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domingo, 29 de janeiro de 2017

MARISA LETÍCIA É LULA

Dr. Valton Miranda - Psiquiatra*

Por: Valton Miranda 

Creio que Marisa Letícia é a única mulher operária que se tornou primeira-dama nesse país de cultura patrimonialista e consciência social escravocrata. A eleição do seu marido Luiz Inácio Lula da Silva, um torneiro mecânico e gênio político consagrado no mundo interiro, nunca foi tolerada por esta cultura da imbecilidade rancorosa e odienta contra negros, pobres e mulheres, principalmente aquelas que não se vestem com roupas de grife.
A sociocultura nazifascista que toma conta do país despreza a população que fica abaixo da linha mediana da classe média, tentando afirmar uma suposta e mentirosa superioridade moral e cognitiva, que segundo sua visão míope, o dinheiro de pluto dá origem pela mágica do contato com o ouro. Tais idiotas úteis à ditadura jurídico-congressual que se instalou no Brasil vão à porta dos hospitais hostilizar qualquer líder de esquerda doente ou moribundo, com cartazes que aconselham a medicina cubana ou atendimento no SUS.

É essa gente de consciência trumpiana que sempre teve os olhos voltados para Miami ou Orlando, que faz plantão na porta do hospital Sírio Libanês, onde Marisa Letícia está internada em coma induzido, para praticar o seu culto ao ódio.
É esse processo anticivilizatório que se espalha pelo mundo como lava fumegante da bestialidade humana. O problema dessas pessoas tem um viés político fundamental, pois nunca aceitaram um pobre e vitorioso presidente da república nordestino, que se candidato em 2018, certamente ganhará a eleição para gáudio do pensamento socialista e profunda tristeza destes hipócritas da moral.

Postado por Valton Miranda no Blog do Valton Miranda em 1/28/2017 09:14:00 AM

* Valton Miranda por ele mesmo 
Eu me defino como militante socialista e psicanalista freudo-kleino-bioniano com formação prática e teórica nos dois ramos do saber. Minha cultura humanística adquirida ao longo dos embates políticos e ideológicos que alcançaram seu apogeu com o golpe de 64 e subsequente luta contra a ditadura militar levaram-me à reflexão permanente sobre a conexão entre o mundo interno da mente humana e as contradições vividas na sociedade e na cultura. Minha reflexão levou-me à idéia de que a política tem um motor paranóico impossibilitando juntamente com os interesses de classes a consecução pelo homem da justiça e do bem. Finalmente me caracterizo como pensador radical, sem sectarismo, para quem a sociedade capitalista contemporânea se exprime pela afanosa busca do fetiche consumista.  


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

“GARAPA” – A FOME EM MOVIMENTO

     
                              “GARAPA” – A FOME EM MOVIMENTO

“Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar
   Sabe lá, Sabe lá”.
Esquinas - Djavan

Ontem, ao entrar no grupo do ZAP “Filhos Edgy e Adelina”, me deparei com a postagem, de minha irmã Clêide, do link para acessar ao documentário de José Padilha, intitulado “Garapa”. Fui logo atraída pelo nome.
Aprendi, durante a minha graduação em História na PUC-SP, que diante de um livro, texto, obra de arte ou filme, devemos fazer os seguintes questionamentos: Quem produziu? Quando produziu? Por que produziu? Seguindo essa orientação, descobri que “Garapa” é um documentário produzido pelo cineasta José Padilha, em 2009, e tem como tema a fome no Mundo. É fruto de mais de 45 horas de filmagem durante quatro semanas, por uma equipe que acompanhou o cotidiano de três famílias cearenses em estado de insegurança alimentar.
Segundo meu marido Rosemberg, filme se escolhe pelo cineasta. Assim sendo, resolvi ver “Garapa”.
Roteirista, documentarista e produtor cinematográfico, José Bastos Padilha Neto, nascido em 01/08/1967, é graduado em administração de empresas e estudou Política Internacional em Oxford, Inglaterra. Estreou no cinema, em 2002, com o premiado “Ônibus 174”.
Em 2007, José Padilha consagrou-se com o filme “Tropa de Elite”, premiado no festival de Berlim, em 2008, com o “Urso de Ouro” de melhor filme.
Em 2010, foi lançado o Tropa de Elite 2, também sucesso de crítica e público. Entre as duas “Tropas”, José Padilha produziu “Garapa”.
Tratando sempre de temas sociais, Padilha nos mostra a exclusão social, a violência e a fome, respectivamente, em: "Ônibus 174", "Tropa de Elite" e "Garapa", suas primeiras produções cinematográficas.
Padilha sacode seu público, o de classe média alta, jogando na cara verdades escamoteadas pela sociedade. Em “Tropa de Elite”, ele mostra que o consumidor de drogas é também responsável pela violência do tráfico. Em “Garapa”, ele escancara que a sociedade negligencia o problema da fome que ainda atinge grande parte da população brasileira.
Segundo dados do site Portal Brasil, publicados em maio de 2015, a desnutrição no Brasil está em torno de 7%. Número inconcebível para um dos maiores produtores de alimentos do Mundo. Entretanto, confrontando os índices de crianças menores de cinco anos com baixo peso, verificamos, no referido portal, que caiu de 7,1%, em 1989, para 1,8%, em 2006.
Em 2013, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), mostrou que o Brasil conseguiu reduzir a pobreza extrema. Apresentado como um dos casos mundiais de sucesso na redução da fome, o Brasil, no entanto, ainda tem mais de 16 milhões de pessoas vivendo na pobreza: 8,4% da população brasileira vive com menos de US$ 2 por dia.
A fome é quase sempre retratada em números frios ou imagens estáticas. Fotos de crianças desnutridas de países africanos chocam profundamente, mas são imagens congeladas. Vemos a fome congelada. Não a sentimos na pele. Ela é parada, não se move.
Cândido Portinari, pintor brasileiro, em 1944, retratou a fome em uma de suas mais belas telas, “Os Retirantes”, mostrando os fugitivos da seca nordestina, uma realidade social invisível, na década de 1940.
Cristóval Rojas, pintor venezuelano, em 1886, plasmou a fome, a doença e a morte, no quadro “A Miséria”, uma das mais tocantes telas já produzidas. Centenas de obras de arte mostram a fome imóvel.
“GARAPA” mostra a FOME em movimento. “GARAPA” é um soco no estômago do espectador.  O título do documentário vem do hábito de mães de família, na falta de leite, prepararem uma infusão de água com açúcar para enganar a fome das crianças.
Entre os 12 milhões de brasileiros que, em 2008, segundo dados da ONU*, passavam fome no Brasil, Padilha selecionou três famílias cearenses que viviam em condições sub-humanas, miseravelmente, em moradias insalubres e travavam uma batalha insana e diária em busca da sobrevivência alimentar.
Padilha consegue com o seu documentário, mostrar a fome por dentro e nos toca pelo o que tem de doloroso. Acompanhar o dia a dia dessas famílias que, como no mito grego de Sísifo**, a cada dia com o nascer do sol, saem em busca de encontrar algum alimento para nutrir-se e recomeçar tudo de novo no dia seguinte é exasperante.
Assim, vive boa parte da população brasileira. Além da falta de alimentos existe carência do básico para uma vida digna. Faltam saúde, roupa, higiene, moradia digna e educação. Para completar, o alcoolismo, sério problema social, agrava o quadro de miséria dessas famílias. O filme é captado em preto e branco, sem música e mostra a condição penosa dessas famílias repetidamente até a exaustão. “GARAPA” denuncia na telona, através da arte, uma situação que a maior parte dos brasileiros desconhece. Essa denúncia é dirigida às pessoas de classe média alta e classe rica que têm suas necessidades básicas asseguradas e não acordam preocupadas com o que vão comer ao longo do dia.
O documentário representou o Brasil no Festival Internacional do filme de Berlim, em 2009. O filme começa com uma citação de Josué de Castro sobre a fome e se encerra com a estimativa de que, durante o tempo da sessão, "1.400 crianças morreram de causas relacionadas à fome ao redor do mundo".
Um pesado silêncio acompanhou o fim da projeção do filme, no festival de Berlim, e um tempo foi dado para que o público digerisse o filme. Padilha frisou que “GARAPA” não é um filme local, já que situações semelhantes se repetem na China, na Índia, na África, onde o problema da fome atinge expressivas parcelas da população. O público quis saber sobre o programa Fome Zero, mencionado no longa. Padilha disse que a iniciativa federal alcançou bons resultados no combate à fome e explicou que o programa dá dinheiro as pessoas muito pobres.
Quando questionado sobre por que filmou "GARAPA" em preto e branco, ele respondeu: "Decidimos tirar do filme tudo que não fosse fundamental".
Na avaliação de Padilha, GARAPA é o mais universal de seus filmes, pois reúne valores universais, como o fato de a mulher ser o esteio da família em situação de insegurança alimentar grave e de o alcoolismo predominar entre os homens desses grupos.
Padilha avaliou que a fome é o mais grave problema social da humanidade e repisou cifras citadas no filme: "A solução do problema da fome exigiria um investimento de US$ 30 bilhões por ano; em 2008 o mundo gastou US$ 1,5 trilhão em armas. Acho que isso diz muito sobre a raça humana".

Ana Margarida Arruda Rosemberg

Fortaleza, 26 de janeiro de 2017

*A reportagem publicada pela Folha de São Paulo, em dezembro de 2014, mostra que a fome caiu 1,8 ponto percentual no país entre 2009 a 2013, segundo o suplemento sobre segurança alimentar da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgado pelo IBGE. Em números absolutos, 2,1 milhões de lares, nos quais vivem 7,2 milhões de pessoas, tinham pelo menos um de seus moradores em estado de insegurança alimentar grave em 2013.

