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quarta-feira, 11 de abril de 2012

DISCURSO PROFERIDO PELO PROF. LUIS ARRUDA FURTADO - 3ª PARTE


Luis Arruda Furtado

Cinco fomos os baturiteenses fundadores da Escola. Os números foram dados por ordem de idade. Daniel Franco, nº 1; Luis Dória, nº 2; Job Saraiva Furtado, nº 3; José Saraiva Furtado, nº 4; e Luis Arruda Furtado, nº 5. O José Furtado morreu nesta Escola, vítima de um acidente, em 1930, aos 15 anos; Luis Dória, alguns anos depois, em Fortaleza e Daniel Franco há dois ou três anos, em Baturité. Aos companheiros desaparecidos, a nossa saudade. Vivos, somente Job Saraiva Furtado, aqui presente, e eu. Meus amigos, há uma bela imagem empregada pelo Pe. Aloisio Furtado, nosso contemporâneo e que infelizmente se encontra enfermo nesta Escola, a quem desejo completo restabelecimento, no seu livro “Se o grão não morre”, contando que: “Homero, o imortal autor da Ilíada, velho, cego, tacteante, procurando reconstituir os sítios de determinada cidade e ferindo as pedras com o bastão, teria exclamado: Il linc Troia, alí foi Tróia. E voltou Homero para a estrada de Ítaca, chorando a eterna Ílion de seus sonhos destruida.” Olhando-se para o passado e vendo-se a nossa Escola no presente, poderia compará-la àquela florescente cidade, outrora dominadora da África, a rainha do Mediterrâneo, a lendária e esplendorosa cidade de Aníbal, a Cartago púnica e romana, destruida e nunca mais reedificada. Poderia compará-la também a Pompéia, não devastada pelas lavas incadecentes do Vesúvio, mas subjugada, contra gosto, pelos imperativos e injuções do século em que vivemos. Poderia compará-la ainda a Jerusalém, em que não ficou pedra sobre pedra, derruida, derrocada, ante o impacto das forças imbatíveis das legiões romanas. Dada, porém, a minha formação clássica, aqui obtida, prefiro compará-la à Troia. Todos nós somos testemunhas do apogeu, dos tempos áureos desta Escola. Eu mesmo vi muitas destas paredes subirem e quantas destas pedras, ainda mornas pela explosão de dinamite em uma pedreira aqui ao lado, eu as tive em minhas mãos de adolescente; essas pedras são testemunhas mudas de que aqui foi Troia. Na nossa capelinha, de tão gratas recordações para os mais antigos, já não se oficiam os atos religiosos. Naquele páteo, que nenhum de nós jamais esquecerá, não se jogam mais foot-ball, basket-ball e outros jogos. Nesses corredores não se ouvem mais a algazarra, a gritaria e a alegria palpitante de vida dos apostólicos. Essa velha escada já não sente mais o pisar ritmado, nem em tempo de férias, a correria desenfreiada que tantos dissabores causava ao Pe. Teixeira. Esse velho corrimão, já não sente mais o deslisar de mãos finas de meninos e adolescentes. Nesses vastos salões já não se realizam mais as academias e sessões lítero-musicais, nem as prédicas e aulas de nossos mestres. Quem não se lembra daquele trecho de nosso livro de português “Última corrida de touros em Salvaterra”? Quem já terá esquecido o nosso livro de inglês “Estrada Suave”? Quem não se lembra da admirável gramática portuguesa de Eduardo Carlos Pereira, da incomparável gramática latina de Lobera, de nosso livro grego de Ragón? Quem não se lembra do “De bello Gallico”, de Júlio César? Do “De viris illustribus”, de Cornélio Nepote? Das Fábulas de Fedro? Das Metamorfoses, de Ovídeo? Das Odes, de Horácio? Das Églogas e de Eneida, de Virgílio? Das cartas e orações, de Cícero? Será possivel que vocês já esqueceram do nosso primeiro livro de latim? Desse latim que nos foi transmitido com pronuncia lusitana, que ainda mantenho como recordação de nossos mestres; desse latim que o Ministério da Educação retirou do currículo escolar brasileiro; latim que a Igreja católica manteve vivo por quase dois mil anos; latim que acompanhava a vida do católico, do berço ao túmulo, do “Ego te baptismo” ao “Ego te Absolvo” da extrema-unção; latim que deu o nome continente inteiro, qual seja o Continente Latino-Americano. Lingua flexiva indo-europeu itálica, fonte e mãe, segundo um grande gramático, das nais belas linguas faladas pelos povos modernos. Quem já esqueceu a “Seletina”, “Deus creavit coelum et terram intra sex dies”?  Qual de vocês não volta ao passado e se reencoantra num desses salões, ao ouvir emocionado a primeira estrofe de Eneida de Virgílio, o expoente máximo da literatura latina na poesia? Quem não se emociona –
“Arma virumque cano: Troiae que primus ab oris
Italiam, fato profugus, Lavinaque venit
Littora, multum ille e terris jactatus at alto
Vi Superum, saevae memorem lunonis ob iram”?
Quantas vezsa não lemos, analisamos e decoramos trechos daquele outro monumental poema , “os Lusíadas”, em que Camões canta a epopéia e os feitos da gente lusitana, o qual, à semelhança de virgílio, começou:
“As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana”.
Quem já esqueceu o grande Marco Túlio Cícero, o maior orador do Império Romano, o qual, dizia o Pe. Alexandrino Monteiro, teria sido santo se tivesse vivido no Cristianismo? Quem já esqueceu a mundialmente conhecida Primeira Catilinária:
“Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
Quamdiu etiam furor iste tuus nos eludet?
Quem ad sese effrenta jactabit audacia?
Oh tempora, oh mores, oh tempos, oh costumes, dizia o grande Cícero

Continua,  aguardem...

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