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quinta-feira, 27 de junho de 2013

ENTREVISTA - ROBERT KURZ

 
ROBERT KURZ


ROBERT KURZ


Robert Kurz (Nuremberga, 24 de dezembro de 1943 - 18 de julho de 2012) foi um filósofo e ensaísta alemão. Participou de uma vertente de reinterpretação da obra de Marx, denominada na Alemanha Wertkritik ('crítica do valor'). Sua área de interesse abrangeu a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a crítica do iluminismo e a relação entre cultura e economia.
Em 1986, Kurz participou da criação da revista Krisis (e do grupo epônimo), em torno da qual se desenvolveu a Wertkritik. O grupo obteve uma certa notoriedade em 1999, quando da publicação do "Manifesto contra o Trabalho", escrito por Robert Kurz, Ernst Lohoff e Norbert Trenkle. 2 . Em 2003, o filósofo Anselm Jappe, em seu livro As aventuras da mercadoria - para uma nova crítica do valor (Lisboa: Antígona, 2006), apresentou os desenvolvimentos teóricos desse autores.
Em abril de 2004, o grupo Krisis sofre uma cisão, e Robert Kurz, Roswitha Scholz e Claus Peter Ortlieb criam um novo grupo, em torno da revista EXIT! - Kritik und Krise der Warengesellschaft ('EXIT! - Crítica e Crise da Sociedade da Mercadoria')3
Robert Kurz é autor de O Colapso da Modernização (1991)4 (Der Kollaps der Modernisierung), entre outros livros.
Morreu aos 18 de julho de 2012, com 69 anos de idade após uma cirurgia nos rins.5 6
Publicava regularmente ensaios em jornais e revistas da Alemanha, Áustria, Suíça e Brasil.

