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quinta-feira, 15 de março de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – QUARTA PARTE: a rede


Atrás, da E. pra D.: Maninha, Lúcia e Edna. Sentadas, da E. pra D.: Ana, Goretti, Clêide e Fátima

Atrás, da E. pra D.: Edna, Maninha com o Miguel nos braços e Lúcia com a Teca nos braços. Sentados, da E. pra D.: Goretti, Fátima,R. Luiz, Clêide e Ana


A rede! Quanto simbolismo teve pra nós!  Nela brincávamos de barquinho, de balanço, de bonecas e tudo mais. Nela dormíamos. Cinco em cada quarto. Embaixo de cada,  a bacia para aparar o xixi solto. No canto do quarto, o candeeiro para espantar as almas do outro mundo e o uninol. A rede era o nosso refúgio e parque de diversões. Uma vez, de tão cheia, o armador arrebentou e caímos todos no chão. A Clêide sangrando no rosto, a mamãe chorando abraçada ao papai, pensando que ela tinha perdido a visão. Que nada! Foi só um arranhão.  
A rede! Amalgamada à vida do nordestino ela está presente desde o seu nascimento até a sua morte. Ao nascer é o berço que o embala, na doença é a maca que o transporta ao hospital e na morte é o caixão que o leva à última morada. Nela, o nordestino dorme a vida inteira, as crianças brincam, os adultos namoram, as mulheres parem seus filhos. A rede no Nordeste não é privilégio de ninguém, pois tem para os ricos e para os pobres também. As dos ricos são grandes, bordadas, com varandas de crochê ou de renda. As dos pobres são listradas, quadriculadas, sem varandas e bem pequenas. Têm redes de todos os tipos: lisas, brancas, coloridas e dos mais diversos tecidos. Tem rede pensa, rede funda, com punhos quebrados, fundo rasgado e até com o fundo remendado. Tem de algodão fino, algodão grosso, tem de corda, tem de nylon e com fio entrelaçado. Tem a rede de tucum feita com a fibra da carnaúba.  Tem até a das bonecas, pra meninada brincar.  Tem rede berço para os recém-nascidos, tem para as crianças, para os velhos, para os casais, para os gordos e para os magros, tem pra todos os mortais.   
Acordávamos bem cedinho, as babás vestiam nossas fardas, calçavam nossas meias e sapatos, arrumavam as bolsas e saíamos para o colégio “Nossa Senhora Auxiliadora” das irmãs salesianas, onde estudávamos. Na volta, com muita fome, íamos direto almoçar. Papai, mamãe, a mesa grande e farta, a pia, o pátio, a cadeira alta, o gradeado de madeira, as mangas e bananas dentro dos caçuás. Depois do dever de casa ganhávamos as calçadas e íamos brincar. Pulávamos das jardineiras, brincávamos de manjôo, esconde-esconde, cobra-cega, pular corda, macaca, arrodeávamos o quarteirão. Nas brincadeiras de roda as cantigas todas sabíamos cantar.
 Atirei o pau no gato...
 Eu fui ao tororó beber água e não achei...
Ai bota aqui, ai bota aqui o seu pezinho...
Cai, cai, balão, cai, cai, balão aqui na minha mão...
Terezinha de Jesus deu uma queda e foi ao chão...
Como pode o peixe vivo viver fora da água fria...
O meu boi morreu, o que será de mim...
Ai eu entrei na roda, ai eu não sei como se dança...
Cachorrinho está latindo lá no fundo do quintal...
Há três noites que eu não durmo, ola lá...
Roda pião, bambeia pião!...
Meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá...
Escravos de Jó jogavam caxangá...
A barata diz que tem sete saias de filó...
Pai Francisco entrou na roda, tocando o seu violão...
Marcha soldado cabeça de papel...
Pirulito que bate, bate, pirulito que já bateu...
Samba Lelê ta doente, ta com a cabeça quebrada...
O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada...
Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...
 A que mais gostávamos era “Se esta rua fosse minha” talvez por sua nostalgia e por falar de amor
“Se esta rua, se esta rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar,
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes,
Só pro meu, só pro meu amor passar.
Nesta rua, nesta rua tem um bosque,
Que se chama que se chama solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo,
Que roubou, que roubou meu coração.
Se eu roubei, se eu roubei teu coração,
Tu roubaste, tu roubaste o meu também.
Se eu roubei se eu roubei teu coração,
É porque é porque te quero bem”.

E assim anoitecia...

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, novembro de 2002.

2 comentários:

  1. Ana, que saudades da nossa infância, das brincadeiras e das cantigas. Éramos felizes e inocentes. Como é bom recordar o passado e os bons momentos. Obrigada por mais este presente!

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  2. De nada, Edna. Os tempos eram outros e, em muitos aspectos, melhores.

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