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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

MARIA LUIZA

MARIA LUIZA E ANDREA - SUA FILHA- CERCADAS DE CONVIDADOS NA COMEMORAÇÃO DE SEU ANIVERSÁRIO - 27 DE NOV DE 2012  - NA AVENIDA DA UNIVERSIDADE EM FRENTE AO TEATRO CHICO ANÍSIO- FORTALEZA-CE. ELA ESTÁ ASSISTINDO A HOMENAGEM NO TELÃO E QUANDO ME VIU SORRIU PARA MIM


Por    Maria Juraci Maia Cavalcante



Entre uma onda ruidosa de pessoas, eu a vi de longe a brilhar, vestida com uma blusa de seda estampada. Reconheci-a pelo porte elegante, a tez erguida, o perfil lapidado de mulher bonita, a aura da guerreira de justas causas. Em poucos instantes me chegavam imagens que guardo na memória desse convívio público com ela. Que foi a mestra com quem aprendi o valor da imaginação e da responsabilidade sociológica. Ecoa com perfeição a sonoridade compassada da sua voz firme a enunciar a crítica contundente à ditadura militar e ao capitalismo. Primeiramente, eu a escutava em sala de aula, dialogava com ela, como aluna e monitora de Sociologia. Pouco a pouco, ela já não cabia mais ali. Estava a dirigir reuniões mais amplas do movimento pela Anistia e volta do estado de direito, nos últimos anos da década de 1970. Subia em palanques e, ao som do microfone, a sua mensagem política era dirigida para multidões inquietas em praças do centro e de outros bairros de Fortaleza. Admirava-me de sua coragem pessoal, da aliança que fazia com a ala progressista da Igreja Católica e diversas forças políticas de uma frente democrática que crescia feito uma maré; das denúncias dela de arbítrio, desrespeito de autoridades do Ceará aos moradores favelados e perseguição política aos opositores do regime militar. Feito uma estrela de inesperado e surpreendente brilho, ela riscava o céu de um ambiente político cinzento e abafado, infestado de figuras sinistras, designadas pelo alto, para cumprir mandatos e gestões biônicas. Ela se apresentava como guia de uma nova compreensão e prática política, pautada no humanismo e na justiça social, na liberdade de expressão e ação social. Foi quando ela se fez candidata à prefeitura de Fortaleza, sendo eleita pelo voto popular, demarcando a mais bonita e expressiva vitória eleitoral que esta cidade já teve, sem precisar comprar um eleitor sequer, nem de recursos mirabolantes de marketing. Nos comícios que ela fazia, as praças se transformavam em imensas escolas abertas, onde a ciência política que ela sistematizara em seu percurso de jovem militante católica, no curso de Serviço Social e no mestrado em Sociologia que realizou nos Estados Unidos da América, era ensinada com leveza e sabedoria, ilustrada com a problemática política e social do cotidiano que nos impedia de viver melhor. Brava guerreira, ela eletrizava auditórios, públicos inteiros compostos, tanto por intelectuais, quanto por pessoas simples do povo, por jovens e velhos militantes, por comerciários e trabalhadores de categorias diversas, por policiais e vendedores ambulantes, por donas de casa e professores universitários, profissionais liberais e irmandades religiosas. Maria Luiza se transformara na mais importante figura política do Ceará e do Brasil, estampada em capas de revistas e na primeira página dos jornais de circulação nacional. Sofreu obviamente perseguição política como gestora municipal. Sua estratégia democrática de gestão, seu diagnóstico da problemática política e administrativa de uma cidade governada por políticos acordes com a ditadura militar – que foi chamado de “Fortaleza, nunca mais” e feito por uma equipe interdisciplinar de especialistas das mais diversas áreas, onde o clientelismo gritante, por exemplo, era revelado por meio de uma lista de nomes de funcionários pagos pelo erário municipal, em acúmulo de cargos e que jamais puseram os pés no trabalho – sua disposição de humanizar o espaço e equipamento urbano da cidade, tudo incomodava a segmentos interessados em perpetuar o estado político que lhes fora durante muito tempo favorável. Veio a guerra do lixo, do aprisionamento de recursos municipais, dos ataques morais e da calúnia nos meios de comunicação de massa. Tudo evidenciava o choque de sua liderança e visão política com princípios confusos e inconfessáveis de forças políticas da direita, do centro e da suposta esquerda que recomeçava a se organizar no cenário de reconstrução da democracia no País. Em meio a tudo isso, nunca se teve notícia de uma ação degradante ou corrupta da Prefeitura dirigida por ela. Quando a sua gestão chegou ao fim, o prefeito que lhe seguiu começou o seu mandato, agradecendo a ela por ter-lhe entregue uma máquina administrativa municipal inteiramente saneada, que lhe permitiria começar a realizar projetos de infra-estrutura necessários numa cidade em expansão produtiva e demográfica. Ela continuou a perseverar na idéia de um modo libertário de fazer política, denunciando a velhacaria partidária, a degradação moral de uma dita esquerda, que pouco a pouco dissolveu a barreira que a deveria em tese separar da direita esperta e corrupta, sempre em defesa do enriquecimento ilícito e célere à sombra do dinheiro público. É esta a Maria Luiza que conheci e vi crescer como exemplo político de incontestável honestidade e envergadura ética, que completa agora 70 anos de vida. Lúcida, admirável, bela, corajosa, continuará a ser o nosso modelo de entender e fazer sociologia e política, bem como de uma multidão de jovens a quem caberá levar adiante o seu exemplo de força, dignidade e coragem política. Obrigada, Maria Luiza, minha mestra e para sempre estrela de primeira grandeza! Com você aprendi ainda jovenzinha muita coisa, como ser professora e cidadã ou desejar que a vida coletiva seja feita de algo bem melhor do que a promessa vã contida na velha política, que é feita nos marcos de um capitalismo viciado, irracional, desumano e sem futuro!



Juraci foi Ex-Monitora de Maria Luiza Fontenele, na Disciplina de Teorias Sociológicas do Departamento de Ciências Sociais da UFC.




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