** Sísifo, por contrariar os deuses, recebeu uma punição exemplar: rolar diariamente uma pedra montanha acima até o topo. Ao chegar ao topo, o peso e o cansaço promovidos pela fadiga fariam a pedra rolar novamente até o chão e no outro dia ele deveria começar tudo novamente e assim para todo o sempre. Essa punição era um modo de envergonhar Sísifo por sua esperteza e habilidade usadas para tramar contra os deuses.
   







sábado, 14 de janeiro de 2017

DISCURSO DE POSSE DE FLÁVIO LEITÃO NA ACL 10/01/2017

DISCURSO DE POSSE DE FLÁVIO LEITÃO NA ACL

Tomou posse como titular da cadeira 34 da Academia Cearense de Letras (ACL), o médico neurologista Flávio Leitão, dia 10/01/2017, às 19h.
A solenidade aconteceu na sede da ACL, no Palácio da Luz, na Rua do Rosário, em Fortaleza-CE e foi presidida pelo acadêmico José Augusto Bezerra. 
O novo imortal, que foi saudado por Pedro Paulo Montenegro,  nos brindou com um discurso primoroso, postado acima em PDF.












segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A CAIXA DE PANDORA PARA 2017

                                A CAIXA DE PANDORA PARA 2017
Hoje se avizinha os últimos lampejos do ano que insiste em não acabar. O ano que tantas mazelas trouxe para o nosso povo sofrido. 
Contemplando-o me vem à mente um texto que decorei nos idos de 1964, quando mal entrara na adolescência e nada sabia das agruras da vida. 
As freiras do convento de Santa Rosa de Viterbo, em Fortaleza, me fizeram memorizar dois textos: o primeiro falava do Ano Velho e o segundo do Ano Novo. Deveria declamá-los olhando para uma personagem vestida de velho e outra de menino, em um drama encenado na passagem do ano. 
Mal sabia na época que mais de meio século depois iria repeti-los olhando para 2016 e 2017. 
Não sei de quem são os textos, mas, provavelmente, de alguma freira que os escreveu para a ocasião. Caem como uma luva hoje, na passagem do ano, e eu fui buscá-los em algum recanto de minha memória. Encontrei-os desbotados e empoeirados. Retirei cuidadosamente a pátina do tempo e os vislumbrei assim:

“Velhinho desiludido, cuja cabeleira ao sol, na sucessão dos dias e das noites, transformou-se na melancolia romântica do luar. Eu não terei saudades de ti, velhinho desiludido e mal, quando morreres. Curva a tua fronte aureolada de cabelos brancos e contempla da altura de tua onipotência o rastilho de sombras que a tua passagem deixou. Quantas paixões semeastes em meio a tua trajetória de 365 dias apenas! Quantos corações, oásis de sonhos verdes no deserto escaldante da vida, esmagastes sem compaixão e sem pena ao peso da desilusão mais atroz? Onde existia a iluminura de um sorriso, quantas vezes deixastes, velhinho sem coração, o poema cristalizado da dor, uma lágrima. Não sentirás por ventura remorsos de teus crimes? Será que nascestes sem alma, como o sol de minha terra que ri da desgraça de meu povo? Escuta uma clarineta de satisfação e de júbilo que prenuncia a tua morte e o teu desaparecimento. Mas, antes que desapareças para nunca mais, ajoelha-te e molha esses lábios já murchos, onde nunca esvoaçou a alegria de um sorriso bom no cântaro purificador do arrependimento. Ajoelha-te e implora um pouco de perdão para os teus erros e teus pecados. Apesar de todos os teus crimes, a minh’alma é diferente de tua alma e o meu coração é diferente do teu coração. Em um gesto largo de renúncias, eu te perdoo na hora emocional de teus últimos lampejos. Eu te perdoo e prometo esquecer todo o mal que me trouxeram os teus dias sem sol e as tuas noites sem estrelas”.

Como diria Freud, tudo fica gravado em nossa memória. Assim, consegui resgatar esse texto, que recitei olhando para o ano de 1964. O outro texto que se referia ao ano de 1965, ficou borrado, mas ainda me lembro do início:


 “Menino bonitinho, de olhos azuis e faces cor de aurora, que trazes nas mãozinhas rechonchudas...

Por mais que vasculhe os recantos de minha memória, não lembro o que o menino bonitinho trazia nas mãozinhas rechonchudas. Por isso, resolvi completar o texto olhando para 2017. 

No mito greco-romano da criação, Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus. A ela foi dada uma caixa com os males do mundo. Pandora, não contendo a sua curiosidade, abriu a caixa, deixando escapar todos os males, mas ficou a esperança. 
Vislumbrando o alvorecer de 2017, citarei o texto dizendo que o garotinho trazia nas mãos a caixa de Pandora com a esperança. Esperança de que 2017 seja um ano de muita solidariedade entre os povos. Que a humanidade encontre um caminho para trilhar em comunhão. Que a paz, a tolerância e o amor reinem entre os povos. 
Que a esperança de Pandora nos dê coragem para lutar por um mundo melhor. Um mundo mais humano, fraterno e justo.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Guaramiranga-CE, 31 de dezembro de 2016.