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domingo, 14 de agosto de 2016

POR: ANA MARGARIDA - AS SETE FACETAS DO MEU PAI.



Como um diamante que explode a luz em sete cores, meu pai, Capitão Edgy Távora Arruda, durante sua longa e profícua existência, irrompeu seu talento profissional em sete facetas. Foi militar, administrador público, historiador, professor, memorialista, jornalista e escritor.
Ao tentar falar sobre sua vida e seu grandioso legado em tão exíguo tempo, fico pensando quais das facetas devo abordar. O militar cumpridor de seus deveres? O competente administrador público de conduta ilibada? O historiador apaixonado? O professor brilhante e dedicado? O memorialista sonhador e empreendedor? O jornalista amante da verdade? O escritor singular? São tantas as facetas de meu pai que confesso a impossibilidade de abordá-lo em sua totalidade. Entretanto, sinto-me à vontade em apresentar sua faceta de historiador, por ter dele herdado, ao lado de seu neto, Luiz Gustavo, a paixão pela História.
Meu pai foi um historiador na mais completa acepção da palavra. Possuidor de uma inteligência privilegiada, uma memória invejável e, sobretudo, uma fantástica eloquência, difundiu seu saber na atmosfera das salas de aula.  Com simplicidade, sabedoria, entusiasmo e paixão, transmitiu seus vastos conhecimentos.
Além de professor de História, meu pai foi um pesquisador meticuloso, deixando um importante legado histórico. Evocando o pretérito, ele desvendou fatos que se desenrolaram outrora, nos velhos tempos, em Monte-Mor o Novo d’América, e que estavam recobertos pela pátina do tempo. Debruçou-se com determinação em documentos históricos, para subtrair a pátina e trazer à luz a história da cidade que tanto amou, Baturité.
A paixão foi o denominador comum de todos os atos de sua vida. Escondida aqui e ali por sua timidez nata, mas surgindo lá em uma atitude, numa ação desassombrada, na frase de um discurso, no desvelo com minha mãe e sua numerosa prole, na organização e registro das convenções da Família Arruda. Em todas essas ocasiões, ele foi movido, com a alma incendiada, pela paixão.
Sua existência não se restringiu apenas às noventa e uma voltas e meia que deu em torno do sol, mas a bilhões de voltas, por ter sido um historiador de amplos conhecimentos. Como tal, meu pai viu o alvorecer da Terra dentro de uma gigantesca nuvem de gás e poeira há, aproximadamente, cinco bilhões de anos. Viu os períodos pré-cambriano e cambriano, e as primeiras formas de vida brotarem nas águas quentes e serenas do mar.
Viu os dinossauros surgirem, dominarem a Terra durante cento e sessenta milhões de anos, e se extinguirem.  Viu, há dois e meio milhões de anos, os primeiros hominídeos fabricarem armas rudimentares de pau e pedra, dominarem o fogo e inventarem a roda.  Viu, na Mesopotâmia, berço de nossa civilização, surgirem a agricultura, a escrita, as primeiras cidades e o Código de Hamurabi. Viu em Ur, nascer Abraão, pai das religiões monoteístas, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Viu Sumérios, Babilônicos, Assírios, Persas e Gregos. Viu as pirâmides do Egito erguerem-se imponentes pelo trabalho de milhares de escravos. Viu Tutankhamon, faraó do Egito Antigo, ser sepultado com seus tesouros. Viu Cleópatra, a última rainha egípcia, da dinastia de Ptolomeu, deixar-se picar por uma serpente. Viu a Grécia florescer com seus filósofos e Roma expandir seu Império com seus Césares.
  Viu Cristo ser crucificado por nos legar uma forte mensagem de paz e amor. Viu o Império Romano ruir e a Igreja Católica se firmar no Ocidente. Viu o feudalismo medieval, as pestes, o renascer das artes e a Revolução Francesa. Viu os reis de França, Louis XVI e Maria Antonieta, subirem ao cadafalso e Napoleão dominar a Europa. Viu a descoberta do Novo Mundo e o massacre impetrado pelos Europeus, ditos civilizados, aos índios da América. Viu o homem escravizar o próprio homem. Viu os negros africanos derramarem suor e sangue para fazer a riqueza do Brasil. Viu a abolição da nossa escravatura e a proclamação da República. Viu, na Inglaterra, o brotar da Revolução Industrial. Viu a Revolução Comunista e Nicolau II, o último Czar da Rússia, ser massacrado com toda a sua família. Viu a barbárie de duas guerras mundiais no Século XX, o holocausto dos judeus e a bomba atômica.
Viu muito mais, mas viu, principalmente, seus pais atravessarem a vida em uma perfeita união. Viu os oito irmãos, tios, avós, primos, sobrinhos, cunhados e cunhadas. Viu amigos fiéis e muitos admiradores. Viu, fascinado, minha mãe adentrar de branco a Igreja do Patrocínio, em sua pureza virginal, para com ele entrelaçar sua vida. Viu quinze filhos, trinta e quatro netos e treze bisnetos, além das noras e genros.
Finalmente, viu a concretização do seu sonho de historiador. O sonho de criar o Museu e a Fundação Comendador Ananias Arruda, e manter o jornal “A Verdade” em circulação.
Por tudo o que realizou, meu pai é merecedor da gratidão e admiração não só dos que aqui estão reverenciando sua memória, mas de todos os familiares e amigos que angariou durante sua longa jornada terrena.
A morte é uma fatalidade biológica, dizia Rosemberg. Devemos recebê-la estando quites com a vida pelas realizações que fizemos para enobrecê-la. Neste contexto, meu pai partiu com os maiores dividendos e, por isso, devemos cultuar sua memória e preservar o seu legado para a posteridade. Assim, ele não morrerá nunca, estará presente sempre, SEMPRE...

                             
                                      Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

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