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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

POR: ANA MARGARIDA ROSEMBERG - BREVE HISTÓRIA DE CUBA : de Colombo à Fidel Castro


No dia 28 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo desembarcou em Cuba imaginando ter chegado à Ásia.  Encontrou os nativos (índios) fumando tabaco. Até então, o tabaco era uma planta desconhecida na Europa, mas cultivada na América e fumada pelos caciques em rituais religiosos, pois eles acreditavam que a fumaça tinha poderes de curar doenças e espantar os maus espíritos. Em 1530, Jean Nicot levou a planta para Europa e a mesma disseminou-se com ajuda da nicotina, potente alcaloide com poder viciante, batizado com esse nome em homenagem à Nicot.

Com a chegada dos espanhóis e portugueses à América, iniciou-se um violento processo de colonização. Inúmeras populações indígenas foram dizimadas e outras foram submetidas ao trabalho escravo pelos chamados “homens civilizados”. Cuba tornou-se uma colônia da Espanha chefiada por um governo espanhol em Havana.

Em Cuba, o processo de colonização se deu de modo muito traumático, pois o povo cubano resistiu. Estava na alma daqueles nativos não serem escravizados. O início dessa resistência se deu com a revolta do cacique Hatuey que acabou sendo queimado vivo. Diante da dificuldade de escravizar os índios, como ocorreu no Brasil, o colonizador espanhol foi buscar o africano para ser utilizado como alternativa de mão-de-obra barata. O sistema da monocultura, outra característica comum às colônias espanholas e portuguesas, elegeu em Cuba o açúcar e o tabaco como produtos preferenciais.

No início do século XVIII, aconteceram as primeiras sedições. Com a alta do preço do tabaco, os terrenos semeados com tabacos passaram a ser lucrativos. Em 1716, a Espanha decretou a “Lei do Estanco” proibindo os “vegueros” de vender livremente sua produção. Contra a esse monopólio espanhol ocorreram várias rebeliões, como a “Insurreição dos Vegueros”, em 1723. A referida insurreição foi sufocada e seus líderes enforcados. Em 1762, Havana foi ocupada pelo reino da Grã-Bretanha, mas voltou para a mãos dos espanhóis quando houve a troca pelo território da Flórida que atualmente pertence aos Estados Unidos.

Uma série de rebeliões durante o século XIX não conseguiu pôr fim ao domínio espanhol. O primeiro movimento de independência de Cuba, chamada “Grande Guerra”, ocorreu entre 1868 e 1878 e foi liderado por Carlos Manuel Céspedes que, por ter sido educado na Europa, defendia os princípios de liberdade do Iluminismo.
Em outubro de 1868, conduzindo duzentos homens, Céspedes levantou-se contra o governo espanhol, proclamando a independência de Cuba. Uma das primeiras providências de seu governo foi conceder a liberdade de todos os escravos que se unissem ao exército revolucionário.  Essa medida aumentou o seu efetivo para doze mil homens. Diante disso, a Espanha ampliou o seu contingente militar na Ilha e Céspedes foi deposto, em 1873. A resistência, entretanto, prolongou-se até 1878, quando as tropas espanholas retomaram o controle de Cuba.

