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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

“GARAPA” – A FOME EM MOVIMENTO

     
                              “GARAPA” – A FOME EM MOVIMENTO

“Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar
   Sabe lá, Sabe lá”.
Esquinas - Djavan

Ontem, ao entrar no grupo do ZAP “Filhos Edgy e Adelina”, me deparei com a postagem, de minha irmã Clêide, do link para acessar ao documentário de José Padilha, intitulado “Garapa”. Fui logo atraída pelo nome.
Aprendi, durante a minha graduação em História na PUC-SP, que diante de um livro, texto, obra de arte ou filme, devemos fazer os seguintes questionamentos: Quem produziu? Quando produziu? Por que produziu? Seguindo essa orientação, descobri que “Garapa” é um documentário produzido pelo cineasta José Padilha, em 2009, e tem como tema a fome no Mundo. É fruto de mais de 45 horas de filmagem durante quatro semanas, por uma equipe que acompanhou o cotidiano de três famílias cearenses em estado de insegurança alimentar.
Segundo meu marido Rosemberg, filme se escolhe pelo cineasta. Assim sendo, resolvi ver “Garapa”.
Roteirista, documentarista e produtor cinematográfico, José Bastos Padilha Neto, nascido em 01/08/1967, é graduado em administração de empresas e estudou Política Internacional em Oxford, Inglaterra. Estreou no cinema, em 2002, com o premiado “Ônibus 174”.
Em 2007, José Padilha consagrou-se com o filme “Tropa de Elite”, premiado no festival de Berlim, em 2008, com o “Urso de Ouro” de melhor filme.
Em 2010, foi lançado o Tropa de Elite 2, também sucesso de crítica e público. Entre as duas “Tropas”, José Padilha produziu “Garapa”.
Tratando sempre de temas sociais, Padilha nos mostra a exclusão social, a violência e a fome, respectivamente, em: "Ônibus 174", "Tropa de Elite" e "Garapa", suas primeiras produções cinematográficas.
Padilha sacode seu público, o de classe média alta, jogando na cara verdades escamoteadas pela sociedade. Em “Tropa de Elite”, ele mostra que o consumidor de drogas é também responsável pela violência do tráfico. Em “Garapa”, ele escancara que a sociedade negligencia o problema da fome que ainda atinge grande parte da população brasileira.
Segundo dados do site Portal Brasil, publicados em maio de 2015, a desnutrição no Brasil está em torno de 7%. Número inconcebível para um dos maiores produtores de alimentos do Mundo. Entretanto, confrontando os índices de crianças menores de cinco anos com baixo peso, verificamos, no referido portal, que caiu de 7,1%, em 1989, para 1,8%, em 2006.
Em 2013, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), mostrou que o Brasil conseguiu reduzir a pobreza extrema. Apresentado como um dos casos mundiais de sucesso na redução da fome, o Brasil, no entanto, ainda tem mais de 16 milhões de pessoas vivendo na pobreza: 8,4% da população brasileira vive com menos de US$ 2 por dia.
A fome é quase sempre retratada em números frios ou imagens estáticas. Fotos de crianças desnutridas de países africanos chocam profundamente, mas são imagens congeladas. Vemos a fome congelada. Não a sentimos na pele. Ela é parada, não se move.
Cândido Portinari, pintor brasileiro, em 1944, retratou a fome em uma de suas mais belas telas, “Os Retirantes”, mostrando os fugitivos da seca nordestina, uma realidade social invisível, na década de 1940.
Cristóval Rojas, pintor venezuelano, em 1886, plasmou a fome, a doença e a morte, no quadro “A Miséria”, uma das mais tocantes telas já produzidas. Centenas de obras de arte mostram a fome imóvel.
“GARAPA” mostra a FOME em movimento. “GARAPA” é um soco no estômago do espectador.  O título do documentário vem do hábito de mães de família, na falta de leite, prepararem uma infusão de água com açúcar para enganar a fome das crianças.
Entre os 12 milhões de brasileiros que, em 2008, segundo dados da ONU*, passavam fome no Brasil, Padilha selecionou três famílias cearenses que viviam em condições sub-humanas, miseravelmente, em moradias insalubres e travavam uma batalha insana e diária em busca da sobrevivência alimentar.
Padilha consegue com o seu documentário, mostrar a fome por dentro e nos toca pelo o que tem de doloroso. Acompanhar o dia a dia dessas famílias que, como no mito grego de Sísifo**, a cada dia com o nascer do sol, saem em busca de encontrar algum alimento para nutrir-se e recomeçar tudo de novo no dia seguinte é exasperante.
Assim, vive boa parte da população brasileira. Além da falta de alimentos existe carência do básico para uma vida digna. Faltam saúde, roupa, higiene, moradia digna e educação. Para completar, o alcoolismo, sério problema social, agrava o quadro de miséria dessas famílias. O filme é captado em preto e branco, sem música e mostra a condição penosa dessas famílias repetidamente até a exaustão. “GARAPA” denuncia na telona, através da arte, uma situação que a maior parte dos brasileiros desconhece. Essa denúncia é dirigida às pessoas de classe média alta e classe rica que têm suas necessidades básicas asseguradas e não acordam preocupadas com o que vão comer ao longo do dia.
O documentário representou o Brasil no Festival Internacional do filme de Berlim, em 2009. O filme começa com uma citação de Josué de Castro sobre a fome e se encerra com a estimativa de que, durante o tempo da sessão, "1.400 crianças morreram de causas relacionadas à fome ao redor do mundo".
Um pesado silêncio acompanhou o fim da projeção do filme, no festival de Berlim, e um tempo foi dado para que o público digerisse o filme. Padilha frisou que “GARAPA” não é um filme local, já que situações semelhantes se repetem na China, na Índia, na África, onde o problema da fome atinge expressivas parcelas da população. O público quis saber sobre o programa Fome Zero, mencionado no longa. Padilha disse que a iniciativa federal alcançou bons resultados no combate à fome e explicou que o programa dá dinheiro as pessoas muito pobres.
Quando questionado sobre por que filmou "GARAPA" em preto e branco, ele respondeu: "Decidimos tirar do filme tudo que não fosse fundamental".
Na avaliação de Padilha, GARAPA é o mais universal de seus filmes, pois reúne valores universais, como o fato de a mulher ser o esteio da família em situação de insegurança alimentar grave e de o alcoolismo predominar entre os homens desses grupos.
Padilha avaliou que a fome é o mais grave problema social da humanidade e repisou cifras citadas no filme: "A solução do problema da fome exigiria um investimento de US$ 30 bilhões por ano; em 2008 o mundo gastou US$ 1,5 trilhão em armas. Acho que isso diz muito sobre a raça humana".

Ana Margarida Arruda Rosemberg

Fortaleza, 26 de janeiro de 2017

*A reportagem publicada pela Folha de São Paulo, em dezembro de 2014, mostra que a fome caiu 1,8 ponto percentual no país entre 2009 a 2013, segundo o suplemento sobre segurança alimentar da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgado pelo IBGE. Em números absolutos, 2,1 milhões de lares, nos quais vivem 7,2 milhões de pessoas, tinham pelo menos um de seus moradores em estado de insegurança alimentar grave em 2013.

** Sísifo, por contrariar os deuses, recebeu uma punição exemplar: rolar diariamente uma pedra montanha acima até o topo. Ao chegar ao topo, o peso e o cansaço promovidos pela fadiga fariam a pedra rolar novamente até o chão e no outro dia ele deveria começar tudo novamente e assim para todo o sempre. Essa punição era um modo de envergonhar Sísifo por sua esperteza e habilidade usadas para tramar contra os deuses.
   







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