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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

UM DIA EM PARIS - Passeio nº. 3

Ana Margarida. Paris, 19 de setembro de 2008.

Ana Margarida. Paris, 19 de setembro de 2008.
                                         UM DIA EM PARIS - Passeio nº. 3

            Nossa terceira parada era a Catedral de Notre Dame, mas, antes, eu precisava passar na livraria. Saimos do Panthéon, descemos o Boulevard Saint Michel, também conhecido como Boulemiche, em direção ao Sena. Construído pelo Barão de Haussmann, em 1864, no Quartier Latin, o referido boulevard ficou famoso pelos cafés literários. Hoje, está repleto de livrarias e lojas de roupas. Cruzamos a Rue des Écoles e, ao passarmos pertinho da Sorbonne, lembrei-me de maio de 1968, e do famoso enfrentamento entre a polícia e os estudantes, ali, no Boulemiche.
            Seguimos em frente e paramos rapidamente ao lado do Musée Cluny, Museu Nacional da Idade Média, construído em uma mansão medieval com ruínas galo-romanas. Tantas vezes estive lá com o Rose, mas, infelizmente, por falta de tempo, não poderia mostrá-lo à Nilze. Lembrei-me da Yone, medievalista, minha professora da PUC, que, em sua primeira visita ao museu, ficou  emocionada e não conseguiu adentrá-lo. Dentre sua bela coleção de arte e objetos medievais podemos apreciar a famosa série de 6 tapeçarias, tecidas no final do século XV, chamada “Mulher com o Unicórnio”. Porém, seu ponto alto são as ruinas das termas galo-romanas, construídas em 200 a.C.
            De repente, estávamos no cruzamento mais famoso do Quartier Latin. O Boulevard Saint Germain com o Boulevard Saint Michel. Atravessamos a avenida e fomos à livraria Gibert Jeune. Como a Nilze estava querendo comprar um xale para ir ao Moulin Rouge e eu querendo comprar livros para o meu neto, marcamos um reencontro, em frente à livraria, dentro de meia hora.  
            Com ansiedade fui até o último andar para ver os livros infantis. No meio de tantos consegui selecionar 13. Entre os do Pepê, um para a Beatriz, netinha da Ângela Brito e outro para a Fátima Assunção. Como gostaria de poder ficar o resto do dia lá, lendo, manuseando e comprando livros de História! O tempo foi curto e sai quase correndo.
            Difícil foi escolher um restaurante naquelas ruelas do Quartier Latin. Eram tantos... Finalmente encontramos um que nos agradou. Pedi uma sopa de cebola, que os franceses chamam de soupe à l’oignon e a Nilze, na falta de um baião de dois, um spagetti. Ali pertinho estava a Igreja Saint Severin, uma das mais antigas de Paris, mas não havia tempo para uma visita.
            Sua construção foi iniciada no século XIII e, somente após 300 anos, foi concluída. Seu nome homenageia o eremita, Severin, que viveu no local. Com seu gótico flamboyant, suas gárgulas e seus vitrais é uma das mais lindas Igrejas de Paris. Lá estivemos várias vezes, eu e o Rose, e ouvimos, certa ocasião, o som celestial de seu órgão, que foi importado da Alemanha pela sobrinha de Rei Luis XIV, a Grande Mademoiselle.
            Saímos do restaurante, atravessamos uma ruela, caímos no Quai Saint Michel, seguimos em frente e passamos ao lado do restaurante Notre Dame (que na noite anterior abrigou uma parte do grupo, depois de uma longa caminhada), viramos à esquerda na Petit Pont e vislumbramos, mais de perto, a majestosa Catedral.  Situada na Île de la Cité, o coração de Paris, ela se queda imponente e bela, em sua parte posterior, beirando o Sena.
            Nem podíamos acreditar que estávamos pisando naquela ilha, com formato de um barco, que deu origem à cidade de Paris. Habitada por tribos celtas, há mais de 2 mil anos, a referida  ilha oferecia um ponto de cruzamento do Rio Sena entre o norte e o sul da região chamada Gália. Parisii, que deu o nome a cidade de Paris, era uma dessas tribos que habitaram a ilha, na época uma aldeia chamada de Lutécia.  
