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domingo, 2 de dezembro de 2012

MOSTEIRO DOS JESUÍTAS DE BATURITÉ - 90 ANOS DE HISTÓRIA

Ana Margarida falando sobre o dia histórico da fundação do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité

       O dia 3 de dezembro de 1922 entrou para a história. Na manhã daquele dia, o sol banhava intensamente as verdejantes serras que circundavam a provinciana cidadezinha de Baturité. A comitiva do Sr. Arcebispo de Fortaleza, Dom Manoel da Silva Gomes, chegou ao cimo do morro acompanhada pelo Coronel Ananias Arruda, Padre Antônio de Oliveira Pinto, Monsenhor Manoel Cândido dos Santos e o Juiz de Baturité, dr. Ábner Vasconcelos. Integravam o séquito comandado por Dom Manoel o Ministro da Viação, o Presidente do Estado do Ceará, um representante da Inspetoria de Secas e outro da Rede de Viação Cearense.

Todos queriam participar dessa solenidade, inclusive, jornalistas, religiosos e pessoas do povo, haja a vista marcar o início da saga dos jesuítas em Baturité. Era a colocação da Pedra Fundamental para a construção de uma Escola Apostólica. Dom Manoel benzeu solenemente a pedra que foi retirada das ruínas da antiga Igreja dos Jesuítas, na cidade de Aquiraz, no Ceará, que fora demolida quando os jesuítas foram expulsos, em 1748.

Em uma cavidade preparada especialmente para abrigar a referida pedra, foram colocadas também várias moedas em circulação, um exemplar do jornal “A Verdade”, e um precioso pergaminho, no qual o Dr. Andrade Furtado, redator chefe do jornal “O Nordeste” lavrou uma ata histórica da cerimônia, que foi assinada pelo Arcebispo, pelos membros da sua comitiva e por muitos dos presentes. O mestre Abel Maia redigiu, para a posteridade: Pedra, Ruínas, Igreja Aquiraz P.P. Jesuítas 1748, primeira pedra E. Apostólica P.P. Jesuítas de Baturité, 3-XII-1922.

A partir daquele instante, Ananias Arruda ficou responsável pelo andamento da obra que foi iniciada no dia 3 de janeiro de 1923. Além dele, Dona Libânia de Holanda contribuiu significativamente para a construção. O Padre Pinto fez uma verdadeira peregrinação pelo Brasil e outros países, angariando recursos para o arrojado projeto da Escola Apostólica. Foi um renomado engenheiro de São Paulo quem projetou sua construção numa área de terra de 110 metros de frente por 78 de fundos.

Em 15 de agosto de 1927, concluída a parte lateral do prédio, a Escola Apostólica dos Padres Jesuítas de Baturité foi solenemente inaugurada, com a benção de suas dependências pelo Arcebispo de Fortaleza, Dom Manuel da Silva Gomes, sendo então celebrada uma missa campal com a participação de um grande número de pessoas.

Foram Jesuítas fundadores: Padre José Celestino – Reitor; Padre Paulino Vielledent – Ministro; Padre Joaquim Teixeira – Prefeito dos Apóstolo; Padre Felipe Pinheiro; Padre Alexandrino Monteiro; Irmão Bosco; Irmão Fernandes e Irmão Oliveira. Os primeiros cinco alunos chegaram no dia 18 de agosto do mesmo ano. Quatro deles de Baturité: Edmundo Silveira Flores, Luiz Dória, José Furtado e Luis Arruda Furtado.

Celeiro de cultura, a Escola prestou inestimável serviço à Região Nordeste do Brasil, justo por difundir conhecimentos, preparando jovens para o apostolado. Desse modo, os jesuítas, com sua Escola Apostólica, transformaram Baturité em um oásis de conhecimento. Centenas de jovens de Baturité, de outras cidades do Ceará e do Nordeste estudaram na Escola Apostólica. Ensinava-se ali teologia, ciências gerais, história, matemática, latim, italiano, francês, português e até grego. Recitava-se a “Odisséia” de Homero, a “Divina Comédia” de Dantes, “Édipo o Rei” de Sófocles, o teatro de Corneille e Racine e os “Sermões Discursos” de história universal de Bossuet. Baturité foi, portanto, uma ampla janela de cultura.

Quando, em 1977, o Prof. Luis Arruda Furtado proferiu um magnífico discurso para comemorar os 50 anos da Escola Apostólica, lamentou ele o abandono a que fora a mesma relegada. Fazendo votos para que a Escola voltasse a brilhar, fez uma bela imagem metafórica que transcrevo abaixo:



“Diz Virgílio na Eneida, que sentindo Enéas ser insustentável a situação de Troia, teria abandonado seus muros, levando aos ombros seu velho pai Anquises. Deixo, hoje, os muros desta Escola, levando aos ombros recordações guardadas por meio século, reminiscências acumuladas por 50 anos, que eu mesmo não sei como não as perdi, não as deixei cair uma a uma, pelos invios e tortuosos caminhos da vida. Mas, ao passar por entre as minhas duas velhas amigas, as palmeiras imperiais, São Pedro e São Paulo, faço votos para que esta Escola, amoldando-se às necessidades do século hodierno, reabra as suas portas. Faço votos para que o vento do cimo da montanha, descendo por entre as verdes frondes dos laranjais e dos mangueirais, ao espraiar-se pela planície lá embaixo, não murmure mais aos ouvidos dos que passam: “Illinc campus ubi Troia fuit”, ali é o local onde foi Troia, mas brade alto e bom som, “Illinc condita nova Hierosolima”, ali se ergue uma nova Jerusalém”.



E uma “Nova Jerusalém” foi erguida. Os votos do Prof. Luis Furtado foram concretizados. Hoje, 35 anos após o memorável discurso, a Escola se adaptou ao novo século e desafia o tempo. Com a denominação de Mosteiro dos Jesuítas, a antiga Escola Apostólica foi revitalizada. Missas, retiros, congressos, eventos, catequeses e grupos de oração lhe dão uma vida nova, vibrante e perene.


 Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

Baturité, 2 de dezembro de 2012

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