguia do convívio, fizeram de Rosemberg uma figura de mestre e amigo que será sempre recordada por seus colegas e alunos.

Ao introduzir-se na área da pesquisa médica o Professor Rosemberg teve o cuidado de não deixar à margem a atividade da clínica, cônscio de que a observação do doente é a fonte do que se quer perquirir na investigação. De seus trabalhos, por sua importância para a saúde coletiva, destacam-se: a comprovação, no início da década de quarenta, da tolerância da vacina BCG por indivíduos já infectados pelo bacilo de Koch, avanço que permitiu a vacinação indiscriminada, sem prova tuberculínica prévia, chamada de “vacinação direta” pela OMS; a demonstração, em companhia de Nelson Sousa Campos e Jamil N. Aun, de que a vacina provoca a positivação da reação lepromínica e exerce poder protetor contra a hanseníase; numerosos estudos, muitos deles pioneiros no país, sobre a epidemiologia e efeitos do tabagismo.

A força de combatente que habitava nele, inspirada na ação e valores morais de sua formação humanística e social, fizeram-no abraçar uma das áreas de maior impacto em medicina – a da saúde pública – onde se envolveu com empenho e abnegação em duas vertentes de grande expressão: a campanha contra a tuberculose e a luta anti-tabagismo. Aqui, a participação do sanitarista Rosemberg, foi fecunda e se fez presente ocupando destacados cargos e funções, entre muitos outros: Diretor do Instituto de Pesquisas Clemente Ferreira, Diretor da Divisão de Tuberculose da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, Superintendente da CNCT no Estado de São Paulo, Membro do Comitê Assessor em Tuberculose do Ministério da Saúde, Membro do Comitê de Peritos em Tuberculose da OMS, Conselheiro da União Internacional contra a Tuberculose, Presidente do Comitê Coordenador  do Controle do Tabagismo no Brasil, Membro do Grupo Assessor para o Controle do Tabagismo do Ministério da Saúde, Membro da Comissão de Controle do Tabagismo do Conselho Federal de Medicina, Presidente da Comissão de Tabagismo da Associação Médica Brasileira.

Não foram menores os destaques no capítulo das honrarias: condecorado com a “Palmes Academiques”, no grau de Comendador pelo Governo Francês, Diploma Pesquisa e Enriquecimento Médicos conferido pelo “College de Medicine – Centre Français d’Information Permanente de Medicine, Medalha “Tabaco e Saúde” da OMS, Medalha “Anchieta” e Diploma “Gratidão da Cidade de São Paulo”, dados pela Câmara Municipal de São Paulo, Medalha “Memória da Tuberculose” outorgada pela Casa de Oswaldo Cruz e Centro de Referência Professor Hélio Fraga, Diploma “Mérito pela Valorização da Vida” concedido pela Secretaria Nacional Anti-Drogas da Presidência da República, Acadêmico Emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

No que concerne a publicações, a produção científica do Professor Rosemberg situou-se entre as mais ricas: autor de 14 livros, dois deles com a participação de colaboradores, co-autor de quatro outros livros e autor isolado ou principal de 122 artigos publicados em revistas médicas especializadas nacionais e estrangeiras; merece destaque que seu livro “Tabagismo – Sério Problema de Saúde Pública”, foi laureado pela Academia Nacional de Medicina.

Essa foi a impoluta figura de cidadão, médico, professor, pesquisador que a Medicina Brasileira acaba de perder. Uma perda pesada que tardará em ser reposta nos quadros atuais da atividade médica do país. Mas, imensurável foi a perda representada pelo sentimento de falta e saudade que a ausência de Rosemberg deixou em seus familiares e em nós, seus amigos e companheiros de lutas ao longo de tantos anos.

Rosemberg deixou dois filhos: Ivan Rosemberg, economista, de seu primeiro casamento com Benedita Rosemberg, falecida, e Sergio Rosemberg, médico neuro-patologista, do segundo casamento com Iracema Azevedo, já falecida; sobreviveu-lhe também, sua esposa, nossa dileta colega, a pneumologista Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg que conclui agora o Mestrado em História na PUC-São Paulo, tendo como tema de dissertação “A Peste Branca e  Liga Paulista Contra a Tuberculose – 1899-1950”.


 



 



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