            Na Praça Parvis Notre Dame tiramos fotos pegando o melhor ângulo para enquadrar a Catedral.  À esquerda, contemplamos o Hotel Dieu, a Santa Casa de Paris, que foi erguida sobre um orfanato que funcionou de 1866 a 1878. O Hotel Dieu original, construído no século XII, atravessava a ilha de lado a lado, mas foi demolido, no século XIX, pelo Barão de Haussmann. Atravessamos a Praça Parvis em direção a Catedral. Pensei na Crypte Archéologique abaixo de nossos pés, numa faixa subterrânea de 80 metros, que exibe alicerces e paredes da época da Aldeia Lutécia, centenas de anos mais antigos do que a Catedral.
            Notre Dame é uma magnífica obra prima gótica. O local da mesma tem uma forte história ao culto religioso, pois os celtas ali celebravam suas cerimônias, os romanos construíram um templo ao Deus Júpiter e a primeira Igreja do cristianismo de Paris, a Basílica de Saint-Etienne, projetada por volta de 528 d.C., também, foi erguida lá. Em 1163, após a demolição da Basílica, o Papa Alexandre III lançou a primeira pedra da Catedral. Após 170 anos de trabalho de milhares de arquitetos e artesãos medievais a mesma foi concluída. Em sua fachada principal admiramos, abaixo de suas duas torres, a “Rosácea Oeste”, a fantástica “Galeria dos Reis”, com 28 estátuas dos Reis de Judá, e os três grandes portais.
            Ao contemplar seu interior, veio, como sempre, o choque visual, causado pela beleza estonteante da alta abóbada de sua nave central, cortada por um imenso transepto. No fundo, visualizei o coro com os entalhes de Jean Ravy e, atrás do altar principal, a Pietá, de Nicolas Cousteau, sobre um pedestal dourado, esculpido por François Girardon. Sem perder muito tempo, fomos até o transepto para admirar as rosáceas com seus vitrais coloridos. A “Rosácea Norte”, no extremo norte do transepto, mostra Maria cercada de personagens do velho testamento. A “Rosácea Sul”, do lado oposto, mostra Cristo cercado por virgens, santos e os 12 apóstolos. Contornamos a Catedral pelo lado direito e passamos em frente ao museu, anexo, que abriga preciosidades religiosas, como manuscritos e relicários antigos. Lembrei-me de minhas irmãs, Goretti, Fátima e Carminha que estiveram comigo visitando o museu, em 2006.        Na parte posterior da Catedral, visualizamos sua maquete. Tiramos fotos, comprei uma medalha para minha amiga Cidinha e saímos sem subir os 387 degraus que levam ao topo da torre norte, onde se pode apreciar as famosas gárgulas e a magnífica vista de Paris. Também não tivemos tempo de contornar a Catedral para apreciar seus espetaculares arcobotantes e sua torre agulha que ergue-se a uma altura de 90 metros.
            Lembrei-me que aquela Catedral foi cenário majestoso para a coroação de tantos reis e imperadores, inclusive Napoleão, que coroou Josefina e a si próprio, em 2 de dezembro de 1804, como podemos constatar na magnífica tela de Jacques Louis Davi que encontra-se no Museu do Louvre.
            Notre Dame, também, foi palco de violência quando os revolucionários a saquearam, aboliram a religião e a transformaram em um templo ao culto da razão e, depois, em um depósito de vinho. Em 1804, Napoleão restaurou a religião e, em 1831, Victor Hugo escreveu o famoso romance “O Corcunda de Notre-Dame”, tendo como pano de fundo a Catedral, durante a Idade Média.
            Finalmente, deixamos, com certa nostalgia, Notre Dame em busca de nossa quarta parada, Montmartre.
  
Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg

SAMPA, 19 de outubro de 2008.

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