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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A CASA DE MEUS PAIS – PRIMEIRA PARTE: o Cine Beco

Minha mãe - Maria Adelina

Meu pai - Miguel Edgy


Sentados da E. pra D.: Ana Margarida, Goretti, R. Luiz, Clêide e Fátima. Em pé, da E. pra D.: Maninha, Lúcia e Edna

Da E. pra D.: Edna , Lúcia e Maninha


Da E. pra D.: Lúcia com a Fátima no colo, Goretti, Edna, Ana, R. Luiz e Maninha com a Clêide no colo.


Da E. pra D.: Lúcia, Maninha, Edna, R. Luiz, Ana e Goretti.

Da E. pra D.: Goretti, Ana, R. Luiz, Edna, Maninha e Lúcia.

Da E. pra D.: Goretti, Ana, R. Luiz, Edna, Maninha e Lúcia com a Clêide no colo.


Nos anos cinquenta do século XX, década de minha infância, morávamos em Baturité, na rua 7 de setembro. A nossa casa fazia esquina com um beco estreito (cine beco) que ligava a nossa rua à 15 de novembro. Na frente da casa, duas jardineiras altas eram separadas por um batente e uma porta. Adentrando, três degraus, um corredor comprido que ia até à sala de jantar, três quartos à direita e três à esquerda, um pátio interno, uma cozinha com um fogão à lenha, um banheiro e um grande quintal com um tanque, nossa piscina.
O primeiro quarto à esquerda era o escritório de meu pai;  bureau, radiola, filmadora, projetor, máquina fotográfica, duas estantes repletas de livros, enciclopédias, revistas “O Cruzeiro”, “Seleções”, o jornal “A Verdade”, fotografias, rolos de filmes, discos e outros objetos adornavam-no.  Duas fotos grandes, separadas por um crucifixo de prata, ornavam as paredes. Meu pai, ainda bem moço, com sua farda de capitão do exército, quepe e seu olhar apaixonado e sonhador.  Minha mãe, linda, com  cachos dourados, vestido preto de renda e seus olhos verdes e serenos, transparecendo sua alma completamente apaixonada. Formavam um belo casal!
 Uma janela dava para a jardineira e a outra para o beco. Através da última, meu pai projetava na parede do outro lado do beco, para a alegria de todos, os mais maravilhosos filmes de nossa infância. Era o cine beco! Entrada franca!
Resquício do cine que meu pai possuiu na rua 15 e que, ao se eleger prefeito, vendeu para D. Emília, o cine beco fazia o maior sucesso! Nele, assistíamos alguns curtas metragens. Lembro-me dos filmes: os golfinhos e o balé aquático.  Os melhores e mais esperados eram àqueles produzidos e dirigidos pelo meu pai. Nós e nossos primos e primas (Núbia, Liana, Vera, Regina, Níobe, Glória, Tetê, Ico, Luis Achilles etc), estrelas e astros de cinema, na tela projetados, nas ocasiões mais diversas: na cadeirinha de balanço, na cadeira alta, na bicicleta da Lúcia, no velocípede do Raimundo Luiz, correndo na praça, brincando de roda, nas festas de aniversários e nos batizados.  O sucesso era total! Um dos filmes mudo, em preto e branco, mostrava, na cadeira alta, a Lúcia com um papel e um lápis escrevendo uma carta para a vovó. Pela leitura labial ela dizia: papai, mamãe e vovó. A Maninha, linda de cachinhos, com um lápis na boca repetia a mesma coisa e a Edna, também. Na pracinha dos Correios, a Maninha e a Lúcia abraçadas. Todos nós fomos filmados na cadeira alta. Em outro filme, a Lúcia tocando seu acordeon, o papai bem moço no escritório, em Fortaleza, falando ao telefone. Imagens na casa da vovó Adelina, mostravam a mamãe com as irmãs e irmãos. Em outro filme, a vovó Adelina, o vovô Lulu, filhos, genros e noras no Passeio Público, em Fortaleza. O noivado do tio Nelson com a tia Teresa, o casamento da tia Mazé e imagens no Colégio Salesiana, nas formaturas das tias: Juca, Tereza e Mazé foram feitas pelo meu pai. Aliás, o papai filmou e fotografou toda a família. 
 Não conheci o cine da rua 15 de novembro, mas a mamãe contava que o próprio papai manejava o projetor e dirigia a sessão. As crianças tinham entrada franca. Eram filmes de Cawboys, aventuras de Tarzan, Jim das Selvas, o Zorro, as comédias do gordo e do magro e os filmes de Charles Chaplin.  Carlitos, o genial palhaço, o eterno vagabundo, o inesquecível, o rei do riso, chegou à Baturité pelas mãos de meu pai. Os dramas eram  só para os adultos.  Muitos clássicos foram projetados! Casablanca, com sua magia e bela história de amor, foi um deles. O vigário de Baturité, escandalizado com a fita, fez uma carta de protesto para a minha avó. Mal podia imaginar que casablanca tornar-se-ia um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos.


                                                                    Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
                                                                                              São Paulo, 2002.

8 comentários:

  1. Que texto maravilhoso! Parabéns, Ana! Lembrança boa da minha infância que guardo com saudade na memória. Uma família unida pelo amor, forte e cheia de vida. Agradeço a Deus todos os dias pelos meus pais tão queridos e os irmãos que continuam dando a minha vida um sentido muito especial.

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  2. Obrigada, Edna! Este texto, "A casa de meus pais", é bem longo e, por isso, eu resolvi desmembrá-lo. Aguarde o restante...

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  3. DO FACEBOOK

    Nubia Cardoso:
    ESPERAVA TODOS OS DIAS DE MINHAS FÉRIAS EM BATURITÉ ESSES FILMES NO BECO....ELES ATRAVESSARAM MINHA INFÂNCIA E MINHA ADOLESCÊNCIA....

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  4. Núbia, lembro-me muito de você nesses filmes, na pracinha brincando de roda com Lúcia, Maninha, Edna e Liana.

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  5. DO FACEBOOK

    Assis Arruda:
    Faz parte da história de nossa querida Baturité.

    Luiz Arruda:
    Belos momentos, grandes saudades.

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  6. Cara Ana Margarida,
    Você, como memorialista, além da sua pena competente, dispõe de um acervo maravilhoso, graças, em parte, aos cuidados fotográficos e cinegráficos do Cap Miguel Eddy.
    Abraços,

    Marcelo Gurgel

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  7. Obrigada pelo comenário, Marcelo! Sem dúvida, meu pai é grande responsável pelas minhas memórias. Deixou um belo legado.

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  8. D FACEBOOK

    Maria Helena Santiago Silveira:
    Sempre vejo tudo que vc posta ,me acrescenta muito ,adoro historias até resgato momentos quase iguais aos meus ,afinal somos nascidas na mesma época .......sou sua fã,estou esperando a segunda parte.
    15 de Fevereiro às 09:45 · Curtir (desfazer) · 1

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