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quinta-feira, 11 de julho de 2013

INSTITUTO CLEMENTE FERREIRA (SÃO PAULO-SP) - 100 ANOS DE HISTÓRIA (1913-2013)

Ontem, dia 10 de julho de 2013, o Instituto Clemente Ferreira de São Paulo, baluarte da luta contra a tuberculose na Brasil, completou um século de existência. Para marcar a data, transcrevo os acontecimentos do dia de sua inauguração, através do texto retirado de minha dissertação de mestrado em História Social:   “Guerra à Peste Branca – Clemente Ferreira e a Luta Contra a Tuberculose”. PUC-SP  - 2008.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg




Em 1913, no dia 10 de julho, foi inaugurada à Rua da Consolação a nova sede do dispensário Clemente Ferreira com o nome de Dispensário-Modêlo “Clemente Ferreira”. Compareceram à cerimônia solene o Dr. Altino Arantes, Secretário do Interior; o Dr. Emílio Ribas, Diretor do Serviço Sanitário; o Deputado Washington Luis; representantes do Presidente do Estado, do Prefeito Municipal, do Secretário da Justiça, do Arcebispo e do Conselho Municipal e grande número de médicos e populares. O Presidente da Liga e do Dispensário, Clemente Ferreira, proferiu discurso agradecendo, em nome da Liga, aos representantes do Estado pela presença e pelo apoio material dado para a construção do mesmo, mas deixou claro que ainda estavam no prefácio de uma luta que necessitava de novos armamentos e da coadjuvação do Estado.[1]

            A imprensa deu grande cobertura ao acontecimento divulgando a solenidade de inauguração e falando do prédio que colocava São Paulo no mesmo patamar dos países europeus e norte-americanos. O jornal Correio Paulistano, assim, noticiou: 

Dez de julho de 1913 veio assinalar mais uma brilhante vitória para o glorioso apostolado do ilustre clínico Sr. Dr. Clemente Ferreira, que há anos tem movido um combate sem tréguas a uma das mais terríveis moléstias que flagelam a humanidade. (...) Ontem efetuou-se a inauguração oficial do novo prédio do Dispensário, situado na Rua da Consolação, nº. 117.[2]



            O novo dispensário foi batizado com o nome de Dispensário-Modêlo, por possuir a concepção de espaço do pensamento científico higienista e por sua ousada arquitetura nada ficar a dever a dos dispensários europeus.  O prédio, circulado por um amplo espaço ajardinado, possuía dois pavimentos. Suas instalações eram assim constituídas: No segundo andar encontravam-se: sala de conferências, sala das damas paulistas da “Obra de Preservação dos Filhos de Tuberculosos Pobres”, sala do diretor, biblioteca, arquivo e secretaria. O primeiro andar, bem mais amplo, possuía: duas salas de espera para os doentes tuberculosos (uma aberta e a outra fechada), gabinete de hematologia e de análises clinicas, gabinete de bacterioscopia clínica, salas de consultas abertas e fechadas, gabinete de otorrinolaringologia, sala de aeroterapia e ginástica pulmonar, gabinete de radiologia, gabinete para pequenas operações, toilletes, gabinete de inscrição dos doentes, sala de entrega de alimentos, farmácia e laboratório farmacêutico. No térreo encontravam-se: caldeiras para desinfecção diária das escarradeiras, museu, sala de fotografia, sala de esterilização de leite, almoxarifado, rouparia e quatro compartimentos para instalações hidroterápicas. No centro havia um pátio com um solarium para tratamento dos tuberculosos e, nas paredes da entrada de todos os compartimentos, cartazes mostrando ensinando higiênicas para prevenir a doença.[3] No hall da entrada principal foi colocada uma placa de mármore com os seguintes dizeres:


Dispensário-Modêlo Clemente Ferreira


Este Estabelecimento, destinado à assistência Hygienica e ao tratamento dos tuberculosos pobres, foi iniciado e concluído durante o mandato administrativo da seguinte diretoria:
Presidente – Dr. Clemente da Cunha Ferreira; 1º. Vice-Presidente – Dr. Victor Godinho; 2º. Vice- Presidente – Dr. Saturnino Simplicio de Salles Veiga; 3º. Vice- Presidente – Dr. Francisco de Paula de Abreu Sodré; Secretário Geral – Dr. Henrique Coelho; 1º. Secretário – Dr. Américo Brasiliense de Almeida Mello; 2º. Secretário – Dr. Remízio Gomes Guimarães; Thesoureiro – Comendador Joaquim d´Abreu de Lima Pereira Coutinho; Procurador – Tenente Coronel José de Amorim Lima. [4]


Quatro bustos de bronze,[5] além de uma placa com o nome da Liga, ornamentavam sua fachada. Sobre esses bustos, Clemente Ferreira, assim, se referiu no discurso que fez na inauguração do Dispensário:

Os bustos de bronze simbolizam quatro fases memoráveis na história da tuberculose, na evolução dos conhecimentos, no desdobrar dos estudos e investigações sobre a patologia, a profilaxia e a terapêutica da moléstia. Um representa o genial Laennec, o venerando descobridor da escuta mediata, a quem visceralmente se prende o inicio do progresso, do aperfeiçoamento da técnica da diagnose física do mal (...); o outro busto personifica o sábio Villemin, o eminente investigador e proficiente demonstrador da contagiosidade do terrível morbo que, desde os seus incomparáveis estudos e pesquizas, ficou conhecido em seu caráter de transmissibilidade, assentando-se assim as fundações de uma higiene profilática. O terceiro busto perpetua a figura do insigne Koch, o emérito descobridor do bacilo – o motor patogênico da moléstia, o qual isolado e cultivado desde esta data – 1882-, desvendou todos os mistérios da etiologia do mal (...). Finalmente, ao quarto busto do único sobrevivente – o sr. dr. Philip – de Edimburgo, - cabem a imperecível gloria e o irredutível mérito da fundação dos dispensários antituberculosos, que marca a fase pratica do combate ao flagelo popular, a era eficiente do movimento educativo da opinião publica, do ensino preventivo e da assistência higiênica dos tuberculosos necessitados e suas famílias. A colocação de taes bustos representa, portanto, a consagração, a comemoração dos méritos e dos serviços dos insignes cientistas à medicina e à sociedade, e constitue um gesto expressivo de justiça histórica.[6]



                                      Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg



[1]  FEREIRA, Clemente. Discursos e Conferências... Op. cit., pp. 102-103.


[2]  Jornal Correio Paulistano, 11 de julho de 1913.



[3]  Jornal Correio Brasiliense, 11 de julho de 1913.


[4]  Esta placa ainda continua na mesma localização. Ela não tem data, mas é da época da inauguração do prédio - 10 de julho de 1913.


[5]  Os quatros bustos ainda hoje estão lá, mas no pátio interno onde funcionava um solarium para o tratamento dos tuberculosos, pela helioterapia.




[6]  FERREIRA, Clemente. Discurso pronunciado por ocasião do ato da inauguração do dispensario-modêlo “Clemente Ferreira”, da Liga Paulista contra a Tuberculose, à Rua da Consolação, a 10 de Julho de 1913.  In: FERREIRA, Clemente. Discursos e Conferencias... Op. cit., pp. 106-107.

2 comentários:

  1. Anamargarida,
    Muito legal sua lembrança.
    Digna e merecida homenagem a uma Casa digna, que teve o privilégio de ser dirigida por Rosemberg, e que continua privilegiada por receber sua lembrança.
    Em nome dos "Clementinos", muito obrigado,
    Beijo,
    Jorge Afiune

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  2. Querida Anamargarida
    Maravilhosa a sua homenagem!!
    Sabemos que o Instituto Clemente Ferreira foi palco de atividades dignas de todo respeito nesses 100 anos de existência..
    Sua homenagem vem de encontro a isso.
    Super abraço
    Maitê: uma respeitosa e agradecida "clementina"

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