Google+ Followers

sexta-feira, 16 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – QUINTA PARTE: as travessuras


Filhos do casal Edgy e Adelina, com primos, primas e amigos, em Baturité.

Lucia, Maninha e Edna com amigas

Filhos da casal Edgy e Adelina com primos e primas, em Baturité.


Na rua 15 de novembro, em Baturité, na década de 1950, tinha uma casa abandonada  que  para nós era mal-assombrada e nos causava grande pavor. Sempre que por lá passávamos,  metíamos o pé em desembalada carreira com medo das almas do outro mundo. A respiração ficava ofegante e o coração quase saia pela boca até virarmos o beco do cine, quando desacelerávamos aliviadas.  Em compensação existiam outras casas que nos acolhiam como se nossas fossem. As opções eram muitas. Recordo-me bem das seguintes: vovó Noemy, tio Ananias, Tiinhas, dona Noemy e seu Edmundo, Laurenice, dona Neila, Mirian, Ângela Brito, Márcia e Mércia, Helena Elba, Roberto Lucena e muitas outras. As portas não tinham trancas. Por isso, em todas elas brincávamos como na casa de nossos pais.
A Lúcia, além do piano, tocava acordeon. A Maninha imitava, mas quase nada tocava. A Edna era a dançarina que sonhava ser um dia uma grande bailarina. E tanto ela pelejou que na ponta dos pés dançou.
O Raimundo Luiz, o mais levado, arranhou com a agulha da radiola do meu pai, um disco raro. Foi um Deus nos acuda quando o papai chegou. Certa vez, ele fugiu do colégio e fez muitas travessuras. Com aqueles olhos verdes, herdados da minha mãe, seduzia qualquer um e era o queridinho da tia Luizinha, tia Rosinha e tio Ananias.
Lembro-me que em um dia resolvemos quebrar a rotina e fomos até a maternidade, eu a Goretti e o Raimundo Luiz, só para bisbilhotar. Como ninguém nos barrou fomos entrando em todos os lugares. De repente, uma visão de tirar o fôlego: uma mulher parindo. Gravei na retina, para sempre, aquela mulher com as pernas abertas pintadas de mercúrio cromo. Uma freira correu e fechou a porta em nossa cara. Ficamos apavorados e com muito medo. Não sei como, mas a mamãe soube da travessura, pois quando chegamos em casa ganhamos uns bolos nas duas mãos. Também, às vezes, brigávamos e nos agarrávamos pelos cabelos, arranhando-nos com as unhas, mas eram brigas de irmãos que logo, logo se resolviam.
Um dia, eu e a Goretti matamos a curiosidade de ver uma mulher nua, olhando pela brecha da porta do banheiro, uma de nossas empregadas tomando banho. Os seios fartos, o sexo cabeludo, a descoberta, o pecado. Nossa consciência pesou e fomos contar ao padre. Para nós tudo era pecado!  
No quintal tinha um tanque grande, pintinhos, galinhas e os pombinhos da Goretti.  No tanque tomávamos banhos inesquecíveis, num canto do quintal fazíamos o guisado em panelinhas de barro. O portão de lado com uma pesada tranca dava saída para o cine beco. Quando chovia mais forte corríamos pra tomar banho de bica. Que banhos maravilhosos! Os barquinhos de papel descendo pelas coxias atiçavam a nossa imaginação. Tudo era festa, alegria e fantasia!
            À noite, depois do jantar, íamos brincar na calçada.  Nas noites de lua cheia contávamos as estrelas, os carneirinhos de nuvens e espiávamos a estrela d’Alva. Depois, começavam as brincadeiras: quem é que tem o anel? Tínhamos que adivinhar. Além dessa, tinha a do grilo. Cadê o grilo? Está lá atrás. Porém, a melhor de todas era a do general. Cada um de nós recebia uma denominação: generalíssimo, general de divisão, general de brigada, coronel, tenente coronel, major, capitão, tenente, sargento, cabo e rapadura melada.
 Generalíssimo passou em revista as suas tropas e sentiu falta do capitão.
-O capitão não falta, quem falta é o coronel.
-O coronel não falta, quem falta é o major.
-O major não falta, quem falta é o general de brigada.
-O general de brigada não falta, quem falta é o tenente coronel.
E assim a noite passava até a hora de deitar.
Tudo era fantasia na nossa infância. Um tempo feliz que permanecerá para sempre, indelével, em  minha memória.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2002.

PS: Os dizeres da brincadeira do generalíssimo foram alterados porque a Lúcia e a Edna lembraram-se das expressões usadas na época. 

 

 


7 comentários:

  1. Parabéns, Ana! Mais um texto lindo e emocionante. Adorei!

    ResponderExcluir
  2. Foi a nossa infância, Edna. Um tempo em
    que não havia violência e que podíamos brincar na rua sem medo de nada. Quanta saudade!

    ResponderExcluir
  3. DO FACEBOOK

    Luiz Arruda:
    FANTÁSTICO ANA. PARABÉNS. ME EMOCIONOU DEMAIS

    ResponderExcluir
  4. DO FACEBOOK

    Goretti Arruda Bezerra:
    Que bom registrar esse tempo impar, para essas maravilhosas lembranças não se perderem para sempre.Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  5. DO E-MAIL

    Cara Ana Margarida,
    Bom dia!
    O seu primoroso texto sobre as travessuras infantis nos remonta ao tempo em que éramos felizes e não sabíamos.
    Parabéns. Essa série de memórias, combinada com o vasto acervo fotográfico familiar, são um bom ponto de partida para o seu primeiro livro.
    Abraços,

    Marcelo Gurgel

    ResponderExcluir
  6. EMOCIONANTE....PARTICIPEI MUITO DOS GUISADOS....FEITOS EM PANELINHAS BARRO....COMIDINHA BOA TEMPERADA COM EMOÇÃO,SONHOS E ALEGRIAS....
    PARABÉNS, MAIS UMA VEZ,PELO BELÍSSIMO TEXTO.

    ResponderExcluir
  7. Obrigada, Núbia. Sei que você fez parte de nossa infância e foi uma prima muito querida. Ainda é...

    ResponderExcluir