FONTE: WIKIPEDIA



Uma vida humana?
Só sem mercado, estado e trabalho
Robert Kurz fala sobre o seu novo livro
Há meses que a grande imprensa alemã, e principalmente jornais e revistas alternativos, não deixam de falar bem e, antes de tudo, mal da mais nova publicação de Robert Kurz, o "Livro Negro do Capitalismo: um epodo à economia de mercado", ( http://www.eichborn.de). Em 816 páginas encontramos uma breve história valente e violenta do capitalismo, as filigranas da construção das bases ideológicas e fetichistas do sistema produtor de mercadorias e os percursos críticos do totalitarismo de mercado no processo mundial da modernização. Kurz não entra em competição com outros "Livros negros" da comparação de sistemas e de campeonatos de atrocidades macabras, mas apresenta os processos sociais modernos e contextualiza os seus ideólogos desde Mandeville e Bentham para desenhar a profunda dimensão histórica das desgraças contemporâneas.
Robert Kurz reside em Nuremberg, Alemanha, e é um dos editores da revista (Krisis), que publica fundamentos da teoria social crítica elaborados pelo grupo Krisis. No Brasil ele não é desconhecido. Em 1993 o seu "livro audacioso", o "Colapso da modernização" (Ed. Paz e Terra), provocou fervorosos debates entre intelectuais brasileiros de esquerda. Uma seleção das suas posteriores palestras no Brasil e de artigos jornalísticos na imprensa brasileira foi publicada nos "Últimos combates" (Editora Vozes, Zero à esquerda). Lançado no ano passado no Dep. de Geografia da USP com a presença de vários participantes do grupo Krisis o "Manifesto contra o trabalho" (labur@edu.usp.br), do qual Kurz é co-autor, resultou em novas polémicas.
Os escritos de Robert Kurz e, em particular, o seu novo livro, possuem uma saudável energia negatória que toca mordazmente nos tabus da modernidade: a economia de mercado, o dinheiro, o Estado e o trabalho. Permite assim aos leitores encontrar perguntas e respostas a respeito de uma urgentemente renovada perspectiva de crítica social e emancipação humana.
Dieter Heidemann
Prof. do Dep. de Geografia da USP
com colaboração de Cláudio Duarte
D.H.: O título original do seu livro novo era "Os moinhos satânicos". Por que a mudança?
Realmente, entre os vários títulos pensados, o meu favorito era "Os moinhos satânicos" lembrando a poesia do romântico inglês William Blake no final do século XVIII. Era uma expressão proverbial das primeiras experiências com o sistema fabril capitalista. Mas juridicamente o título já tinha sido ocupado por um romance. Além disso, a editora preferiu o título "Livro negro do capitalismo". Esperava mais efeito e atenção para fazer contraponto ao "Livro negro do comunismo" de um grupo de autores franceses e traduzido para diversas línguas. É uma alistagem cansativa dos crimes do regime do socialismo de Estado, uma pura obra de propaganda sem substância histórico-crítica e contra um inimigo que já não existe mais. Agora bem, se eu quisesse apenas alistar os crimes do capitalismo ocidental, acho que nem 100 volumes grossos seriam suficientes.
D.H.: O livro é a história da imposição da modernidade e do liberalismo. Qual é o fio condutor da sua análise ?
Eu queria escrever uma história crítico-radical da modernização desde o século XVIII, através de uma apresentação integrada de aspectos que normalmente estão sendo apresentados não só apologeticamente, mas também tratados monograficamente separados.
O livro é: 1) Uma história das três grandes revoluções industriais (introdução do sistema fabril através da máquina a vapor no início do séc. XIX, "automobilização" fordista através da produção em linha e racionalização da economia empresarial na primeira metade do sec. XX, revolução microeletrônica no limiar do séc. XXI); 2) Uma história da ciência da economia nacional com as suas vacilações permanentes entre os pólos do mercado e do Estado; 3) Uma história da ideologia legitimadora burguesa centrada na naturalização e biologização do social (a economia capitalista e suas conseqüências sociais são tratadas por ela como "lei natural" acima de qualquer crítica); 4) Uma história do disciplinamento de "material humano" e da interiorização de normas de comportamento capitalistas até chegar ao "homem autoregulativo" contemporâneo; 5) Uma história do movimento operário socialista e do socialismo do Estado, não como um contramodelo, mas como um "elemento imanente" da modernização burguesa; 6) Uma história das grandes crises que caracterizam, em sua essência, este sistema.
Sempre uso citações originais dos atores contemporâneos. Através de três séculos, fica assim transparente que o capitalismo nunca foi outra coisa senão um sistema de impertinências descaradas em relação à vida e ao comportamento humano; para a grande maioria dos homens no passado e no presente nunca trouxe um aumento de bem-estar, mas sempre apenas novos surtos de pobreza em massa e desespero.
D.H.: Encontramos as referências teóricas de sua análise social nas discussões publicadas na revista "KRISIS": Qual é a importância da critica do valor para a sua crítica radical do processo de modernização e dos fetiches do sistema produtor de mercadorias ?
