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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

POR: LEONARDO BOFF - Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista

 
Leonardo Boff

 Publicado em seu blog

 http://leonardoboff.wordpress.com/2014/01/23/os-rolezinhos-nos-acusam-somos-uma-sociedade-injusta-e-segregacionista/

 

Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista

23/01/2014
O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras.
Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:
Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.
Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressupsto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para ve-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.
Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desperezados e mantidos longe, na margem.
Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.
Artigo escrito primeiramente para o JB on-line

3 comentários:

  1. Apoiado e com todo respeito a sumidade.....mas as oportunidades oferecidas de estudo, saúde, lazer, conhecimento é a mesma que foi oferecida para um menininho que resolveu fazer rolés em sebos, em movimentos culturais, que resolveu estudar na luz da lamparina e vencer....o seu sonho não era um tênis de quinhentos reais, era um curso profissionalizante. Nada contra, mas rolezinho é igual a baile funk...eu tō aqui e vou zuar para a sociedade me ver....

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  2. Concordo com as colocações sensatas e corretas de Leonardo Boff: somos uma sociedade injusta e segregacionista. É tão gritante o elitismo dos 1% mais ricos do Brasil, cidadania é usufruir de direitos sociais como segurança, moradia, educação, cultura, saúde. Mas não é só a periferia que se sente excluída. Na classe média, no mundo dos assalariados, sentimos na pele como a sociedade é desigual, como discrimina, há várias formas de discriminação social. O Brasil não fez as reformas estruturais necessárias para romper o apartheid social. Então, agora haja rolezinho...

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  3. Quem sonha em ir morar e viver em CUBA?
    O trabalho, o esforço, tudo coaduna para que as famílias sejam detentoras do resultado positivo de seus esforços. E não os governos. Trabalhar para o governo e receber sua ração mensal não dá condição de impulcionamento de uma economia alicerçada na liberdade e criatividade e competividade de mercado.
    Nos paises comunistas o governo é que EDUCA as crianças e não suas respectivas famílias. O Governo é que dá a ração (bolsa família). Você deveria então esperar TUDO do governo. E não se esforçar em nada.
    Esse é um discurso para os ditos excluídos, pois basta não fazer nada e exigir seus direitos de cidadão. Comida, roupa, moradia, tudo por conta do governo. Sem nenhum esforço seu. Que maravilha.
    Mas infelizmente tudo isso É UTÓPICO.
    Se existem hoje alguns mais ou menos privilegiados. Certamente é porque no passado seus pais ou avós se esforçaram e muito. E lograram conquistar algo para suas respectivas famílias.
    Mas esse discurso não é interessante para aqueles que pensam que TUDO DEVE CAIR DO CÉU. (O que é vendido pelos neo-comunistas, que anda sonham em criar um regime de estagnação nesta nação)
    No cenário internacional podemos observar no noticiário algo interessante:
    Estranho que de uma hora para outra, de repente, surgem movimentos de manifestação e protestos já com quites de manifestação na mochila. Roupas e aparatos pré desenhados, modus operandi semelhantes às guerrilhas urbanas, como aquelas articuladas na primavera árabe no oriente médio. No Brasil os tais Blackblocs é um exemplo, na Ucrânia os Neo-Nazistas (usam roupas semelhantes, utensílios e modus operandi idênticos). No oriente médio também pipocam rebeliões contra governos (E tais rebeldes aparentemente muito mais se assemelham a MERCENÁRIOS contratados do que ao povo cidadão comum desses paises). Será que Tudo isso é uma coisa espontânea e natural. Ou por ventura, há ALGUÉM por traz desses movimentos, que é claro, não deve ser espontâneo do povo comum desses lugares. E sim articulados por AGENTES invisíveis a serviço de forças OCULTAS.
    No Brasil,
    algumas cidades que não são capitais, mas possuem uma certa relevância de população , de repente, aparecem (do nada) veículos desembarcando quites de manifestação de seus porta malas. E aí começa pneus queimando, megafones, palavras de ordem (sempre com apelos antigos iguais dos antigos comunas) . E o teatro é o mesmo: atacar a força policial e criar interdições nas vias públicas. Possível inferir que não eram pessoas do lugar (Não eram cidadãos comuns dessas cidades, mais gente de fora, grupos de manifestantes profissionais).
    O CAOS, AS VEZES, INTERESSA a fim de ser implantados os planos sinistros de grupos ocultos.
    Há uma influência de idéias socialistas sobre nossos adolescentes (principalmente nas periferias), vendendo para eles uma idéia de NECESSIDADE DE LUTA CONTRA A BURGUESIA (Luta de Classes.)
    Lembrando que burguês para eles é qualquer pessoa que com seu esforço (ou de seus pais ou avós) lograram conquistar uma condição melhor do que dos ditos excluídos.
    Aí aparecem os tais R O L E Z I N H O S nos Shoppings ou Arrastões nas rodovias (familias são atacadas em seus veículos quando de um congestionamento em áreas dos ditos excluídos). Tudo está na moda nessa mesma época das tais MANIFSTAÇÕES. No campo (Sul da Bahia e Mato Grosso do Sul) está havendo uma espécie de incentivo a grupos de Pseudo indígenas para invadirem propriedades e assim criar um estado de beligerância no campo. Idéias de intelectuais orgânicos ligados à FUNAI (Órgão do Governo).
    Nos grandes centros urbanos há facções criminosas organizadas e armadas como guerrilha (O poder paralelo). E hoje já podem , se quiserem , criar um estado de guerra que as forças policiais certamente não tem poder de fogo para enfrentar (Reservistas das FARC)
    E como será que tudo isso é permitido pelo nosso governo (de tendência de esquerda, vinculado as idéias e diretrizes políticas do FORO DE SÃO PAULO). A quem eles obedecem? E porque? . .

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