Logo em seguida, surgiu um novo líder revolucionário: José Martí. Preso aos 16 anos de idade por ter fundado um jornal revolucionário (La Patria Libre), Martí foi condenado a trabalhos forçados e, posteriormente, deportado para a Espanha. Uma vez libertado, viveu no México, na Venezuela e nos Estados Unidos, onde passou a articular uma nova revolução para a independência de Cuba. 
Em 1892, fundou o Partido Revolucionário Cubano (PRC), visando angariar recursos para o seu projeto de romper com o padrão colonial. Em 1895, desembarcou em Cuba e deu início a uma nova guerra de independência, na qual pereceu um mês após ter iniciado o conflito. Entretanto, mesmo após a sua morte, os combates prosseguiram até 1898.  
Após a morte de José Martin assumiu a liderança Tomás Estrada Palmas que pediu ajuda aos Estados Unidos. 
Os Estados Unidos tinham interesse em Cuba, pois compravam o açúcar cubano desde o início do século XIX e, através de um comércio triangular, trocavam rum por escravos.
Os Estados Unidos enviaram à Cuba um navio de guerra chamado “USS Maine”. O mesmo, ancorado em Havana, sofreu uma explosão com a morte de muitos marinheiros americanos. 
O governo norte-americano culpou o governo espanhol pela explosão e declarou guerra à Espanha. Foi a famosa guerra Hispano-Americana. 
Resumindo: A guerra de independência de Cuba, que começou com José Martín, terminou sendo travada entre Estados Unidos e Espanha.  O presidente William McKinley assinou uma Resolução Conjunta, em 20 de abril de 1898:
A referida Resolução Conjunta autorizava o presidente a usar a força para eliminar o governo espanhol em Cuba. Assim, os Estados Unidos passaram a atacar territórios espanhóis quer no Caribe ou Pacífico, invadindo-os. Os espanhóis foram derrotados e obrigados a assinar com os Estados Unidos o “Tratado de Paris”, que finalizava a dominação espanhola na Ilha. 
Cuba se libertou da Espanha, mas passou a sofrer uma gigantesca interferência dos Estados Unidos. Em outras palavras, Cuba passou a ser um protetorado americano que se reflete até os dias atuais, na base militar na cidade de Guantânamo.  

Após a vitória sobre os espanhóis, os EUA nomearam um Governador-Geral para Cuba, o general norte-americano John Brooke. 
O governo americano começou a criar propostas econômicas que beneficiavam apenas aos Estados Unidos. Todos os produtos que Cuba produzia eram exportados apenas para os Estados Unidos, a preços baixíssimos, que os revendia por preços maiores. Tudo isso aconteceu, porque os cubanos assinaram uma emenda constitucional, a “Emenda Platt”, já que a independência deles foi feita pelos Estados Unidos. Assim, Cuba teve que aceitar imposições dos Estados Unidos, como a ocupação militar que se estendeu de 1891 até 1903. 

A chamada “Emenda Platt” permaneceu mantendo Cuba um protetorado até 1933. Embora essa ocupação privilegiasse os interesses dos Estados Unidos, houve um legado positivo para Cuba, como: melhora nas condições sanitárias, com redução das doenças e melhora no sistema de educação e saúde.

Nas primeiras décadas do século XX, Cuba foi governada por políticos alinhados aos interesses americanos. Em 1924, um liberal chamado Gerado Machado foi eleito presidente, mas seu governo fracassou. Em 1933, houve um golpe militar liderado pelo sargento Fugencio Batista. Pela primeira vez, na história cubana um afrodescendente chegou ao poder.  

Em 1940, Fugencio Batista que já ocupava a presidência desde 1933, foi eleito democraticamente. Em 1944, Batista perdeu a eleição para o Dr. Grau. Em 1952, Batista retornou ao poder por meio de um golpe. Fugencio Batista era pro Estados Unidos e pro máfia americana que investia em jogos, prostituição e turismo.  

No governo de Batista, Cuba progrediu economicamente, mas ainda possuía uma economia fraca e havia um forte desequilíbrio na distribuição de renda. Em 1958, Cuba era a oitava economia, entre os 20 maiores países latino-americanos, e a primeira economia do Caribe. Entretanto, havia um grande desequilíbrio entre a área rural e a área urbana. A área urbana possuía forte infraestrutura financiada pelo capital vindo dos Estados Unidos. Em 1958, havia em Havana um expressivo número de prostitutas o que fazia da indústria da prostituição a mais rentável da Ilha. 

A corrupção, jogatina, prostituição e negociatas caracterizaram a Era Batista afastando a população do regime. A forma como foi forjada a independência de Cuba, que serviu mais aos interesses econômicos, sociais e culturais dos norte-americanos, deu margem para um descontentamento das classes média e baixa da população cubana. 

