Google+ Followers

terça-feira, 11 de setembro de 2012

EMBEVECIDO

                                                                                                                         
Esta crônica foi escrita por Airton Monte, no dia 29 de julho de 2012. Poderia ter sido escrita por mim, se tivesse o domínio das letras, como ele. Neste dia, 29 de julho de 2012, minha neta, Ana Letícia, chegou  para alegrar e adoçar nossas vidas. EMBEVECIDA foi como me senti. EMBRIAGADA, mas de felicidade, foi como fiquei. Para homenagear Airton Monte, que partiu ontem, dia 10 de setembro de 2012, transcrevo sua crônica.

AIRTON MONTE



EMBEVECIDO

                                                                                                                Por Airton Monte

O dia vinte e nove de julho deu de amanhecer radioso, cintilante, belo como se o domingo estivesse estreando uma roupa nova feita do mais puro e límpido esplendor. Tudo ao meu redor veste-se de claridade e de luz tal e qual assim deveriam nascer todos os domingos de minha vida. Hoje é um bom dia para fugir de casa feito um menino travesso, procurando estripulia e sair passeando livre, leve e solto pela cidade em busca do inesperado que bem pode estar escondido atrás da curva da próxima esquina. Não como se fosse um ladrão à procura de vítima, mas sob a fraterna forma de um amigo querido com quem se pode matar as saudades antigas e trocar conversa fiada durante horas perdidas. Perdidas não, achadas. Jamais as horas passadas na companhia dos amigos são perdidas. Por falar nisso, para minha triste surpresa, nenhum camarada me telefonou até agora para me dar somente boas notícias do mundo, contar-me alegres novidades de outros companheiros. Faz-me uma falta danada, sem par, ouvir aquelas fraternais vozes que me falam direto ao coração. Todavia, não posso me queixar dessas ausências afetivas ocasionais. Os amigos têm lá a sua vida própria, outros amigos também tão merecedores de sua atenção quanto este suburbano e ciumento escriba.

No entanto, creio que já basta, já chega de entoar resmungos e queixumes, do contrário vou acabar me transformando no que detesto ser: um insuportável velhote mimado, enfezado, ranzinza, resmungão feito muitos que conheço por aí. Melhor aproveitar, em toda a sua intensidade, a beleza desse dia que a natureza generosamente me ofertou e de graça. Mui principalmente porque não sei quando outro igual a esse virá bater à minha porta. E porque não sou o umbigo do mundo nem o centro do universo, embora, por vezes, até me alegre em pensar desse modo narcísico, juvenil. Além do mais, essa minha solidão é muito mais aparente, ilusória, circunstancial do que propriamente real. Ah, como os escritores mentem deslavadamente, meus caros. Vícios do ofício. Às vezes, é natural de mim colocar um tanto de exagero nas minhas emoções e sentimentos. Coisas tolas de um incurável romântico sessentão, que ainda guarda dentro do agoniado coração um tantinho de meninice, um inolvidável sabor da longínqua infância. Pois é, a infância. A provar que o passado não passa. Encontra-se demasiado presente não somente nas lembranças. Feliz do homem que, apesar de envelhecer, nunca perde o infante moleque que o habita. E que, de quando em quando, volta a aparecer vindo lá do não sei onde. Assim sou eu e assim percebo que fui durante a existência inteira. Se me faz bem ou mal, pouco me importa, confesso. Sou uma espécie de Peter Pan que não transformou-se em Capitão Gancho depois que cresceu.

Será verdade que um homem pode embriagar-se de domingos? Claro que sim. Porque hoje eu estou liricamente embriagado do resplandecer desse domingo primordial. Então, logo me vem à lembrança um trecho de um poema de Charles Baudelaire: “É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentires o fardo horrível do tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis, sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtudes, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis”. E como, então, não concordar com Baudelaire nesse exato momento de total deslumbramento dominical, embora eu me encontre completamente sóbrio às três horas em ponto da tarde? Mesmo sem beber uma só gota de álcool, bêbado estou com a beleza das coisas que ora me rodeiam. A meus olhos bêbados o mundo parece novo como se eu nunca o houvesse visto antes. A música que escuto, as palavras que leio, o filme que vejo na televisão me são desconhecidos, apesar de já haver escutado, lido, visto. Menos aquilo que escrevo. E escrevo sempre partindo do que conheço até atingir o que desconheço e mais além, quando me é possível. E nem sempre é possível ir mais além do que aquilo que já conheço de outros velhos carnavais. Ecos, ressonâncias que se repetem e se repetem.

Até a minha cara no espelho, enquanto faço a barba rala, me parece a cara de outro sujeito, sem vincos de amargura, despida das rugas de tristeza, os lábios entreabertos num sorriso, um brilho, um lume de indisfarçável alegria reluzindo no fundo castanho das pupilas. Sem dúvida, estou bêbado desse domingo inebriante. Sinto-me tomado por uma embriaguez diferente daquelas a que estava habituado. E com a enorme vantagem de amanhã não despertar com gosto de fundo de gaiola na boca, morrendo de ressaca, entre ânsias de vômito e náuseas. Vontade de cantar canções dolentes, de dançar boleros com minha mulher, de recitar poemas tirados de uma empoeirada crestomatia, de jogar bola no meio da rua, de comer algodão doce, de fazer amor no leito conjugal, de beijar meus filhos como se fossem pequeninos, de confessar todos os meus pecados mortais e veniais, de rezar, contrito, a Ave-Maria às seis da tarde, de pensar que sou um homem bom como sempre desejei ser. E enquanto espero, banhado em calma, a noite chegar, anseio que essa minha embriaguez insólita não me abandone tão cedo para que eu consiga dormir, enfim, o sono dos justos e dos inocentes.

2 comentários:

  1. Para mim, Airton, nesta crônica,se despedia de tudo o que a vida lhe significava e que parecia se mostrar através daquele domingo de esplendor: o lado bom de seu ser, a sua espiritualidade, as suas memórias da infância, o seu amor pela mulher, pelos filhos, pelos amigos, pela sua cidade e pela poesia.
    Parece que ele vislumbrou toda a beleza da vida em um só dia; parece que ele também vislumbrava a proximidade da morte.
    Não nesta noite, mas muito cedo para todos os seus leitores,Airton, você dormiu enfim o sono dos justos e dos inocentes.

    ResponderExcluir
  2. Bela e sábia interpretação desta crônica, Ângela. Certamente Airton dorme tranquilo o sono merecido...

    ResponderExcluir