Google+ Followers

quinta-feira, 29 de junho de 2017

POR: LIANA ARRUDA - MEU PAI




Foi ele quem escolheu o meu nome. Quando grávida, minha mãe, após assistir a um filme que a deixou emocionada, disse "se for menina, vai se chamar Tess". "De jeito nenhum! Minha filha não vai ter nome de cachorro", contam-me, foi a resposta dele.
Quando nasci, ele não estava trabalhando, e foi quem ficou em casa, comigo. Talvez por isso (por esta maior convivência), ouvi, muitas vezes, ainda criança, dele e de terceiros, que eu era a filha preferida.
Era ele quem me ouvia, sempre. Sem interromper. Com atenção. Mesmo quando já não morava conosco. As ligações eram intermináveis, sobre os mais diversos assuntos. Lembro-me de uma vez que ouvi um barulho, no apartamento em que morava, e fiquei com medo. Eu havia escutado histórias de espíritos, horas antes. Já era madrugada. Liguei pra ele, que me atendeu com a atenção de sempre e disse, enfaticamente, que a gente tinha que ter medo era dos vivos e que não existia nada após a morte. "Tem certeza, pai?". "Tenho certeza absoluta!", respondeu ele. Pronto. Não só o meu medo passou, como tornei-me a incrédula que sou hoje, a partir daquele momento, tão grande era a confiança que eu tinha nele.
Foi ele quem me ensinou a gostar de praia, de farofa, de caranguejo, de água de côco. Era ele quem fazia casquinhas pra mim (e me dava todas as patas grandes!). Foi ele quem me ensinou que nada como um banho de mar ("mas tenha cuidado! Ele pode ser traiçoeiro"). Foi ele quem me ensinou a boiar...
Foi ele quem me ensinou a tomar café sem açúcar. Foi ele quem me pediu pra levar café escondido, quando ele esteve internado, há 5 anos (e eu levei). Foi ele quem me ensinou a sempre prestar atenção ao que eu fosse comer (e a mastigar bastante. "trinta vezes!", dizia ele).
Foi ele quem pintou comigo, no muro de sua casa, bem grande "LIANA TE AMA". Tinta azul, sua cor preferida.
Era ele quem respondia a um "que horas são?" olhando pra um relógio imaginário, no pulso. Ou para o céu... E quase sempre acertava!
Foi ele quem me ensinou a gostar de rede, a pegar coisas com os pés, a estalar os dedos, a jogar dama, a sentar de pernas cruzadas (com os pés embaixo delas), a não ter medo de lagartixas (ele até dava nomes para algumas que moravam em sua casa).
Foi ele quem conversou comigo sobre sexo, durante minha pré-adolescência. Foi ele quem respondeu, no meu disparate, sem tabus, que sexo era bom em qualquer hora e em qualquer posição. Foi ele, leitor assíduo que era, quem me deu Paulo Freire e Gaiarsa...
Era ele quem dirigia pra mim, sempre que eu não podia. Era ele quem formatava meu computador. Era quem viajava comigo pra Aratuba, toda semana, nos meus tempos de trabalho no interior. Era ele quem competia comigo pra ver quem tinha um melhor alongamento (e, em algumas posições, era ele quem ganhava).
Foi ele quem me ensinou a importância de ter sempre algum dinheiro guardado, por segurança (essa parte eu não aprendi direito. E ele se preocupava).
Era ele quem sentava no chão pra brincar com meus filhos. Era ele quem os pegava pela mão e ia catar conchinhas na areia. Era ele quem cuidava, sempre que eu viajava. Deixava e buscava na escola. Fazia companhia. Fazia até supermercado, se fosse preciso.
Foi ele quem realmente se fantasiou pra ir ao aniversário de 6 anos do neto (enquanto todos os outros adultos só colocamos acessórios).
Foi ele quem me ensinou que tempo não é dinheiro, coisa nenhuma. Tempo é muito mais importante do que isso. "Tempo é vida!", ele dizia. E isso não tem preço.
Ainda não consigo acreditar que ele nunca mais vai chegar aqui, assobiando e arrastando os pés (jeito único, de se anunciar e, ao mesmo tempo, não ser invasivo. Ele não era nada invasivo. Nunca o vi bater a uma porta do jeito tradicional. Era com a ponta dos dedos que ele batia).
Depois de perder avós e tios(as) queridos(as), depois de perder uma gravidez, depois de passar por separação, eu achava que sabia o que era dor e sofrimento. Não, eu não sabia. Até encontrar o meu pai morto, sozinho (e sozinha), eu sequer imaginava. Só eu sei o que perdi, com a perda dele.
Ele nunca pedia nada. Tinha horror a dar trabalho. E realmente não deu. Nem no final...
Eu queria e devia ter feito tão mais por ele! Não há mais tempo...
Quisera eu ter "ouvido" melhor a música que agora reverbera, sem descanso, na minha cabeça:
"Segura teu filho no colo
Sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir..."
Vá em paz, meu querido! A dor, a saudade e o amor ficarão. Para todo o sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário