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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A HISTÓRIA E A REVOLUÇÃO FRANCESA

Jules Michelet (1798-1874)

Lucien Febvre (1878-1956)


A desagregação de um sistema muito bem articulado, como era o absolutismo na França, só foi conseguido através da Revolução Francesa que, por outro lado, teve, também, um papel decisivo na História.
A Revolução Francesa deu origem a um poderoso movimento intelectual liderado por alguns historiadores como: François Guizot (1787-1874), Augustin Thierry (1795-1856),  Adolphe Thiers (1797-1877) e Jules Michetet (1798-1874), entre outros.
Filho de um artesão gráfico, Michelet foi doutor em letras aos 21 anos. Em 1838,  entrou para os Arquivos Nacionais e começou a lecionar no Collège de France, onde seus cursos obtiveram enorme sucesso. 
À partir de 1825, publicou diversas obras, entre as quais: Introduction a L’histoire Universelle, onde expôs sua concepção de História. Após 1840, começou a pregar idéias democráticas e anticlericais. Preparou sua Histoire de la Revolution Francaise, que apareceu de 1847 a 1853. Retomou sua Histoire du XIXe siècle que, com sua morte, não pôde ser concluída.
A obra de Michetet fundamenta-se em uma documentação rigorosa. Ele não dissimula paixões: ódio aos reis e a Igreja, amor ao povo. Criticado pelos positivistas, contestado pelos partidários de Maurras e pelos Marxistas, Michetet foi reabilitado pela Escola dos Annales.
Segundo Lucien Febvre (um dos criadores da Escola dos Annales), “A História e o estado de espírito que ela devia engendrar nasceram desses grandes movimentos de fluxo e refluxo, que, na sua alternância, descobrem em nossa França ora praias secas, nuas, bem lavadas pelas ondas, banhadas de luz fria, igual e sem mistério; ora praias encharcadas de umidade...” 
Foi em fins do século XVIII, que este terreno fértil propiciou aos historiadores uma atmosfera encorajadora para que a História pudesse desabrochar. Assim, a Revolução Francesa agiu de duas formas na gênese da História: direta e positivamente e indireta e negativamente. Vamos ver como isto foi abordado por Febvre. Segundo ele, o que a Revolução fez foi fundamental e positivo à medida que promoveu o povo à dignidade de agente e de sujeito da História. Até então, e por muito tempo, o historiador era o mais fiel contador dos feitos dos reis, de suas vitórias, suas conquistas  etc, tornando a História unilateral, voltada para o  poder. Ao historiador cabia escrever para agradar à classe dominante.  
Durante a Revolução Francesa pessoas comuns e anônimas emergiram da massa como: Roland, Desmoulins, Danton, Robespierre e outros. Até o pequeno Bonaparte. Nesta fase não houve usurpação do trono e nem substituto do rei, mas, sim, a nação tomando o poder na França. Febvre faz grande apelo ao nascimento da nação que, em 1789, com o desmoronamento do absolutismo, assumiu a qualidade de sujeito da História.
Assim, a Revolução Francesa constituiu uma nova ideologia que fez perecer o Antigo Regime e promoveu a Nova História. Mesmo quando pensa em Voltaire e nas suas obras, Febvre sugere que os moldes eram ainda tradicionais, quando a glória não era dos povos, mas dos déspotas esclarecidos, seus amigos. Além disso, a ironia que marcava a sua obra e o seu nada modesto comportamento sufocou-lhe a inteligência.
Como a Revolução Francesa agiu indireta e negativamente? Febvre explica: Quando há uma revolução rompemos com o passado. E como este estava mal sedimentado na consciência dos homens daquela época, houve esta ruptura. Exemplificando: Logo após a decaptação de Luis XVI, supõe-se que todos já haviam esquecidos os Bourbons na França. As gerações entre 1780 e 1800 foram bastante sacrificadas. A ruptura com o Antigo Regime reprimiu qualquer manifestação relacionada ao passado. O silêncio era a palavra de ordem. Temos, finalmente, após esse período, a geração que, em 1815,  criou a História Nova.
Edgar Quinet, historiador francês, cita as dificuldades que sofreu quando, em sua infância e juventude, se reportava ao passado, na escola e na família. Todos eram obrigados a conviver com o silêncio em um período em que a tradição nas famílias era oral e a cultura era quase inexistente. Os pais preparavam os seus filhos para serem recrutados para o exército de Napoleão. Até que um dia, a derrota de Waterloo, fez a França, novamente, e com mais força, ser sacudida. Foi a mais fecunda e radical de todas as revoluções do século XIX.  No pós-Waterloo vemos, naquele “fluxo e refluxo” da  História, outro período propício para um novo renascimento de gênios, homens de talentos e conseqüentemente da História.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2004.

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