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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A CAIXA DE PANDORA PARA 2017

                                A CAIXA DE PANDORA PARA 2017
Hoje se avizinha os últimos lampejos do ano que insiste em não acabar. O ano que tantas mazelas trouxe para o nosso povo sofrido. 
Contemplando-o me vem à mente um texto que decorei nos idos de 1964, quando mal entrara na adolescência e nada sabia das agruras da vida. 
As freiras do convento de Santa Rosa de Viterbo, em Fortaleza, me fizeram memorizar dois textos: o primeiro falava do Ano Velho e o segundo do Ano Novo. Deveria declamá-los olhando para uma personagem vestida de velho e outra de menino, em um drama encenado na passagem do ano. 
Mal sabia na época que mais de meio século depois iria repeti-los olhando para 2016 e 2017. 
Não sei de quem são os textos, mas, provavelmente, de alguma freira que os escreveu para a ocasião. Caem como uma luva hoje, na passagem do ano, e eu fui buscá-los em algum recanto de minha memória. Encontrei-os desbotados e empoeirados. Retirei cuidadosamente a pátina do tempo e os vislumbrei assim:

“Velhinho desiludido, cuja cabeleira ao sol, na sucessão dos dias e das noites, transformou-se na melancolia romântica do luar. Eu não terei saudades de ti, velhinho desiludido e mal, quando morreres. Curva a tua fronte aureolada de cabelos brancos e contempla da altura de tua onipotência o rastilho de sombras que a tua passagem deixou. Quantas paixões semeastes em meio a tua trajetória de 365 dias apenas! Quantos corações, oásis de sonhos verdes no deserto escaldante da vida, esmagastes sem compaixão e sem pena ao peso da desilusão mais atroz? Onde existia a iluminura de um sorriso, quantas vezes deixastes, velhinho sem coração, o poema cristalizado da dor, uma lágrima. Não sentirás por ventura remorsos de teus crimes? Será que nascestes sem alma, como o sol de minha terra que ri da desgraça de meu povo? Escuta uma clarineta de satisfação e de júbilo que prenuncia a tua morte e o teu desaparecimento. Mas, antes que desapareças para nunca mais, ajoelha-te e molha esses lábios já murchos, onde nunca esvoaçou a alegria de um sorriso bom no cântaro purificador do arrependimento. Ajoelha-te e implora um pouco de perdão para os teus erros e teus pecados. Apesar de todos os teus crimes, a minh’alma é diferente de tua alma e o meu coração é diferente do teu coração. Em um gesto largo de renúncias, eu te perdoo na hora emocional de teus últimos lampejos. Eu te perdoo e prometo esquecer todo o mal que me trouxeram os teus dias sem sol e as tuas noites sem estrelas”.

Como diria Freud, tudo fica gravado em nossa memória. Assim, consegui resgatar esse texto, que recitei olhando para o ano de 1964. O outro texto que se referia ao ano de 1965, ficou borrado, mas ainda me lembro do início:


 “Menino bonitinho, de olhos azuis e faces cor de aurora, que trazes nas mãozinhas rechonchudas...

Por mais que vasculhe os recantos de minha memória, não lembro o que o menino bonitinho trazia nas mãozinhas rechonchudas. Por isso, resolvi completar o texto olhando para 2017. 

No mito greco-romano da criação, Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus. A ela foi dada uma caixa com os males do mundo. Pandora, não contendo a sua curiosidade, abriu a caixa, deixando escapar todos os males, mas ficou a esperança. 
Vislumbrando o alvorecer de 2017, citarei o texto dizendo que o garotinho trazia nas mãos a caixa de Pandora com a esperança. Esperança de que 2017 seja um ano de muita solidariedade entre os povos. Que a humanidade encontre um caminho para trilhar em comunhão. Que a paz, a tolerância e o amor reinem entre os povos. 
Que a esperança de Pandora nos dê coragem para lutar por um mundo melhor. Um mundo mais humano, fraterno e justo.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
Guaramiranga-CE, 31 de dezembro de 2016.



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