O "Livro negro do capitalismo" é também uma tentativa de concretizar, através de material histórico e atual, a critica que o "Grupo Krisis" faz à compreensão usual da teoria marxiana. O "marxismo do movimento operário" entendeu equivocadamente as formas elementares da socialização capitalista (trabalho abstrato, valor / forma-mercadoria, dinheiro, mercado, Estado, nação, democracia) como condições existenciais sociais positivas, quase ontológicas. Nesta base, aparentemente neutra, realizou a sua parte da "luta de classes". Por isso, a "luta de classes" era apenas uma forma de concorrência interna das categorias capitalistas e do seu invólucro férreo. Tratava-se de lutas por distribuição, melhorias e "direitos", cujo êxito parcial e sempre passageiro atava, cada vez mais fortemente, os homens ao sistema dominante, ainda na sua própria forma-sujeito. Hoje, a "luta de classes" esmorece no mundo inteiro e se torna, apesar das catástrofes sociais, um modelo em extinção, pois, na crise da terceira revolução industrial, o sistema referencial comum, o fundamento aparentemente neutro da moderna produção de mercadorias, está abalado. "Crítica do valor" significa levar este fato em consideração e, pela primeira vez, pôr radicalmente em questão as formas de relações sociais de mercado e Estado, que se tornaram tão naturais. Nesta perspectiva, o capitalismo não é nenhum problema da "mais-valia retida" e da riqueza monetária subjetiva, mas um problema de um louco fim em si mesmo: a "valorização do valor", o absurdo reacoplamento cibernético do dinheiro a si mesmo. Capitalistas e executivos são apenas funcionários deste "sujeito automático" (Marx). A relação social em referenciais monetários e concorrenciais universais nos mercados anônimos é somente possível através de um sistema de mercados de trabalho preposto, nos quais os homens precisam vender a si mesmos para se tornar material da "máquina mundial" capitalista. A crise fundamental dos mercados de trabalho se revelará, portanto, mais cedo ou mais tarde como crise do próprio capitalismo.
D.H.: Como você desenvolve então a crítica ao trabalho, considerando-o característica do mundo moderno?
Marx vacilava ainda entre uma ontologização positiva e uma crítica radical do trabalho. O movimento dos trabalhadores, como o seu nome já diz (Partido do Trabalho, ponto de vista do trabalho etc.), entendeu equivocadamente o trabalho como alavanca da emancipação e como contramodelo ao capitalismo. Porém, a abstração trabalho não é o oposto mas o estado de agregado vivo do próprio capital; o trabalho não é uma condição suprahistórica antropológica da existência, mas a forma de atividade específica capitalista da modernidade - dispêndio abstrato de energia humana num espaço funcional de economia empresarial. Nesta abstração já está posta a indiferença em relação ao conteúdo, ao sentido e à finalidade, às necessidades vitais. Trabalho como determinação abstrata é o lado atuante do fim em si mesmo irracional capitalista.
O "Livro Negro" deriva o conceito de trabalho abstrato não de maneira lógico-definidora da forma-valor (isto Marx já fez em "O Capital"), mas tem uma outra forma de apresentação: o sistema do trabalho abstrato é analisado no seu desdobramento concreto-histórico, incluindo obviamente os últimos 100 anos de capitalismo, que Marx não vivenciou. No final deste desenvolvimento, mostra-se que somente na 3ª revolução industrial a aparente naturalidade da abstração trabalho torna-se prática e teoreticamente obsoleta. Ou, a tecnologia informacional torna diversas atividades humanas supérfluas no espaço funcional capitalista ou a sua execução é realizada por robôs. De outro lado, o trabalho desaparece mais ainda naquelas empresas, economias nacionais ou regiões mundiais que, face a fraca força de capital, não podem utilizar a microeletrônica e, por isso, afundam na concorrência.
D.H.: Falando de economias nacionais, quais são as formas de ascensão e decadência do Estado-nação?
A assim chamada nação, tão pouco suprahistórica como o trabalho, foi uma invenção do século XVIII. Ela não é outra coisa senão o invólucro cultural e imaginativo do Estado capitalista e da forma irracional de legitimação para uma "continuação político-militar de concorrência com outros meios". O "Livro Negro" tematiza tanto a integração histórica do movimento de trabalhadores e do socialismo na mania nacional, como também tematiza a crise do contexto nacional na atual globalização do capital. O conceito de "libertação nacional" demonstra-se agora como uma contradição em si. O apelo à nação não é nenhuma alternativa à globalização, mas é apenas reacionário. A esquerda precisa de formas de organização e ação transnacionais para estar de novo à altura do desenvolvimento capitalista. Só podemos pensar um futuro pós-capitalista através de formas pós-nacionais de reprodução.
D.H.: Junto com o Estado, a democracia e a cidadania tiveram o seu papel na imposição do processo de modernização. Como você relaciona liberalismo, socialdemocracia e socialismos de Estado ao sistema produtor de mercadorias ?
Enquanto o capitalismo não estava plenamente desenvolvido, também o sistema do direito burguês ainda não estava num estado completo. A universalidade e igualdade da forma-direito ainda não estava construída; principalmente na área política (direito de eleição, direito de reunião, direito de coligação etc.), uma grande parte da população ficou excluída total ou parcialmente dos direitos burgueses. Por isso, a atenção para mudanças se dirigia antes de tudo à esfera política. Sob o nome de democracia, a reivindicação por "igualdade política e liberdade" foi declarada objetivo histórico. O "Livro negro" analisa esta orientação como uma ilusão histórica. Pois a integração das massas na cidadania moderna era ao mesmo tempo um disciplinamento que estreitava a consciência e a ação nos moldes da sociedade capitalista. Por isso, as diversas ditaduras da modernização não eram nenhum contraponto à democracia, mas um estágio histórico passageiro da própria democracia. A esperança de que sistemas democráticos de decisão poderiam regular o sistema econômico pressuposto há muito tempo foi cruelmente desacreditada. Pois, antes que os membros da sociedade do sistema produtor de mercadorias iniciem sua discussão democrática, já são definidos a priori como concorrentes econômicos. A valorização do dinheiro, o mercado e a concorrência criam alternativas irracionais que apenas a posteriori são trabalhadas pelos procedimentos democráticos. Hoje, o charme da democracia tornou-se definitivamente algo insípido. Pela crítica globalização do capital, o totalitarismo econômico do mercado leva não só a política democrática, mas a política em si ad absurdum.
