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quarta-feira, 19 de junho de 2013

A CASA DE MEUS AVÓS PATERNOS

CASA DE MEUS AVÓS NA DÉCADA DE 1960 - PODEMOS VÊ-LOS AO LADO DE ALGUNS NETOS

CASA DE MEUS AVÓS NA DÉCADA DE 1990
CASA DE MEUS AVÓS EM 2012
                                            A CASA DE MEUS AVÓS PATERNOS

Texto publicado na Antologia da SOBRAMES-CE - 2010  - RECEITAS LITERÁRIAS

Era um casarão colonial, construído por um português no século XIX, que acolheu meus bisavós, Pai Arruda (Miguel Arcanjo de Araújo Costa Lopes de Aguiar Arruda) e Mãe Mento (Maria do Livramento Bezerra de Araújo Rodrigues de Vasconcelos Arruda), quando chegaram à Baturité, em julho de 1891.
Vindo de Santo Antônio de Aracati Açu, município de Sobral, meu bisavô chegou com sua mulher, sua sogra Dindinha, duas cunhadas, Antônia Amélia e Maria Elisa, e sete filhos: João, de 16, Vicente, de 15, José, de 14, Antônio, de 13, Jeremias, de 9, Ananias, de 5, e  Maria Adelina (minha avó materna), de 4 anos.
Em Baturité, nasceram mais três filhos: Eurico, Raimundo (meu avô paterno) e Mimosa.
A casa da vovó Noemy e do vovô Raimundo ficava na rua 7 de Setembro, quase em frente à de meus pais, na esquina que dava para o prédio dos Correios e ia até a rua detrás.  Tinha um portão de madeira lateral que dava acesso à porta de entrada e ao jardim com um tanque pequeno, mas que pra mim e a Goretti parecia imenso, pois lá tomávamos banho como se uma piscina fosse...
A casa de meus avós tinha o perfume das rosas que a tia Elisa, minha tia bisavó, cultivava no jardim, para ornar o Santíssimo do altar da capelinha do tio Ananias.
Eram rosas de todos os matizes: vermelhas, carmesins, encarnadas, púrpuras, amarelas, salmões, adamascadas, alaranjadas, róseas, violetas e brancas.
A mistura de seus variados perfumes nos embriagava.
O muro lateral dava para o jardim e era cheio de degraus separados por colunas artísticas, por onde nos aventurávamos, escalando-o.
Papai colocava-nos sentados nele, para fotografar-nos.
Fazia a escadinha: Lúcia, Maninha, Edna, Raimundo Luis, Ana, Goretti. Escadinha que foi crescendo com a chegada da Clêide, Fátima, Miguel, Teca, Ângela, João José, Carminha, Carlinhos e Isabel.
A casa de meus avós tinha 12 janelas duplas com ferrolhos compridos (cinco delas davam pra rua 7 de setembro e sete para o jardim), 2 salas de visitas, 9 quartos, um corredor, uma sala de jantar, uma copa, um pátio interno, uma cozinha, uma despensa, 2 banheiros e um quintal.
Na sala, um velho relógio de parede anunciava, com suas badaladas, as horas.
Esse relógio marcou o tempo feliz e infindável da minha infância. Nele, ainda bem pequena, aprendi a ler as horas e inúmeras vezes, atravessei a rua só pra chegar até a janela e espiá-lo. 
O chapeleiro onde o vovô descansava seu chapéu e sua bengala tinha um espelho e por mais alto que pulássemos, eu e a Goretti, jamais conseguimos visualizar nossos rostinhos.   Na sala principal tinham, além do sofá, a cadeira de balanço da tia Elisa que de tão pequena era cobiçada por todos os sobrinhos netos, duas cadeiras de balanço que meus avós usavam para namorar todas as noites, um bureau com um telefone preto de manivela, livros, papéis, caneta tinteiro, mata borrão, jornais, revistas etc... Ah! tinha um rádio antigo de válvulas que transmitia noticias do mundo inteiro, inclusive a vitória do Brasil na copa de 1958, na Suécia, quando o nome de Pelé soou pela primeira vez em nossos ouvidos trazendo com seus gols alegria e vibração que transbordaram para as calçadas da rua sete. 
Televisão?
Não. Televisão não tinha.
Também não fazia falta nenhuma na década de 50, quando brincávamos livres de: manjôo, macaca, jogar pedras, roda, pega-pega, esconde-esconde, arrodear o quarteirão e tudo o que nossa imaginação desse asas, sem nada saber das agruras da vida.
O vovô tinha uma perna mecânica e por isso usava uma bengala. Sabíamos disso, eu e a Goretti, e o nosso maior sonho era ver nem que fosse um pedacinho da perna quando ele se sentava. Nem sempre isso era possível, pois ele usava umas meias de cano comprido. Uma vez conseguimos visualizar o brilho prateado de sua perna e para nós foi uma glória.
As paredes da casa eram cobertas de fotografias antigas de nossos antepassados. Havia uma foto que nos intrigava.  Era a de tio Zeca, de cachinhos, com a perninha cruzada, que tinha morrido com 2 aninhos. Como era possível uma criança tão linda morrer tão pequena e a tia Elisa já velhinha ainda viva e implicando comigo, com a Goretti e com a mamãe, pois só andávamos de calcinhas? 
Na segunda sala, cadeiras e sofás de palhinhas, cristaleiras, uma mesa e um piano.  Provavelmente um Beckstein alemão de cujas teclas o tio Nelson, Tatá (irmã de minha mãe) Núbia, Lúcia, e Edna extraiam acordes melódicos que se difundiam pela casa e me encantavam como hoje, os noturnos de Chopin, as baladas de Litz e as Sonatas de Beethoven. Em cima dele havia um quadro com uma moldura em alto relevo, que retratava uma paisagem européia de inverno. Lembro-me que era um lugarejo com uma igrejinha e algumas casas cobertas de neve. A igrejinha estava iluminada. Era noite de Natal! As mulheres, com aqueles vestidos rodados e compridos, e os homens, com seus capotes, caminhavam para a missa do galo. Sem dúvida era uma paisagem européia que meus olhos de menina, nascida em Baturité, jamais haviam visto. Com certeza meus avós trouxeram aquele quadro da Europa, pois lá moraram alguns anos.          
