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sábado, 25 de agosto de 2012

MESTRE ROSEMBERG

TARANTINO E ROSEMBERG - RIO DE JANEIRO - MAIO DE 2004 - CONGRESSO DE PNEUMOLOGIA INFANTIL
 

Por Affonso Berardinelli Tarantino
   Membro da Academia Nacional de Medicina



No dia 11 de junho de 2005, durante o V Congresso Brasileiro de Asma, realizado no Rio de Janeiro, saudei José Rosemberg ao entregar-lhe o Prêmio Excelência em Pneumologia, conferido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Esse prêmio é patrocinado pelo titular da disciplina de Pneumologia, Acadêmico Professor J. M. Jansen. Hoje, na semana de seu falecimento, reproduzo essa minha fala.

Mas para lembrar Rosemberg só mesmo a frase de W. Bernardinelli, que não me canso de repetir: “A terra mãe das árvores e das flores receberá teu corpo, mas teu cérebro não será cinza, será luz. Teu coração não será pó, será árvore que agasalha”.

Tu que viveste repartindo bondade e saber, infinitamente repartindo, viverás nas flores, nos ventos e nas saudades – não morre quem nos outros viveu. Não morre quem nos outros vive.

Nas primeiras edições de nosso “Doenças Pulmonares”, no capítulo sobre tuberculose, o nome Rosemberg vinha sempre após o nosso; nas edições sucessivas ele apareceu ao meu lado, nas últimas em primeiro lugar, nas futuras estará seguramente sozinho. Sempre me coloquei, junto dele, no lugar de honra, isto é, como vice. Ser segundo de Rosemberg é ganhar hoje o Nobel de amanhã. Sinto por José Rosemberg algo como um simulacro de inveja de mim mesmo. Não é fácil de explicar, é um sentimento bíblico, que não subtrai nada, mas acrescenta ternura e muita admiração.

Rosemberg é uma inteligência crônica com paroxismos de gênio: uma inteligência em estado de graça. Com relação aos incontáveis merecidos títulos na especialidade, recuso-me com veemência a enumerá-los, por serem por demais conhecidos, e respeito assim a qualidade precípua de um orador, a breviloqüência.

O Rosemberg, para quem não sabe, tem uma outra qualidade, é meu conterrâneo: nascemos em S. José dos Campos, no Vale do Paraíba... no doce vale deste rio sereno de ar tão puro quanto o sol ameno, passei meus dias da melhor idade, brinquei meus dias de maior saudade...
Ele previu, com mais de meio século de antecedência, o lugar que estaria reservado ao BCG, ele, o discípulo mais amado de Arlindo de Assis em companhia de São Maragão - por mim beatificado em vida e in pectore como tal. Ambos comportaram-se como dois cruzados numa guerra santa pelo BCG. Acompanhei essa batalha, muito embora mais como expectador. Rosemberg foi o inventor de outra guerra no continente, contra o tabagismo - basta ver os galardões que recebeu e vem recebendo como símbolo do antitabagismo no Brasil.

Queria não me sentir tão emocionado para contar-lhes mais sobre Rosemberg - não tão calmo, como o ministro Disraeli, que bocejou, por várias vezes, enquanto proferia um discurso em pleno parlamento inglês.
Na verdade, sinto-me hoje, aqui e agora, como se estivesse recebendo o Prêmio Mestre Aloysio de Paula pela segunda vez. Sentir-me-ia irremediavelmente frustrado caso não fosse eu que aqui estivesse para saudá-lo, meu querido! Mais uma vez devo essa honra ao particular amigo Jansen, título este que desde o começo do ano valoriza o meu currículo.

E sobre sua digníssima esposa, Professora Ana, você não vai fazer nenhuma menção? Vou sim. Numa das últimas vezes que o Rosemberg esteve em nossa casa, num arroubo de indiscrição, Neusa, minha mulher, saiu-se com esta: entre todos vocês, octagenários assumidos, o mais conservado é sem dúvida o Rosemberg. Olha que entre o grupo presente havia uns sexagenários "adolescentes". O casamento com a Doutora Ana acabara de realizar o milagre da eterna juventude.
E, para terminar, caso fosse necessário trazer o Rosemberg no colo até este local e me perguntassem “está pesado?”, eu prontamente responderia: “não, ele é meu irmão”.

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