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quarta-feira, 14 de junho de 2017

POR: MANOEL FONSÊCA


Dr. Manoel Dias da Fonsêca Neto - Membro do movimento "Médicos pela Democracia"

Concordo que Lula é a maior liderança da esquerda, no momento, mas pondero que o apoio a ele não pode ser incondicional. Na verdade, se houvesse outra liderança que reunisse as condições de, numa frente ampla da centro-esquerda, derrotar a direita, talvez fosse melhor para o momento politico que vivemos, conflituoso, com polarização exarcebada contra e a favor do Partido dos Trabalhadores e em relação ao proprio Lula.
Lula é a maior liderança viva da esquerda, com uma história de vida extraordinária e uma capacidade de comunicação com o povo iniqualavel no momento. Traz, em sua bagagem, a experiência de um sindicalista ousado e comprometido com os trabalhadores. E afeito à negociação sindical. Sua visão do ganha-ganha, ou seja, de todos ganharem em seu governo, patrões, trabalhadores e banqueiros ( e estes muito, muito mais que os outros), reflete uma certa conciliação de classe, que permite ganhos básicos e, sem dúvida, importantes para os trabalhadores e despossuidos, mas não avança nas reformas estruturais, que levariam a tensões e consequentes avanços no processo de fortalecimento de consciência de classe e no movimento no sentido de uma sociedade socialista. Lula foi, temos que reconhecer, pouco incisivo em relação à reforma agrária, à violencia no campo, ao uso criminoso de agrotóxico e expansão desordenada e predatória das fronteiras agricolas. Não mexeu em pontos cruciais de um programa de um governo democrático e popular, como a reforma fiscal, o que na prática penaliza a classe média, que paga imposto de renda na folha de salário, enquanto as grandes fortunas, o empresariado, com as isenções fiscais, e o capital financeiro foram todos beneficiados. A reforma urbana limitou-se à “minha casa, minha vida”, importantissima, mas quase sempre deslocando os pobres mais ainda para a periferia. O combate à especulção imobiliaria, a mobilidade urbana, o ordenamento e padrões de construções, a preservação do meio ambiente urbano, o saneamento básico, foram incentivados com muita timidez.
Embora houvesse uma ampliação justa do acesso à unversidade, com mais vagas, cotas, financiamento, no ganha-ganha transferiu-se recursos públicos para o setor empresarial da educação, o que permitiu a expansão desordenada e, muitas vezes, desqualificada de faculdades. E, o mais grave, não se fez a revolução libertadora do conhecimento, na visão de Paulo Freire, e a educação continuou bancária, autoritária, unidirecional, estimuladora da competição e não da solidariedade, da violencia e não de uma cultura de paz, do preconceito e não do reconhecimento e aceitação das diferenças, do aprendizado “meritocrático” e não aquele mediado pelas relações humanas. Na reforma politica é que a omissão foi maior, o que favoreceu práticas tradicionais abusivas, patrimonialistas, corruptoras de consciencias. Em relação à cultura, pedra de toque da consciência cidadã, do sentimento de pertensa, da solidariedade coletiva e de atitudes e condutas nas relações humanas, na relação com a natureza e no trato com a coisa pública, houve uma omissão preocupante e desastrosa, associada com a completa timidez em criar mecanismos efetivos, amplos, comunitários de comunicação de massa, que fortalecessem o debate politico franco, democrático e libertador. Se precisarmos, mais uma vez, apoiar e votar em Lula, por sua capacidade de resistência, por ser um lider que alcançou o “inconciente coletivo” do povo como o verdadeiro “pai dos pobres”, iremos sim apoiá-lo com toda nossa capacidade de mobilização, de todas as formas possiveis, mas não podemos abrir mão do debate honesto e fraterno na perspectiva da construção de uma sociedade justa e solidária, na construção de um caminho rumo a uma sociedade socialista.


Manoel Fonsêca
Fortaleza, 12/06/2017

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