D.H.: De que modo o "Livro negro" trata desta crítica globalização e do colapso do capitalismo de cassino, quando você fala até em "dinheiro desempregado"?
Hoje, em muitos países e regiões do mundo, o sistema produtor de mercadorias, e com isso a economia monetária, de fato já entrou em colapso. Nos centros ocidentais e em partes da periferia, a crise do trabalho só não aparece como crise do capital porque aqui, a "substância de trabalho", isto é a economia real, foi substituida por um desacoplamento dos mercados financeiros. A capitalização através das bolsas do "capitalismo de cassino" especulativo antecipou esperanças fictícias de ganhos de quase todo o século XXI. Esperanças que nunca mais serão realizadas. O "Livro negro" analisa este desenvolvimento através da comparação com as bolhas especulativas nos níveis da 1ª e da 2ª Revolução Industrial. Como as anteriores, também esta há de estourar. Mas também fica muito mais claro que a dimensão do "capital fictício"(Marx) hoje é muito maior do que no passado. Isto porque na 3ª Revolução Industrial o capital torna sua própria "substância de trabalho", de uma maneira muito mais profunda, algo supérfluo. Quando esta bolha estourar o estrondo abalará a sociedade capitalista mundial até ao seu fundamento.
D.H.: Como você pensa um processo de emancipação social para além do trabalho, da luta de classes, do movimento operário tradicional e da simples "cultura da recusa"?
O mecanismo funcional irracional do capital somente pode converter as gigantescas forças produtivas da microeletrônica em desemprego em massa, em estresse de eficiência e, enfim, no colapso do sistema financeiro. A perspectiva emancipatória, por outro lado, só pode consistir em transformar essas forças produtivas em ócio livre e em uma boa vida para todos. Mas, para isso, precisaria surgir um movimento social que não se definisse mais através da forma capitalististicamente constituída dos interesses concorrenciais. Precisaria ser um "movimento de apropriação" que se apropriasse diretamente dos recursos, não mais pelo desvio do mercado, do Estado, do dinheiro e da política. Isto somente é possível através da ruptura de sua própria forma-sujeito e forma de consciência. Para alcançar isso, uma "cultura da recusa" poderia ser um passo na direção correta, assim como o desenvolvimento de "formas de ajuda mútua" para além do mercado e do Estado, como também rebeliões contra as impertinências descaradas do totalitarismo econômico (até em forma eletrônica de um vírus: "I love you"). O decisivo será se os futuros movimentos sociais alcançarão a crítica radical das categorias capitalistas ou se eles se engajarão na auto-administração da miséria. A teoria não pode esboçar por si só um programa concreto e oferecer este programa ao mundo como se fosse um novo sabão em pó. A perspectiva só pode ser concretizada na ação conjunta da teoria e dos movimentos sociais emancipatórios.
D.H.: A forma literária do livro corresponde ao cinismo da realidade violenta do processo de modernização. A sua linguagem de repugnância sensível aos detalhes, desprezo sarcástico e ironia permite lembrar Adorno, não ?
Alguns críticos chamaram o "Livro negro" um "panfleto de insultos contra a economia de mercado". Essa carapuça aceito com prazer. Apenas na distância acadêmica burguesa a teoria e a análise histórica aparecem como uma observação neutra de objetos neutros. Uma crítica social, porém, pressupõe um engajamento existencial do homem inteiro, portanto também, a emoção. A ordem dominante não é apenas um sistema com mecanismos funcionais mas também uma impertinência detestável e um acúmulo de infâmias. Todos os verdadeiros críticos, de Marx até Adorno, ligaram as análises precisas à ironia e rejeição da "modernização", cuja burrice e violência insultam toda a razão humana.
D.H.: Como está sendo a recepção do livro na Alemanha?
O "Livro Negro" chamou muito mais atenção e levou a maiores tiragens do que o "Colapso da Modernização" no início da década de 90. Junto com o "Manifesto contra o trabalho", do Grupo Krisis, apresentou questionamentos para um novo debate da esquerda e alcançou um número grande de leitores. É óbvio que as resenhas nos meios de comunicação, com poucas exceções, estão sendo extremamente negativas, uma vez que se feriu o tabu de um consenso social aparentemente definitivo: "a economia de mercado e a democracia". Também os porta-vozes da antiga esquerda reagiram alergicamente, mais ainda que em relação a publicações anteriores da Revista Krisis, pois estão vendo seu barco ir a pique.
Robert Kurz
Schwarzbuch Kapitalismus: ein Abgesang auf die Marktwirtschaft
Frankfurt am Main, Eichborn Verlag, 1999

 FONTE: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz54.htm

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