Na esteira dos protestos, os jovens começaram a se mobilizar e a adquirir ideias revolucionárias. Entre eles, Fidel Alejandro Castro Ruz, um jovem advogado.  
Em 1953, junto com outros jovens, Fidel Castro, numa ação de guerrilha urbana, tentou tomar o Quartel de La Moncada, em Santiago de Cuba, um local onde se guardavam armas. 
Fidel tentou iniciar uma revolução que fracassou. Na ação, alguns jovens foram mortos e Fidel foi capturado, preso, julgado e condenado a 15 anos de prisão. Fez a sua própria defesa terminando, após um longo discurso, com a seguinte frase “A História me absolverá”. Esses jovens eram nacionalistas e não comunistas, como muitos pensam. Eles queriam a soberania de Cuba. Queriam uma pátria livre.

Por interferência de alguns religiosos, Fidel foi libertado e viajou para o México. Lá conheceu um jovem médico argentino chamado Ernesto Guevara Lynch de la Serna, conhecido como “El Ché”.
Ché ajudou Fidel na formação de um movimento revolucionário chamado “Movimento 26 de Julho”.  
Esse movimento era composto por jovens estudantes que iniciaram uma luta contra Batista. Liderados por Fidel, eles se organizaram em Sierra Maestra e receberam enorme apoio dos camponeses e da população cubana.

A revolução que desencadearam era contra a ditadura de Fugencio Batista que era vinculada aos Estados Unidos. Foi, portanto uma revolução nacionalista e defendia a ideia de que a liberdade de Cuba estava vinculada ao anti-imperialismo. 
Após 25 meses de luta, os jovens revolucionários foram vitoriosos. No dia 1 de janeiro de 1959, derrubaram a ditadura de Batista que fugiu com seus auxiliares. Fidel não era comunista. Aliás, os comunistas apoiavam Batista e desconfiavam de Fidel.

Fidel era um líder carismático. Chegando ao poder ao lado de Ché, Raúl Castro (seu irmão), Camilo Cienfuegos e outros mobilizou a juventude cubana (100 mil jovens) e conseguiu eliminar, em um ano, o analfabetismo, que era em torno de 40%; investiu na melhoria da saúde pública; fez uma reforma agrária, desapropriando propriedades dos americanos, que foram indenizados pelo valor que declararam no imposto de renda;  nacionalizou boa parte das indústrias, dos hotéis e dos bancos e fuzilou os contra revolucionários.  

Evidente que essa revolução gerou uma reação de descontentamento dos latifundiários e da burguesia.  Os Estados Unidos, também, descontentes, apoiaram os contra revolucionários para derrubar Fidel Castro. Treinaram os militares do Batista com a finalidade de invadir Cuba. 
Em abril de 1961, cerca de 1500 homens recrutados e treinados pela CIA dos Estados Unidos e marines norte-americanos tentaram uma invasão à Baía dos Porcos. Fidel foi para a frente de combate rechaçando a invasão. Morreram 300 homens e 1200 foram aprisionados e julgados pela multidão no estádio. Quando Fidel perguntou o que fazer com eles, a multidão gritou: Paredão! Fidel preferiu trocá-los por tratores e devolvê-los para Miami. Não conseguiu tratores e, sim, alimentos e medicamentos em troca dos prisioneiros. 
Os Estados Unidos iniciaram um tremendo embargo econômico contra Cuba, ameaçando cortar relações com qualquer país que fizesse comércio com Cuba para, assim, asfixiá-la.

Para entender a Revolução Cubana é necessário compreender o contexto histórico em que ela se deu. O Mundo estava bipolarizado e sendo disputado pelos Estados Unidos e pela União Soviética. O contexto era o da Guerra Fria. 
A partir da fracassada invasão da Baía dos Porcos, e com a nova ameaça de invasão pelos Estados Unidos, uma potência bélica incontestável, Cuba foi buscar apoio no bloco socialista. A partir de então, Cuba passou a ser protegida economicamente e militarmente pela União Soviética e instaurou um regime de orientação marxista e partido único. 
Os Estados Unidos, através da CIA, tentaram, em vão, centenas de vezes assassinar Fidel Castro, pois viam nele uma ameaça para o Continente Americano.
No auge da Guerra Fria a União Soviética usou o território de Cuba para implantar mísseis contra os Estados Unidos. O Mundo esteve à beira de uma guerra nuclear que, felizmente, teve uma solução diplomática.

