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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A NUDEZ DE MARIA ANTONIETTA EM DOIS MOMENTOS DE SUA VIDA*

Maria Antonieta na conciergerie (REPRESENTAÇÃO)

Maria Antonieta

Maria Antonieta


O dia mal clareara naquela manhã de 16 de outubro de 1793. Na pequena mesa ainda queimavam duas velas iluminando, debilmente, o escuro e fúnebre cárcere da Conciergerie, que durante os últimos 70 dias abrigara a Rainha da França. Lá fora, os tambores rufavam, por toda a cidade de Paris, anunciando mais um espetáculo da Revolução que logo iria se desenrolar em praça pública. Rosália, uma camponesa, entrou na cela com um caldo, trêmula e cheia de piedade. Maria Antonieta após passar a noite em claro resolveu escrever uma carta para sua cunhada, recomendando os filhos.
Vencida pelo cansaço, deitou-se na cama com seu vestido preto de viúva do Rei da França, mas era preciso levantar-se e despir-se para pôr um vestido branco, pois assim deveria comparecer ao cadafalso naquela manhã histórica. O carcereiro, que guardava sua cela, tinha ordem de não se afastar e a Rainha, para esconder sua nudez dos olhos daquele homem rústico do povo, colocou-se em um pequeno vão entre a parede e a cama e começou a despir-se. O corpo fenecido pelo tempo e sofrimento já não era o mesmo da adolescente de 14 anos que outrora, em uma ilha no meio do rio Reno, ao despir-se, resplandeceu iluminando a antecâmara daquele luxuoso pavilhão e os olhos do séqüito de nobres austríacos, que acompanhavam a arquiduquesa naquela suntuosa cerimônia. 
Completamente nua e linda, no esplendor de sua pureza virginal, com seus cabelos de um louro muito claro, seus olhos de um azul profundo, seu corpo esbelto, delicado e gracioso de adolescente, recebeu a mais fina seda francesa para cobrir sua nudez e sair dali como Delfina da França. Do outro lado do Reno, em uma luxuosa carruagem, o Rei Louis XV e seu neto, futuro Rei Louis XVI, aguardavam, com ansiedade, a chegada da Delfina que deixava para sempre o palácio de Schoenbrunn, o convívio alegre com seus irmãos, suas brincadeiras infantis e o carinho de sua mãe, Maria Teresa, para seguir o seu destino de Rainha da França.                                    
            24 anos depois, Maria Antonietta despia-se novamente. Agora, naquela triste cela, úmida e escura, da Conciergerie com sua magnífica arquitetura gótica, porém lúgubre para a prisioneira. Maria Antonietta não tinha mais o brilho da juventude, porém seu corpo resplandecia mais uma vez, iluminando o cárcere escuro, com sua alma purificada pelos sofrimentos enfrentados, com resignação, nos últimos quatro anos. Rosália ajudou a pôr o modesto vestido branco de algodão, a colocar um véu de mussolini no pescoço e a cobrir, com uma touca, os cabelos completamente brancos, apesar de ter apenas 38 anos. Seu rosto estava cansado e envelhecido, mas conservava a misteriosa força magnética de encantar as pessoas.
Maria Antonietta desejava a morte, mas precisava reunir forças para morrer com dignidade, precisava mostrar aos franceses como morre uma Habsburgo, filha de Maria Teresa. Às 10h00min, entrou o carrasco Sanson para lhe cortar os cabelos e ela, sem a menor reação, deixou também que lhe amarassem as mãos nas costas com uma corda. Estava decidida a salvar sua honra e não demonstraria algum sinal de fraqueza.
Lá fora esperavam por ela, uma carroça puxada por um cavalo e uma multidão de 10 mil pessoas, que se apinhavam para mais um dia de espetáculo oferecido pela guilhotina, em nome de “liberté, égalité et fraternité”. Sentada na dura tábua da carroça, a Rainha da França olhava firme para frente sem oferecer à curiosidade da multidão um sinal de medo ou de dor. Parecia nada ver e nada ouvir. Nenhum tremor lhe agitou os lábios, nenhum estremecimento passou pelo seu corpo. Senhora absoluta de seu destino parecia ter consciência do momento histórico que vivia.
A carroça parou diante do patíbulo. Maria Antonietta subiu os degraus do palco de madeira com a mesma graça e agilidade com que outrora subia as escadarias de mármore do “Palais de Versailles”. O silêncio se apossou daquela praça. Os carrascos pegaram-na pelos ombros e a deitaram sobre o patíbulo e, acima, a lâmina da guilhotina brilhava de tão afiada. Uma puxada na corda, um lampejo no cutelo, um golpe surdo e a imortalidade para Maria Antonietta.

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg
São Paulo, 2 de novembro de 2004.



*Este relato se restringe a fixar dois momentos da vida de Maria Antonietta, marcados com sua nudez. No primeiro, com todo esplendor, ela entrou para vida como Delfina e futura Rainha da França e no segundo, trágico, despida de sua realeza, entrou para a História.



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