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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

TIO NELSON



Portrait de Nelson Lima

                                                          

                                           TIO  NELSON

A década era de 1950, o mês era de fevereiro, mas o ano ficou impreciso. Seria 1956 ou 1957? Talvez 57. O certo é que o carnaval daquele ano ficou indelevelmente gravado em minha memória, graças ao tio Nelson.

Ele chegou à Baturité com a tia Teresa e os filhos  distribuindo confete, serpentina e lança-perfume.  Imaginem, lança-perfume. Não era proibido na década de 50. Pelo contrário, era bastante difundido e vinha em forma de spray, dentro de uma embalagem de metal. Entretanto, a maneira de usá-lo era peculiar.  O nome já dizia tudo. Lançávamos o líquido a base de cloreto de etila e perfume em todos os foliões à nossa volta, sem causar-lhes danos à saúde.

Depois que passou a ser utilizado como bebida espirituosa ou inalado profundamente, descobriu-se que o lança-perfume fazia mal à saúde. Na década de 1960, o mesmo foi proibido nos bailes carnavalescos e, posteriormente, teve a sua comercialização vetada.

Mas, voltemos ao carnaval de Baturité. Com muita ansiedade aguardávamos os três dias de folia, pois tudo era alegria, energia e felicidade. O que retive em minha memória foi a figura elegante do tio Nelson distribuindo sacos de confete e jogando serpentina por cima dos fícus-benjamins para enfeitar a Rua 7 de Setembro e esperar a passagem de blocos e de carros, chamados corsos.

Os sacos de confete ele os distribuia com os filhos e sobrinhos e olhem que eram muitos, pois a casa da vovó Noemy ficava cheia de netos durante as férias de final de ano. Lembro-me do desfile de um bloco carnavalesco cujos integrantes estavam todos vestidos de mulher,  batendo em latas e cantando: “Menina vai/ Com jeito vai/ Se não um dia/ a casa cai”.

Tinha também desfile de Jeeps sem capotas, lotados de foliões que desfilavam cantando marchinhas da época.  Quando passavam em frente a casa da vovó, na Rua Sete, nós jogávamos confetes e serpentinas enfeitando mais ainda o carro que saía arrastando as serpentinas, com seus foliões fantasiados de colombina, pierrô etc...

Cantávamos todos:   “Ó abre alas que eu quero passar/Ó abre alas que eu quero passar/Eu sou da lira não posso negar/ Eu sou da lira não posso negar”. “Allah ô ô ô/ Mas que calor, ô ô ô ô ô ô/ Atravessamos o deserto do Saara/ O sol estava quente/ Queimou a nossa cara”. “Se você fosse sincera/ Ô ô ô ô Aurora/Veja só que bom que era/ Ô ô ô ô Aurora”. “Você pensa que cachaça é água/Cachaça não é água não/Cachaça vem do alambique/E água vem do ribeirão”. “Chiquita bacana lá da Martinica/Se veste com uma casca de banana nanica”. “A vitória há de ser tua, tua, tua Morenininha prosa/ Lá no céu a própria lua, lua, lua/Não é mais formosa”. “Mamãe eu quero/Mamãe eu quero/Mamãe eu quero mamar”. “O teu cabelo não nega mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega mulata/Mulata eu quero o teu amor”. “As águas vão rolar /Garrafa cheia eu não quero ver sobrar”. “Taí eu fiz tudo pra você gostar de mim/Ai meu bem não faz assim comigo não”. “Chegou a turma do funil/Todo mundo bebe/Mas ninguém dorme no ponto” etc...

Eram assim, os nossos carnavais. Como tudo em nossa infância, tinha um sabor especial, um sabor de inocência que se perdeu com o tempo. Tio Nelson ficou em minha memória para sempre. Poderia contar tantos outros episódios e descrever tantas peculiaridades de sua maneira singular de ser, mas preferi homenageá-lo, na passagem de seu primeiro centenário de nascimento, contando este carnaval que teve sabor diferente, sabor de festa, sabor de alegria graças à sua generosidade e capacidade de nos encantar...

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

Fortaleza, 21 de dezembro de 2012






2 comentários:

  1. Oi Ana, realmente essa oportunidade de lembrar meu pai e relembrar suas histórias nos emociona muito. Lembro muito bem dessa maneira de comemorarmos o carnaval, fantasias, confetes, serpentinas e a tal lança-perfume, uma brincadeira inocente naquela época e os corsos desfiles de Jeepes... E fazíamos em Fortaleza também. Muito bom! Obrigado! Beijos! Zé Nelson.

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  2. Zé Nelson,
    Para mim foi um grande prazer recordar o tio Nelson, que tanto marcou as nossas vidas. Eu sou quem agradece a oportunidade de escrever um texto sobre seu pai. bj

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