Nem Monet com a orgia das cores de suas “ninphéias”; Toulouse Lautrec com suas célebres “dançarinas do cancan”, do Moulin Rouge, em Montmartre; Degás com suas “bailarinas” da Ópera de Paris; Matisse com suas “naturezas mortas”; Velásquez com suas “meninas”, Picasso com seu “cubismo”, Modigliani com seus magníficos “Portraits”; Van Gogh com seus “girassóis”; Renoir com “moulin de la galette”, Manet com “déjeuner sur l’herbe”; Courbet com seu escandaloso “l’Origine  du monde” e muitos outros quadros de impressionistas e outros gênios da pintura que pude apreciar, ao lado do meu Rose, nos museus da Europa, me causaram tamanha fascinação quanto aquele quadro. Ele povoou minha infância, meus sonhos de criança e minhas fantasias de viagem mundo afora.
A casa de meus avós tinha um corredor quilométrico que ligava essa segunda sala à de jantar. Eram 4 quartos só desse lado da casa. Cada quarto tinha pelo menos 3 portas. Havia o quarto do tio Juarez, tio Eurico, meu pai e tio Quelé.
Tinha também o da tia Malurdes, tia Juca, tia Teresa e tia Mazé. 
O quarto da tia Elisa era sombrio, pois sempre estava com as portas fechadas. Era lá que ela guardava a sete chaves os insondáveis mistérios de sua alma. Lembro-me de uma vez que o adentramos escondidas, eu e a Goretti, com os corações disparados descobrimos 2 baús e matamos nossa curiosidade explorando os objetos dentro deles.
O quarto da vovó era o mais intrigante, pois sabíamos que quando o vovô ia dormir tirava sua perna.Imaginávamos a perna dele descansando em cima de uma cadeira enquanto ele dormia com a vovó na cama.
 Durante o dia podíamos transitar pelo quarto, quando as portas estivessem abertas, e ficávamos fascinadas com a penteadeira da vovó. Ela era muito vaidosa e tinha tudo para alimentar sua vaidade: pó de arroz, talco, porta-jóias, perfumes, escovas de cabelo, laquê, grampos, fivelas e outros objetos. As portas do guarda-roupa eram cobertas com espelhos. Os baús enormes guardavam redes, lençóis, toalhas, colchas de labirinto e renda feitas nos bilros das rendeiras cearenses.  Um oratório com imagens de vários santos, onde meus avós faziam suas orações, ficava numa saleta.
A sala de jantar superava todas as expectativas.  Uma enorme mesa patriarcal abrigava quase todos os filhos, genros, noras e netos. Na cabeceira sentava-se o vovô.  A vovó, à sua direita. Antes das refeições eles rezavam e agradeciam a Deus o alimento. E que alimento! A Bem, cozinheira de mão cheia, que dedicou toda a sua vida aos meus avós, cozinhava em seu fogão à lenha, em panelas de ferro e barro os melhores doces que já comi. Eram de leite, banana (de rodinha), caju, goiaba, montanha russa, torta de banana com claras em neve, ambrosia etc... Todos feitos no tacho! A carne de porco assada e a galinha à cabidela, com arroz e farofa, eram do quintal dela.  Os ovos das fritadas também. A sopa de feijão e a canja de galinha aqueciam nossas almas! Que saudade do “Café de Baturité” moído em casa, no pilão, com bolo e o pão quentinho, com nata de leite, às 3h da tarde! O leite era vendido na porta, transportado, de jumento, da vacaria até a casa.  As verduras sem agrotóxicos também.
A casa de meus avós tinha todas as frutas do mundo que a serra de Baturité tão generosamente produzia: bananas, mangas, macaúbas, laranjas, cajás, limões, goiabas, tangerinas, siriguelas, graviolas, sapotis, atas, cajaranas, carambolas, mamões, pitombas, jacas e pasmem até uvas.
O quintal nos fascinava, pois a Bem criava porcos, galinhas, pavão, capotes, galos, pintinhos, peru etc. Havia um portão de madeira que o separava da cozinha. Os porcos ficavam em um chiqueiro.
Fazíamos: glu, glu, glu e o peru respondia, até a exaustão.
Tô fraco, tô fraco, tô fraco e o capote também. 
O pavão abria seu leque colorido e era uma festa para os nossos olhos.
Aventura maior era chegar do outro lado do quintal e sair por um portão de madeira grande que dava para a rua detrás. 
O silêncio da casa de meus avós era quebrado no mês de dezembro, pela algazarra dos netos, que vinham de Fortaleza passar as férias em Baturité. Aí era uma festa só.
Tudo era alegria...
À benção vovó! À benção vovô!
E eles respondiam: Deus te abençoe!
Nós éramos abençoados!
Aquela casa também, pois albergava o amor que deles transbordava, a paz e a união de um casal feliz. Aquela casa alimentou-me com esse amor que se entranhou em meu coração aquecendo até hoje minhas lembranças indeléveis de uma felicidade pura e terna de minha inesquecível infância.
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2004.

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