No pico das tensões entre as duas potências, o presidente dos Estados Unidos, Kennedy, ameaçou invadir a Ilha ou bombardear as rampas de lançamento dos mísseis. O presidente da União Soviética, Khrushchev, cedeu e retirou os mísseis do território cubano em troca do compromisso dos Estados Unidos de respeitarem a soberania de Cuba e desmontarem bases de mísseis na Turquia. 
O embargo econômico, comercial e financeiro imposto à Cuba pelos Estados Unidos, em 1962, foi aderido pela Organização dos Estados Americanos (OEA). A partir desse embargo o destino da Ilha ficou atrelado à União Soviética. Quando a mesma se fragmentou, Cuba ficou relegada à sua própria sorte. 
Em junho de 2009, a Organização dos Estados Americanos (OEA), aprovou, por consenso, a anulação da resolução de 1962, que expulsava a Ilha da organização. Todos os governos do continente restabeleceram contato com Cuba, com exceção dos Estados Unidos. 
A decisão histórica permite que Cuba seja reincorporada caso manifeste vontade, embora o governo cubano já tenha declarado em várias ocasiões não ter interesse em retornar.
O presidente dos EUA, Barack Obama, levantou restrições de viagens à Ilha e de remessas de dinheiro feitas por cubano-americanos para suas famílias que moram em Cuba. O levantamento das restrições beneficia cerca de 1,5 milhão de cubano-americanos,

Somente no governo de Obama, dos EUA, e com a interferência do Papa Francisco, o embargo comercial começou a dar sinais de deixar de existir. Com a recente eleição de Trump, nos EUA, fica incerto o destino de Cuba.

Fidel Castro ocupou o poder em Cuba desde 1959, inicialmente como primeiro-ministro, e, a partir de 1976, como presidente. Exerceu esse cargo até 2006, quando delegou seus poderes ao seu irmão mais novo, Raúl. Em 19 de abril de 2011, Fidel Castro retirou-se oficialmente da vida política do seu país.  
Fidel  Castro faleceu em Havana no dia 25 de novembro de 2016.

Figura controversa, Fidel Castro deixou uma legião de admiradores e, também, outra legião de críticos. Foi um líder amado e odiado. Seus críticos alegam que ele foi um ditador sanguinário, responsável por centenas de milhares de exilados, pela morte de quase 10 mil opositores e por um número desconhecido de prisões. Sufocou o povo por restringir as liberdades. 
Seus admiradores dizem que ele fez uma revolução humanística, uma revolução voltada para o homem, legando ao seu povo cultura, saúde e educação de qualidade. Dizem que Fidel conseguiu igualar os homens da nação cubana e permitiu a eles uma grandeza de sentimentos, de solidariedade de uns com os outros. 
Esse humanismo da Revolução Cubana foi, sem dúvida, a maior contribuição de Fidel para o Mundo.

Ana Margarida Furtado Arruda  Rosemberg                                               
Mestre em História pela PUC-SP
Fortaleza, 2 de dezembro de 2016.

Referências

Nicotina: Droga Universal, José Rosemberg, Centro Técnico de Documentação  /GTIS/SES/CVE, São Paulo, 2003
Era dos extremos - o breve século XX (1914-1991), Eric Hobsbawm, Editora Cia. das Letras, 1995.
Cuba: A Revolução na América, Almir Matos, Editora Vitória LTDA, 1961.
Enciclopédia Mirador Internacional.
Cuba: uma nova história, Richard Gott, Editora Jorge Zahar, 2006.
Cuba (coletânea de artigos organizada por Manuel García).
A Ilha, Fernando Morais, Editora Alfa-Ômega,  1985